19/03/2026

Os cabelos de Edith

Imaginar é pior do que ver




Boa parte do que escrevi há dias, a propósito de Les enfants de la résistance 5 - Le pays divisé, poderia igualmente servir de intróito a este texto. Desta forma, involuntariamente, uma leitura já com algumas semanas, acaba por estar tematicamente ligada a outra feita há dias, confirmando a minha predilecção pela temática da II Guerra Mundial.

A diferença entre as duas obras - quase me atrevia a escrever que são completamente diferentes - é que a primeira explora a guerra em si e Os cabelos de Edith aborda algumas das suas consequências. Porque, é necessário vincar algo que por vezes parece esquecido ou escondido, as guerras têm sempre consequências.

A acção deste livro, que acaba de ser distinguido com o prémio Goscinny para um argumentista (no caso duas, Fabienne Blanchut e Catherine Locandro) com menos de três álbuns publicados - boa jogada de antecipação da ASA! - decorre em Paris, nos primeiros tempos do pós-guerra, com um dos grandes hotéis da cidade requisitado para alojar os sobreviventes dos campos de concentração que chegavam diariamente em autocarros repletos de pessoas que mais pareciam cadáveres ambulantes - ou pouco menos. ..

O protagonista, Louis, é um jovem estudante, com boas notas e algumas horas de trabalho no cinema local, um dos raros sítios da cidade onde é ainda é permitidos sonhar livremente. Impressionado pelos autocarros que via passar, acaba por ir àquele hotel e oferecer-se como voluntário para ajudar os residentes de passagem, em busca de parentes ou para os auxiliar nas necessidades básicas de quem perdeu rotinas, objetivos, a capacidade de olhar em frente, em suma desaprendeu de viver. Entre eles, encontra-se a Edith do título.

A proximidade das idades, a capacidade que Louis tem de sentir a dor da jovem, a incompreensão - e algo mais… - da família dele em relação aquele voluntariado, vão dar corpo a uma história terna e sensível - apesar dos horrores inerentes que se adivinham - que evocou em mim uma frase que li/ouvi em tempos, que não sei citar literalmente, mas que dizia algo do género: “o que não vemos é sempre pior do que aquilo que nos é mostrado’.

No caso presente, são os traumas que Edith sofreu, devido ao que passou, que vão muito para lá do visível exteriormente, mas que nos são parcamente mostrados, deixando à solta a nossa imaginação - sempre com tendência acentuada para ver o pior - moldada pela memória colectiva da horrível realidade dos campos de concentração que os nazis construíram para pôr em prática a solução final para a questão dos judeus: exterminá-los completamente.

Sem final (verdadeiramente) feliz, que soaria inadequado no contexto, mesmo assim esta é uma daquelas histórias que aquece o coração, ajudada pelo belo traço de Dawid, e faz acreditar um pouco mais na bondade humana - de alguns humanos, pelo menos.


Os cabelos de Edith
Fabienne Blanchut e Catherine Locandro (argumento)
Dawid (desenho)
ASA
Portugal, Março de 2026
206 x 275 mm, 168 p., cor, capa dura
24,90

(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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