Tempo
de luto
Quem costuma passar por este blog - e são muitos! - sabe que Jim é, de há uns anos a esta parte, um dos meus autores de eleição. Por isso, enquanto tento arranjar títulos mais antigos, vou também acompanhando os mais actuais, como é o caso deste díptico Zoé Carrington.
No posfácio do primeiro volume, Jim associa este romance gráfico a Une nuit à Rome e a Hélèna, como constituintes daquilo a que ele chama a ‘trilogia obsessiva’.
Curiosamente, quando iniciei a leitura senti-me algo incomodado, com uma sensação de déjà vu, Outra história de ‘ex’, desencadeada com um telefonema que combina um encontro 10 anos após a última vez que estiveram juntos… Mas acreditar nisto, nessa primeira impressão, na repetição temática - similar ao arranque de Une nuit à Rome - seria ignorar os talentos de contador que Jim tem alardeado álbum após álbum.
E a verdade é que a continuação da leitura me pôs perante mais uma obra-prima na exploração dos sentimentos e das relações humanos, devido à sua superior capacidade de criar situações limite e de as dotar de momentos surpreendentes enquanto se desenrolam perante os nosso olhos.
No caso presente, conhecemo0s Simon, JP e Rotthenberg, que os estudos - ou a falta de vontade para eles - levou até Londres para dois anos na faculdade. As loucuras da idade - a música, as drogas, as mulheres - arruinaram completamente os bons propósitos, e fizeram do que viria a ser um único ano londrino, um vazio na memória para toda vida.
Com uma excepção: a Zoé Carrington que dá título a esta obra, uma jovem sensual, muito louca e desinibida por quem, em momentos diferentes, de formas diferentes, todos se apaixonaram e com quem viveram (ou não) momentos escaldantes. Platónicos no caso de JP, por uma noite no caso de Rotthenberg e durante uma semana, no que diz respeito a Simon.Uma semana em que viveu loucamente com Zoé, numa proximidade e intimidade a toda a prova, que prometia um amor para a vida toda,… até que ela conheceu Leo. Com quem viria a casar.
Este intróito, narrado na primeira parte do tomo inicial, é evocado porque 10 anos após o regresso ao Velho Continente, os três amigos são contactados por Zoé - a quem nunca mais viram - para regressarem a Londres - onde nunca mais foram - para comemorarem os 30 anos de Leo.
Reticentes, acabam por aceitar e lá chegados, embalados pelas memórias das noites em claro e das muitas loucuras pós-adolescentes - e pelo desejo inconfesso de reencontrar a bela Zoé… - vão descobrir que…
Não posso avançar mais, iria estragar o prazer da leitura do tomo 1, iria desfazer a grande surpresa que ele encerra, mas posso garantir uma coisa: Zoé Carrington não tem nada de déjà vu e é uma leitura absolutamente aconselhável, não só por esta primeira surpresa chocante, mas também porque outras de igual calibre se seguirão, numa relato apaixonante e sedutor, em que Jim explora mais uma vez a fundo a mente e o coração do ser humano, os seus meandros, o que têm de expectável e o que lhes sobra de inexplicável em mais um belíssimo relato.
...que mais uma vez é servido por um desenho realista magnífico, com Zoé a não ficar a dever nada às outras protagonistas imaginadas por Jim e as cores de Delphine que compõem e definem como poucas os ambientes e momentos da narrativa.
Deixo uma nota final para referir o posfácio que Jim escreve no segundo volume, em que avalia as diferentes versões de um argumento escrito há muito, inicialmente pensado para ser um filme, num registo de partilha e sinceridade que tenho de assinalar e que ajuda a compreender - a aceitar…? - o desfecho que deu a Zoé Carrington.
Eu sei que não devo, sei que não posso, mas há leituras assim, tão impactantes, tão fortes, que mexem tanto comigo, que tenho vontade de especificar os seus acontecimentos marcantes, de desvendar tudo ao meu leitor - sabendo que se o fizesse iria estragar, destruir o prazer de uma leitura que eu tanta aconselho.
Porque, apesar de Jim criar alguma situações rocambolescas ou até de levar situações mais vulgares, se posso escrever assim, até ao limite, a verdade é que a forma como depois expõe sentimentos e relações, aproximam muito o que imaginou do que é a vida real.
...porque a vida real tanto é cor-de-rosa, por vezes - e felizes aqueles que a conseguem (vi)ver dessa cor - como assume todos os outros tons da vasta paleta de cores.
Zoé
Carrington 1 e 2
Jim
(argumento e desenho)
Rémi
Torregrossa (cenários)
Delphine
(cor)
Grand
Angle (selo da Bamboo Éditions)
França,
2024 e 2025
240
x 320 mm, 96 p.
(cada),
cor, capa dura
18,90
€ (cada)
(imagens disponibilizadas pela Grand Angle; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)






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