16/12/2021

Corto Maltese: Oceano negro

Era preciso…?


Esta é uma das perguntas que se pode colocar a propósito deste álbum: era preciso? Ou, de forma, mais completa e inteligível para todos: era preciso chamar ‘Corto Maltese’ ao protagonista?
A resposta, obviamente ambígua, é sim. E não. E talvez.
Explico a seguir, mas se preferirem avançar para Oceano negro antes de prosseguirem esta leitura, deixem que vos dê um conselho: a exemplos dos “Lucky Luke de…” e dos “Spirou de…”, encarem a proposta de Bastien Vivés e Martin Quenchen como um ‘Corto Maltese de…’ e avancem com o espírito aberto.


Corto Maltese? Não.

Não, para os puristas acérrimos da obra de Pratt.

Para eles, para alguns deles, o limite do aceitável é a clonagem/colagem que Canales e Pellejero têm feito - e bem! - ao Corto original.

Alterar o grafismo, a época, os intervenientes que contracenam com o protagonista - para mais tudo ao mesmo tempo - é mais do são capazes de aceitar.


Corto Maltese? Sim.

Sim, para os autores e para os editores.

Chamar Corto Maltese ao protagonista, garante à partida tiragens (muito) maiores, melhores vendas, (mais) curiosidade por parte dos leitores, um circo mediático, alguma polémica - e melhor publicidade não há.


Corto Maltese? Sim.

Sim, para o protagonista.

O Corto de Vivés e Quenchen é um espírito livre, um rebelde por natureza, um revolucionário convicto, um apreciador de belas - e fortes - mulheres.

Mais do que isso, a sede constante de aventura que distingue o original, a sua disponibilidade para ajudar aqueles em que acredita, a vontade de viajar, conhecer, descobrir, a busca por tesouros - quanto mais utópicos, melhor - estão aqui, de forma autónoma e credível, não emulando ou copiando o original, mas de forma consistente, lógica e coerente.

Esta história era auto-suficiente se o protagonista não se chamasse Corto? Era. Mas, como diz o outro, ‘não era a mesma coisa…’ Não teria a mesma força, o mesmo peso.

Porque, chamando Corto ao protagonista, instantaneamente há um conhecimento prévio que acorre à mente do leitor e o ajuda a situar-se, há todo um histórico - e que histórico! - que faz a diferença, há um ‘passado’ que vem à tona.


Corto Maltese? Sim.

Sim, para a história.

Oceano negro, com qualidades e defeitos, partilha, indubitavelmente do espírito dos romances originais de Pratt.

Mergulha numa hábil combinação de conhecimento e utopia, apresenta como possível o improvável, defende valores reconhecíveis, coloca os protagonistas ao serviço de uma ideia base maior do que eles.



Corto Maltese? Talvez.

Talvez, para a mudança de época. A história que Quenchen escreveu e Vivés desenhou, passa-se sensivelmente no nosso presente - no presente dos seus leitores. Mais exactamente, na época dos atentados contra as Torres Gémeas em Nova Iorque; 2001, portanto.

Há no relato algo que obrigue a tal, que implique esse período em vez de outro qualquer? Com sinceridade, parece-me que não. O recurso à tecnologia da época é moderado, a facilidade de viajar destes dias, ajuda um pouco, acelera (inconscientemente para os leitores) o ritmo narrativo, mas ter de ir daqui para ali nunca foi impedimento para o marinheiro errante que Pratt criou.

No entanto, colocar este Corto no tempo do ‘outro’, era um risco. Era levar os leitores a procurar os pontos de contacto, a negar as suas semelhanças, a questionar as suas diferenças. Com este avanço de algumas décadas, essa questão fica resolvida, o Corto de Oceano negro torna-se mais real.


Corto Maltese? Talvez.

Talvez - outra vez - em termos gráficos.

Não que eu questione a opção de Vivés e Quenchen pelo traço natural do desenhador. Clonar a genialidade gráfica de Pratt, nunca passaria de mera cópia, mesmo que bem feita e poria em causa o que até aqui escrevi: a ideia era adoptar o espírito, não a forma. Isso justifica a mudança de época e - mais ainda? - a mudança gráfica.

Só que, reconhecendo todo o virtuosismo de Vivés, admirando mesmo algumas das suas obras - com destaque para o belíssimo Dans mes yeux - acho que lhe faltou empenho e constância na realização destas quase duzentas pranchas. Se algumas - vinhetas…? - são esteticamente magníficas, assombrosas em expressividade, de enorme legibilidade, com os planos acertados para a leitura prosseguir, com o seu traço depurado a transmitir-nos tanto, outras parecem ter sido feitas à pressa - só esboçadas, sem acabamento…? - com os fundos esquecidos, os pormenores descurados, quase negando o artista que Vivés é.

...mas o caderno gráfico final, com a maioria dos desenhos a cores, deixa água na boca por uma história assim (desenhada e) pintada.


Corto Maltese? Talvez.

Talvez, devido ao recurso à presença de Rasputine. Se funciona como piscar de olhos e para relembrar a premissa deste livro, a sua passagem por ele é demasiado breve e quase gratuita, não chegando a assumir-se como é - e nós (re)conhecemos.

Melhor, estiveram os autores ao criarem de raiz as mulheres - belas e fortes - com que Corto aqui se cruza, resistindo a dar-lhes os nomes em que vocês estão agora a pensar...


Corto Maltese? Para mim, sim.

Não existe uma resposta única e absoluta, as opiniões não s(er)ão unânimes, esta é, possivelmente, para muitos, uma obra para amar ou odiar.

Sem chegar a nenhum daqueles extremos, pessoalmente gostei, pela forma como reinventa o imaginário do Corto original, num contexto - gráfico e narrativo - distinto.

Neste Oceano negro encontrei o espírito do grande Corto de Pratt - não aquele com que nos assombrou nos últimos livros, o outro que nos deixou assombrados pela genialidade do seu criador.

Li-o como uma conseguida obra de autor(es) num espírito de homenagem e tributo, que deve ser encarada dessa forma - como um ‘Corto de…’, como já escrevi, nunca como ‘o’ Corto Maltese (de Hugo Pratt).


Corto Maltese: Oceano negro
Martin Quenchen (argumento)
Bastien Vivés (texto)
Arte de Autor
Portugal, Dezembro de 2021
196 x 285 mm, 180 p., pb+ caderno final com 14 p. a cores, capa dura
24,00


(imagens disponibilizadas pela Arte de Autorclicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas imagens aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão)

11 comentários:

  1. Francamente para mim é não. Tanta mudança para quê? Já agora, na 1ª página (introdução de Benoît Mouchart) a prosa começa com minúscula e parece truncada. Será apenas no meu exemplar ?

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  2. Agora que cheguei ao fim do livro verifico que todas as páginas a partir da 168 estão repetidas no início do livro. Reformulo a pergunta, não sei se o Pedro consegue responder :Saiu assim em todos os exemplares editados, só em alguns ou só no meu ?

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    Respostas
    1. Caro Jorge,
      Aparentemente tem um exemplar que deve ter um caderno repetido e mal posicionado.
      O álbum abre com a página de rosto e de seguida a primeira prancha mostrada nesta entrada do blog.
      No final, a partir da página 168 tem duas páginas com o texto do Bênoit Mouchart, duas páginas de ilustrações, duas páginas com um texto de Fausto Fasulo e 11 páginas com mais ilustrações, a pb e a cores.
      É questão de reclamar onde o comprou ou junto da editora, para receber um exemplar em perfeitas condições.
      Boas leituras!

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  3. Obrigado Pedro
    Bom Natal e novo ano pleno de BD

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  4. Para a mim é também não. Nada me convenceu, apesar de achar algumas ideias interessantes o argumento não me impressionou (achei até confuso). Mudando a personagem Corto, sei lá, para Bernard Prince não me fez grande diferença.
    Mas pronto, boas leituras(TM) e feliz Solstício de Inverno.

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  5. "Isto" não é Corto Maltese, devia estar sob outro título, talvez com o subtítulo de "Inspirado na personagem de Hugo Pratt".

    Não passa de um "cash-grab".

    Ena pah, os herdeiros do Pratt são mesmo gananciosos, além de encarecerem os livros mamando e bem nos direitos das aventuras originais, ainda por cima proporcionam estas coisas!

    Razão tinha o Hergé em pretender que o herói dele morresse com ele.

    Mas eu até entendo o Pratt, quis assegurar que não faltasse dinheiro à sua família, eu é que não vou dar para este peditório!

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  6. Não é 'o' Corto? Não.
    É para ganhar dinheiro? Sim, como digo no texto.
    Devia ter uma frase do género da sugerida? Sim.
    Funcionou? Para mim, sim.
    Boas leituras!

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  7. Por acaso, quanto ao Hergé ter razão, não concordo nada e até não lhe perdoo essa decisão! A n casos de continuações bem conseguidas! Basta lembrarmo-nos de Astėrix, Lucky Luke, Blake e Mortimer e até os anteriores Corto Maltes'ses, entre muitos outros exemplos.

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  8. Michel Vaillant e Alix, outros exemplos!
    Não é a mesma coisa? Não! Mas anda lá muito perto e para os admiradores/fãs é um prazer!

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    Respostas
    1. Pessoalmente, acho cada vez mais interessantes as 'variações' de autor em detrimento das continuações, por muito bem feitas que sejam. Obviamente, num caso e noutro há excepções para confirmar a regra. Percebo que estas últimas vendam mais e é isso que conta para as editoras, mesmo que a continuidade acabe por descaracterizar o original...
      No caso do Hergé, a explicação dele, que cito de memória, diz tudo: "Se outros fizessem Tintin, podia ser melhor ou podia ser pior, mas não era Tintin". Acima de tudo, respeito a posição.
      ...mas que gostava de ver alguns Tintin por...', disso não tenho dúvidas!
      Boas leituras!

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  9. Há n casos e não A n casos, como surge no texto,,,
    No entanto, ao que julgo saber, essa decisão de Hergé termina feitos 50 anos, da sua morte,

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