Ao ritmo lento de algumas braçadas
Penúltimo volume da colecção Angoulême, que a Devir dedica a obras premiadas no festival que se realiza naquela cidade francesa, O gosto do cloro leva-nos ao início da carreira de Bastien Vivès, um dos mais prolíferos e diversificados autores da sua geração.
[Que, relembro em jeito de parêntesis, está anunciado como convidado da Comic Con Portugal 2026, que terá lugar no Europarque, na Vila da Feira, entre 23 e 26 de Abril.]
Prémio Revelação em 2009, é o relato de encontros e desencontros entre dois jovens, numa piscina. Ele, desajeitado, quase obrigado, por indicação médica, devido a uma escoliose; ela, antiga nadadora, por gosto? por hábito?, para evocar boas memórias?
Estes dois protagonistas sem nome, ao longo de alguns meses, terão um encontro tácito mas não agendado, em muitas das quartas-feiras, naquela piscina, umas vezes infindável, com a margem oposta longínqua, outras curta, à medida de umas poucas braçadas lentas. Em função da companhia.
Vivès, dá neste livro uma lição de narrativa em BD, que iria explorar mais a fundo na obra seguinte, Dans mes yeux, em que a narrativa assenta no que a protagonista vê, como se os seus olhos fossem os do leitor. Mas, em O gosto do cloro, o destaque vai para a superior gestão dos silêncios, que se multiplicam em páginas sem texto escrito, enquanto se nada para a frente e para trás, olhando para o tecto inamovível e monótono, para o fundo difuso da piscina, ou para os braços e pernas que se movem desajeitados ou como numa dança bem ensaiada.
É uma história que espelha tantas realidades similares, que se desenrolam neste ou noutros cenários, sobre solidão e o desejo de estabelecer ligações, sobre timidez, falta de à-vontade e receio de ficar mal, em que Vivès expõe um jogo de conhecimento e sedução, ingénuo, sim, mas desafiador, feito de olhares, de silêncios, das poucas palavras que são ditas - e das muitas que ficam por dizer - do que se sente e do que o leitor, que deseja sempre mais, consegue intuir ou pensa adivinhar.
Um relato com muito de minimalista, no traço simples mas extremamente fluído, nos diversos tons lisos de verde, quase só entrecortados pela cor da pele dos protagonistas, que reproduzem o ambiente aquático em que maioritariamente se desenrola, transformando a leitura numa experiência quase sensorial, em que quase sentimos a humidade, os pingos do chapinar e o típico gosto do cloro.
O
gosto do cloro
Colecção
Angoulême
Bastien
Vivès
Devir
Portugal,
Janeiro de 2026
170 x 240 mm, 144 p., cor, capa
dura
22,00
€





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