03/03/2026

Living Will

Deve um pedido de desculpas a alguém?”



Nas entrevistas que realiza no seu programa Alta definição, uma das últimas perguntas que Daniel Oliveira coloca é: “Deve um pedido de desculpas a alguém?”. Will, o protagonista de Living Will pensa que sim, por isso, aos 82 anos, quando o seu cão, a última recordação da esposa, morre, decide pôr em ordem a sua vida e corrigir alguns erros do passado.

Mas, como os meus filhos aprenderam no jardim de infância, “as desculpas não se pedem, evitam-se” e o que parecia um propósito bem-intencionado, vai revelar-se bem mais complicado e doloroso do que era expectável, devido a feridas que nunca sararam.

Publicada originalmente em sete curtas revistas há mais de uma década, Living Will - cuja tradução literal, muito ajustadamente, é algo como ‘testamento de vida’ - é uma criação portuguesa que há muito merecia a edição integral que a Polvo disponibilizou no AmadoraBD 2025, com duas capas diferentes e complementada com uma entrevistas aos autores, caderno de esboços e um último capítulo inédito.

No livro, a par de Will, vamos acompanhar também Betty Bristow, uma mediática apresentadora de TV em decadência acentuada e descobrir que a sua vida também tem segredos que a estão a afectar a diferentes níveis.

Reflexão sobre a vida e a aproximação do seu prazo de validade, desconhecido mas nem por isso menos assustador, Living Will tem argumento de André Oliveira que nos obriga a fazer uma reflexão sobre quem somos e o que andamos por aqui a fazer, lembrando que esta é uma viagem por uma estrada que raramente é recta, mas apresenta muitos desvios e paragens, que nos impedem de fazer tudo o que queremos. E na qual, mesmo que involuntariamente, cometemos erros graves e acabamos por deixar para trás e esquecer conhecidos e amigos e mesmo por atropelar alguns deles, muitas vezes os que nos são mais próximos, na nossa ânsia de sermos mais ou melhores. 

Entre a doçura das memórias mais antigas e queridas e um desencanto, para não escrever desilusão, com a súmula do que vivemos, juntamente com Will vamos conhecer outras personagens com histórias de vida, díspares mas salientes, e perceber que nem sempre fazemos aos outros o que achamos que fazemos e as marcas que isso deixa em nós não são iguais àquelas que deixam nos outros.

Graficamente, Joana Afonso e Pedro Serpa dão vida aos intervenientes, num estilo que quase se pode classificar como familiar, que ajuda a criar empatia com eles e contribui para o tom intimista que o argumento pede.


Nota final

Acompanhei, entre 2014 e 2018, a publicação dos sete fascículos originais de Living Will, e tive oportunidade de escrever sobre eles, bem como de fazer uma breve entrevista ao André Oliveira a quando do final da série.

Como as leituras mudam consoante o tempo, a época e o estado de espírito do momento - e o texto actual teve as naturais limitações de espaço a que obriga a publicação em jornal - reler as considerações que fui fazendo, aportará certamente outras pistas. Ficam aqui as ligações:

Living Will 1

Living Will 2

Living Will 1-7

Entrevista com André Oliveira


Living Will
André Oliveira (argumento)
Joana Afonso e Pedro Serpa (desenho)
Polvo
Portugal, Outubro de 2025
165 x 230 mm, 180 p., cor, capa mole com badanas
25,95 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 21 de Fevereiro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens provenientes da edição original de autor, em fascículos; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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