Antever o futuro
Desconfio sempre que me tentam vender obras obscuras de grandes autores como obras-primas [e não estou a acusar disso a Ala dos Livros, estou a referi-lo genericamente].
Porque,
naturalmente, se fossem realmente obras-primas, não seriam obras
obscuras...
Mas...
...pelo menos, nalguns casos, é possível encontrar nelas o que mais tarde veio a distinguir esses criadores. É o caso de Fanfulla, que a Ala dos Livros acaba de recuperar na sua coleção dedicada às Obras de Pratt - aqui com Mino Milani.
Não sei qual o peso da participação deste último mas, tendo Pratt como co-argumentista, a verdade é que o protagonista, Fanfulla da Lodi, um ex-soldado zarolho, pouco dado a cumprir ordens, reconvertido em padre por razões de conveniência, anacronicamente evoca um certo marinheiro errante e, mais ainda, curiosamente, um certo Rasputin, que foi seu adversário várias vezes, embora fossem diversos os pontos em comum entre ambos.
Se Fanfulla é fiel aos amigos e não hesita em avançar quando eles estão em perigo, ignorando a política ou politiquices - como Corto… - também é verdade que se guia pelo ganho e o lucro e isso é mais importante para si - como para Rasputin…
Para além disso, graficamente o traço expressivo de Pratt já lá está, bem como um uso comedido de pormenores em nome da legibilidade e do dinamismo, para o que também contribui uma planificação heterogénea em que as mais habituais duas tiras por página se transformam muitas vezes em vinheta única ou vêem os protagonistas ultrapassar os seus limites naturais.
Da história, narrada em grandes planos, sem esmiúçar pormenores, pode-se avançar que decorre durante a Renascença italiana, numa península atravessada por confrontos entre as múltiplas repúblicas, apostadas em expandir territórios e aniquilar adversários. Ou mais precisamente, em Florença, sob cerco das forças dos Lansquenetes.
Relato histórico - q.b. - abordado ficcionalmente de forma bastante livre, Fanfulla, supreendentemente publicado no infanto-juvenil Corriere dei Piccoli, dada a violência, o sarcasmo e a especificidade do carácter do seu protagonista (outros tempos...), revela-se de leitura rápida, bem-disposta e quase sempre directa, embora haja inevitáveis alusões críticas à guerra, à religião e à volubilidade do ser humano, entre traições, alianças interesseiras e amores e desamores…
...e serve realmente como um aperitivo a provar, antes da entrada nas obras-oprimas de Hugo Pratt - ou depois, como certamente irá acontecer a muitos dos que tiverem na mão mais uma bela edição da Ala dos Livros, que ao habitual cuidado editorial, acrescentou desta vez uma sobrecapa tipo caixa para ‘verticalizar’ uma edição horizontal.
Fanfulla
Colecção
Obras de Pratt com Mino Milani
Mino
Milani (argumento)
Ala
dos Livros
Portugal,
Fevereiro de 2026
295
x 210 mm, 120 p., cor, capa dura com sobrecapa tipo caixa
22,90
€
(imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)




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