13/10/2026

Soli Deo Gloria

V
er e ouvir a música no papel




Há obras que se tornam únicas, pelas várias abordagens e leituras que permitem ao leitor, em função das suas características intrínsecas ou do momento emocional em que ele se aproxima do livro. Como “Soli Deo Gloria”, editada pela Ala dos Livros.

A primeira leitura, mais imediata e simplista, limitar-se-à a acompanhar a história de dois gémeos, Hans e Helma, nascidos sob o céu sombrio do Sacro Império Romano-Germânico. Partilham penúria e sofrimento, viram os pais mortos por saqueadores, foram acolhidos por um eremita, estiveram num orfanato católico, foram apoiados por mecenas, unidos pelo vínculo tão especial que só os gémeos sentem, vincado num romance sobre iniciação e a capacidade de enfrentar cada desafio que a vida traz, embalados pelas árias maravilhosas que compõem juntos. que ela canta e ele toca.

Mas este sumptuoso, consistente e pesado volume, é também um passeio histórico por algumas das grandes urbes do século XVIII, projectadas em lugares imaginários . E também, em jeito de pano de fundo e contextualização, uma dissertação sobre sistemas político-religiosos, pelo contraste entre a opulência de uns poucos e a miséria de tantos, pelo aproveitamento que a religião tantas vezes faz daqueles que deveria cuidar e proteger, por desvios sociais que vão do casamento infantil à compra e venda de seres humanos...

Mas, acima de tudo, “Soli Deo Gloris”, algo traduzível como “glória somente a Deus”, é uma belíssima ode à música e à sua importância na vida, venha ela dos sons da natureza, composta por seres humanos especialmente dotados, reproduzida através de instrumentos tão simples e maravilhosos como a voz ou tão complexos como os criados pelo engenho humano. E é, ainda, um olhar apaixonado pela criação artística, pelos difíceis equilíbrios que ela exige e pela dor e a sublime fruição que só ela propícia.

O grande mérito dos seus autores, Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour está no equilíbrio perfeito entre o tom romanesco, uma planificação tradicional, um traço semi-caricatural e o estilo barroco dos cenários, com um virtuosismo gráfico em que o preto e branco predominante é aqui e ali riscado por apontamentos de cor que despertam volúpias e permitem ao leitor visualizar - e talvez ouvir… - a música omnipresente ao longo de todo o relato.


Soli Deo Gloria
Jean-Christophe Deveney (argumento)
Édouard Cour (desenho)
Ala dos Livros
Portugal, Julho de 2026
235 x 310 mm, 280 p., pb com apontamentos de cor, capa dura
37,50 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 2 de Outubro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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