Satisfeito q.b.
Sempre de pé atrás em relação aos argumentos de Yves Sente, raramente muito inspirado e frequentemente desinteressante, e pouco entusiasmado com os mais recentes volumes canónicos de Blake e Mortimer que este argumentista assinou, avancei para a leitura de A ameaça atlante sem grandes expectativas. A leitura acabou que se revelar uma agradável surpresa.
Reconheço, facilmente, que há alguns aspectos no argumento que exigem um salto de fé - mas não é isso que um leitor de ficção-cienfífica tem de fazer sempre? - mas globalmente o relato, dentro do expectável e dando o devido desconto à desnecessária (nos nossos dias) verborreia, desenrola-se de forma tão cativante quanto ingénua, num tom nostálgico bem à anos 1950, sem dúvida, e sem grande exigência intelectual. Revela-se na prática o que devia ser: um bom divertimento, descontraído, em que aventura e ficção se combinam - possivelmente, pelo menos em parte, devido à memória especial que tenho do ‘nosso’ O Enigma da Atlântida, cujas cenas mais marcantes me foram ressurgindo na memória à medida que avançava nesta leitura
É verdade que a ave que os protagonistas enfrentam no pântano de Nova Atlântida é pouco credível, a especificidade de Amyclas era desnecessária, como desnecessário era o que aconteceu a Mortimer quase no final - embora tenha sido preparado ao longo do álbum - já que serviu apenas para prolongar artificialmente a história até as 64 páginas tradicionais. E, obviamente, lamento que o regresso à temática da Atlântida não tenha servido para trazer os fleumáticos heróis britânicos de novo a território português.
Eu gostaria de ter visto prolongado no tempo - no número de páginas… - a sequência da travessia do pântano e que as sucessivas mudanças dos detentores do poder na Nova Atlântida fossem mais consistentes mas, não se pode ter tudo - embora se possa desejá-lo.
Graficamente, o traço de Peter Van Dongen apresenta demasiadas oscilações, aproximando-se e afastando-se do original de Jacobs que tenta emular - mostrando alguma falta de à-vontade na quase monástica tarefa de copista, com algumas vinhetas completamente desfasadas do grafismo global. É pena, igualmente, que o estudo da obra do mestre não o tenha ensinado a ilustrar capas, já que a escolha feita para a edição normal de A ameaça atlante deixa bastante a desejar - o álbum teve uma edição especial para a FNAC, com uma capa bem mais conseguida (ver acima).
Blake
e Mortimer - A ameaça atlante
Yves
Sente (argumento)
Peter Van Dongen (desenho)
ASA
Portugal,
Novembro de 2025
240 x 320 mm, 64 p., cor, capa dura
15,90
€
(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)




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