Em família
Há
histórias que nos agarram pelo desenho; há outras que nos cativam
pelo tema; algumas chegam até nós pelo desafio intelectual; outras
há que são pura emoção.
É
o caso de Domingos,
que marca a estreia de Sidney Gusman do outro lado.
Que é como quem escreve, do outro lado da secretária, não como editor que avalia, aceita ou recusa, aponta ou corrige, mas como o autor que cria - no caso que escreve… - que coloca no papel o que lhe vai na alma.
Na alma e no coração, literalmente, nesta viagem pela sua memória, em que evoca domingos (os dias da semana) que ele, Sidney DOMINGOS Gusman, passou, nas reuniões de família, com o seu pai, Domingos.
O título, extremamente feliz, pela coincidência de dias e nomes, é apenas a porta de entrada para dias felizes - nem todos… - plenos de recordações e daqueles momentos que formam o carácter e fazem crescer e transformam as pessoas no que são hoje.
“Mas...”, ouço já alguns a questionar, “o que tenho eu a ver com a relação do Sidney com o pai?”. No posfácio, o ‘nosso’ Filipe Melo esclarece liminarmente: “O Sidão conseguiu o mais difícil: uma história profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, tão universal.”
Porque todos - ou só quase todos, infelizmente… - temos memórias, boas memórias, de momentos passados com o pai - aos domingos ou noutro dia qualquer, na casa dele ou num sítio diferente. São outras, embora similares. São de jogos - de futebol ou de hóquei, ao vivo ou na televisão... - de alegrias familiares - o crescer da família, férias, passeios, a perda de entes queridos... - de conversas, do sucesso que a BD nos permitiu…
E, desculpem, já estou a sobrepôr as minhas memórias com as do Sidney, algo que aconteceu página após página, pelo que é narrado, sim, mas pela proximidade - ainda e sempre… - da data em que perdi o meu pai. Por isso, se esta foi uma leitura extremamente agradável e até divertida a espaços, foi também uma leitura de nó na garganta, de emoções em turbilhão, de recordações a atropelarem-se, daquelas leituras em que, quando fechamos o livro, temos vontade de recomeçar, só para reviver o que vai na nossa alma, para ir buscar ao fundo da nossa memória esses momentos tão especiais, outra vez.
Por isso, obrigado Sidney.
Conheço o Sidney Gusman pessoalmente há 20 anos - acompanho a sua actividade na área da BD - das HQ… - há alguns mais. Por isso tudo - tanto… - penso que o melhor elogio que posso fazer ao traço de Jefferson Costa, que acompanhou o Sidney argumentista nesta aventura, é que ele conseguiu reproduzir no papel, com um traço muito dinâmico e funcional, a energia, as expressões, a vivacidade, a alegria e a boa disposição do Sidney, dando vida e movimento a cada página.
Uma nota final para a edição da Pipoca & Nanquim, consistente mas leve, numa bela capa dura e papel baço, ‘amarelado pelo tempo’, a evocar velhos gibis…
Domingos
Sidney
Gusman (argumento)
Jefferson
Costa (desenho)
Pipoca
& Nanquim
Brasil,
Novembro de 2025
205
x 270 mm, 204 p., cor, capa dura
R$
109,90
(imagens disponibilizadas pela Pipoca & Nanquim; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)




Sem comentários:
Enviar um comentário