Ao encontro do futuro, revivendo o passado
Que bem que este ano está a começar no que à banda desenhada diz respeito. Rever Comanche, com que a ASA abriu as hostilidades em 2026, é pura emoção numa sentida e justa homenagem à memória de Comanche e Red Dust, as duas figuras maiores de um dos mais míticos western que a banda desenhada nos proporcionou, na conjugação da escrita inspirada de Greg e do traço sublime de Hermann.
[O texto que se segue, poderá ter aqui e ali, uma ou outra revelação, que foi necessária para o escrever mas nada que, em meu entender, revele demasiado sobre a obra; de qualquer forma, avencem por vossa conta e risco.]
Tudo começa quando uma jovem, grávida, chega a uma cabana meio abandonada, no meio do nada, onde vive um homem idoso. Contrariado, acabará por reconhecer que o seu nome é Red Dust e partirá com ela, num regresso conturbado ao rancho Triplo 6, no Wyoming.
Para quem leu (e releu) as aventuras de Red Dust e Comanche, para quem as vivenciou em pensamento, esta viagem despertará um sem número de emoções, que se atropelam sofregamente, com as sombras de outros tempos, tiroteios, cavalgadas, encontros e desencontros, a pairar por todas as páginas. Vamos ao encontro do futuro, revivendo o passado, sem sabermos o que aconteceu pelo meio. Reencontramos o Dust, duro, desajeitado e impulsivo, mas envelhecido porque o tempo não perdoa a ninguém, e com ele vamos descobrir o paradeiro dos seus antigos companheiros: Mancha de Lua, Toby, Clem… e ansiamos por rever Comanche.
Nuns Estados Unidos sob as consequências da Grande Depressão, afectados por tempestades de areia inusitadas que secaram territórios completos, a prepararem-se sem saber para entrar noutra guerra, esta é uma história de reencontro com o passado, de habituação aos fantasmas que assombraram uma vida, mas também a história de como a civilização e o progresso atropelaram a História e os seres humanos que ansiaram por manter as suas vivências tradicionais, independentemente da cor da sua pele.
Num relato intenso e consistente, cujo preto e branco sombrio acentua o seu tom crepuscular, em que há tempo para introspecção, saudade e reviver remorsos, mas também para afirmar a inevitabilidade de algumas ações violentas; Rever Comanche tem sequências memoráveis como a tarde no cinema ou o encontro com a família que perdeu um filho, de uma humanidade e uma riqueza que encantam ou incomodam.
Extremamente inspirado, o autor deu ao protagonista, o velho Dust, o rosto de Hermann e nomeou-o seu filho, e a nós, serviu um relato que arrepia, emociona e chega mesmo a fazer vibrar, num breve regresso a um passado que voltará sempre que regressarmos às belas páginas de Comanche, disponíveis em português num excelso preto e branco contrastante, em versão integral em três volumes com o selo da Ala dos Livros, sobre os quais escrevi neste blog:
Nota 1
Como é possível que, no livro, o ano de 1930 seja referido como a data em que a sua acção tem lugar - através de uma revelação marcante - e que a revista de banda desenhada que Viviane compra - Far West Romances, que existiu realmente… - seja datada de Abril de 1932?
Nota 2
Graficamente fiquei dividido: num estilo que tem cada vez mais cultores - José-Luis Munuera, com bons resultados, é um deles - que passa por apôr as personagens desenhadas em fundo fotográfico, Rever Comanche, se ganha com o tom sombrio assumido, perde em especial nas cenas que exigiam maior dinamismo, até porque o traço que define as personagens, nem sempre é bem conseguido…
Ou então tenho ainda na mente - inevitavelmente - o traço original de Hermann e estou a fazer comparações injustas com o de Romain Renard...
Rever
Comanche
Romain
Renard
ASA
Portugal,
Janeiro de 2026
240
x 318 mm, 152
p., pb,
capa dura
26,90
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 23 de Janeiro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens do álbum disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)




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