Diário íntimo de um sem-abrigo obeso
Há obras para as quais é difícil encontrar adjectivação. Não é o caso de Blast, de Manu Larcenet: é monumental.
Monumental, na forma. O primeiro volume, correspondente aos dois primeiros da edição original francófona, tem uma lombada com mais de 4 centímetros, mais de 400 páginas e pesa quase 2 kg.
Monumental, também, na forma narrativa. Apesar das suas mais de 400 páginas, Blast flui com uma leveza gráfica assinalável, sem cansar o leitor nem o convidar a pausas. O preto e branco de Larcenet, umas vezes surge ajustado com aguadas de cinzento, outras é preenchido por elas e outras ainda completamente sobrepujado por esses efeitos, e, aqui e ali, quando ocorre o ‘blast’, surgem, atrevidos, desenhos infantis coloridos, sinónimos de simplicidade e libertação. O conjunto, revela-se perfeito para a história contada e para retratar o seu protagonista, Colza.
Que é também ele monumental, uma imensa massa de carne com mais de 150 kg, uma carcaça gorda alimentada a álcool, drogas e chocolates, num regime de auto-destruição consciente, que o leva a abandonar todos - a começar pelo pai, à morte, numa cama de hospital - e tudo, num vaguear sem rumo, longe dos seus semelhantes.
Monumental, finalmente, pela crueza de um relato duro, violento - e violentador - em que sensações, impressões, emoções e as ilusões que Colza vai alimentando acerca de si próprio, se vão sucedendo a um ritmo incómodo que, se por um lado provoca repulsa, por outro prende quase como que uma droga viciante e obriga a prosseguir página após página.
Com a obra ainda a meio - a Ala dos Livros garante para o segundo semestre do ano, o segundo e último tomo da obra, igualmente monumental - são mais as dúvidas e as questões do que as respostas já dadas, num relato vagamente policial, em que o protagonista, suspeito de ter atacado uma mulher, é interrogado por dois polícias, aos quais vai narrando uma longa odisseia por campos, vales e montanhas, literalmente, feita de poucos encontros e muitos desencontros. Que Colza, ex-escritor de algum sucesso, nos relata com diálogos de qualidade literária, cuja excelência choca brutalmente com a crueldade do que é relatado, a sua própria condição e, acima de tudo, a consciência dela.
Uma odisseia em que ele persegue o ‘blast’, “o efeito de um sopro, a onda de choque de uma explosão (…) que ao entrar no nosso corpo provoca donos internos consideráveis”, um efeito etéreo, pontual e único, semelhante ao bater de uma droga forte que até lhe pode proporcionar a sensação de voar…
Manu Larcenet já me
proporcionou leituras superlativas. Da autobiográfica história de
vida de O Combate Quotidiano à violência que nos emudece e
deixa como que embrutecidos de O Relatório de Brodeck ou,
menos, desculpem-me, de A Estrada,
tem sido um autor capaz de se reinventar, gráfica e narrativamente,
para os deixar boquiabertos e maravilhados ao mesmo tempo, mesmo
quando esse maravilhar advém da sua capacidade de expor em banda
desenhada situações, sentimentos e emoções que só existem na
vida. Blast - mais
antigo… - agora, ainda vai a meio. Não sei para onde nos vai
levar, não sei com o que ainda vamos ser confrontados mas, confio em
Larcenet que no final a leitura será altamente compensadora.





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