Por
culpa de Trump
“Este quinto díptico foi-me quase imposto pela subida de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. O seu racismo descomplexado, a sua inaudita falta de cultura e de conhecimentos históricos, bem como a sua vontade absurda de querer dividir o mundo de acordo com as suas próprias convicções, levaram-me a tornar a mergulhar nesta terrível história dos onze soldados negros que foram executados na pequena aldeia de Wereth, bem no começo da batalha das Ardenas”
Jarbinet in Airborne 44, 9 - Black Boys
Escolhidos ao acaso do meio da grande pilha de leituras pendentes, onde já estavam há muitos meses, estes dois volumes da Airborne 44 revelaram-se extremamente apropriados ao momento que estamos a (re)viver, com o mundo - leia-se Donald Trump… - empenhado em mais uma guerra em cujas origens está também o não reconhecimento do direito à diferença.
Este quinto ciclo da série, decorre integralmente durante a 'reconquista' - com todos os inúmeros avanços e recuos - da França e da Bélgica pelas tropas norte-americanas, mas centra-se fundamentalmente em Virgil e Jay, ambos americanos, o primeiro, negro, o segundo, racista.
O relato faz-se quase todo ele da convivência forçada entre os dois a que o conflito obriga, do desprezo que o segundo vota ao primeiro apenas pela cor da pele - justificado aos seus olhos por um acontecimento trágico da sua juventude...
Jarbinet faz o relato avançar devagar, algo estereotipado (ou tão só realista?) e, perante os nossos olhos, vai pondo o dedo na ferida, remexendo para um lado e para outro, para dentro e para fora, apertando, torcendo, calcando, magoando, insistindo para realçar o absurdo, para realçar ainda mais o absurdo, quando o que odeia e o objeto do ódio são - ou deveriam ser - companheiros de armas, membros do mesmo exército, defensores do mesmo país, que honram a mesma bandeira, que supostamente defendem os mesmos ideais - ou afinal não…
A um e a outro, a Virgil e Jay, para não ficarem apenas como símbolos de estereótipos fáceis, Jarbinet dá um passado que vamos descobrindo aos poucos, torna-os consistentes, mais reais, capazes de errar e sofrer, humaniza-os - no contexto tão pouco humano (e afinal tão humano) que a guerra, em geral, e a guerra brancos-negros, em particular, propicia.
Mas se os dois surgem como protagonistas, este díptico Black Boys/Wild Men faz passar perante os nossos olhos outros intervenientes, com escolhas de vida similares ou diferentes, com opções (mais ou menos) discutíveis - a discussão depende muito do nosso olhar - num contexto bélico extremamente hostil, revelando um autor que, aos meus olhos, consegue aqui o momento alto da série até agora, em termos narrativos, principalmente, mas também pelo recurso a bem conseguidas cores directas.
Em condições climatéricas adversas - quase sempre sob neve e frio - em regiões devastadas e em ruínas, com pouco ou nenhum alimento, sabendo que a qualquer instante uma bala ou uma mina pode pôr fim ao seu tormento - mas também a vidas que, embora suspensas, acalentam sonhos e desejos - sentimos o desalento, o desespero, a impotência daqueles soldados, simples humanos como todos nós.
E se o final, tenho de o dizer, pode fazer acalentar alguma esperança no ser humano, o quotidiano - o nosso - infelizmente parece negá-la dia após dia.
Airborne
44, 9 - Black Boys
Airborne
44, 10 - Wild Men
Jarbinet
ASA
Portugal,
Julho de 2024/Abril de 2025
238
x 319 mm, 64 + 64 p., cor, capa dura
14,95
€ (cada)
(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)




Esta série é muito boa. Já saiu em França o nº 11
ResponderEliminarAté agora não me tinha 'agarrado', mas gostei muito desde díptico.
EliminarBoas leituras!
Leandro.
ResponderEliminarConcordo plenamente também.
O melhor díptico da série.
Uma série que tem crescido aos poucos em todos os sentidos.
Histórias e desenho.
Obrigado
Não tem nada a ver. Mas com a série dos TVCine Sentinells. Pode ser que alguma editora pegue nisso e a dê a conhecer ao grande público.
ResponderEliminarLeandro.
Obrigado