Uma outra história da origem do Super-Homem
No início deste século, dois autores talentosos, os norte-americanos Jeph Loeb e Tim Sale, decidiram pintar os super-heróis com cores específicas, de acordo com as características que viam neles e segundo as histórias que queriam contar. Essas narrativas, que se desviavam da linha canónica das personagens, mas sem renegar nada da sua essência, assumiram títulos evocativos do tom da paleta que predominava: Homem-Aranha: Azul, Demolidor: Amarelo, Hulk: Cinza ou Capitão América: Branco.
Todas elas, centravam-se mais no ser humano do que propriamente no super-herói e tinham como ponto distintivo a arte de Sale, assente num traço fino linha clara, com uma planificação tradicional entrecortada por vinhetas de formato generoso, ao serviço da narrativa, mais próximo do registo europeu do que do modelo tradicional dos comics americanos.
Poucos anos antes, Loeb e Sale, já tinham feito algum similar com o Super-Homem, não aplicando-lhe uma cor específica, mas criando uma narrativa que acompanhava cromática e tematicamente as sucessivas estações de um ano decisivo, aquele em que o jovem Clark Kent trocou Smalville por Metropolis. Levou por título Super-Homem: As quatro estações e a Devir acaba de o disponibilizar em português, na sua colecção de bolso, cujo pequeno formato é de algum modo compensado pelo preço muito atractivo.
Uma das particularidades do relato é que cada um dos quatro capítulos, correspondentes a cada uma das estações, é narrada por uma personagem diferente: o pai, a repórter Lois Lane, Lex Luthor, o seu maior adversário, e Lana Lang, a namorada da adolescência. E se, de certa forma, isto oferece quatro tons diferentes a cada um dos momentos, consoante a forma como cada um foi afectado por aquele ser extraordinário, a verdade é que todos eles, somados, mais não são do que a necessidade de tomar decisões, para o presente e para o futuro, por parte de um jovem, Clark Kent, tão diferente de todos os seres que o rodeiam, à procura do seu lugar no mundo que o acolheu e a tentar decidir qual a melhor forma de utilizar os seus poderes em função dos outros.
Alguns verão aqui, justamente, uma das visões mais puras e ingénuas da origem desta personagem icónica que, em quase nove décadas, já assumiu tantas facetas, mas a verdade é que é essa visão, que contrasta com o aspecto imponente com que Sale o dotou, que dá a esta busca iniciática de si próprio uma capacidade de seduzir tão marcante e torna especial esta outra história da origem de Superman.
Nota final
Reler
uma obra é muitas vezes descobrir uma obra nova. Voltar a escrever
sobre ela, é oportunidade redobrada de descobrir aspectos que
falharam da primeira vez - ou para confirmar o que a primeira
escrita tinha registado.
Ao reler uma obra com intenção de
voltar a escrever sobre ela, nunca releio antecipadamente o que já
escrevi. Voltou a acontecer com este Super-Homem:
As quatro estações,
lido há muitos anos na sua versão original. Se quiserem comparar
este texto de 2026 com o que publiquei em 2013 aqui no blog, bastas eguirem esta ligação.
Super-Homem:
As quatro estações
Jeph
Loeb (argumento)
Tim
Sale (desenho)
Devir
Portugal,
Setembro de 2026
148
x 210 mm, 232
p., cor,
capa mole com badanas
10,00
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 10 de Outubro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Devir; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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