04/10/2018

Deuses americanos 1: Sombras

Estranheza



Não conheço o romance original de Gaiman, não vi a série televisiva que nele se baseou. E chego ao fim da leitura do primeiro tomo da sua adaptação em BD, dividido quanto à opinião a formar. E a precisar da continuação, para perceber onde Gaiman pretende chegar ou confirmar a estranheza que a leitura me deixou.
Vou começar pelo princípio.
O temperamento de Shadow Moon levou-o à prisão. Três anos depois, a meio da pena, vai sair por bom comportamento. Nesse período, controlou-se, evitou problemas, resistiu a provocações e esta é a sua recompensa. Como esperança e objectivo, durante esses anos teve em mente o regresso à vida em comum com a sua esposa Laura.
Poucos dias antes de sair, recebe a notícia que ela faleceu num acidente de viação e toda a sua vida, o seu futuro, tudo aquilo que planeara, sonhara, parece desmoronar-se de uma só vez e com grande estrépito.
Já cá fora, depois de algumas peripécias, aceita uma oferta de emprego - sem função definida - da estranha personagem que diz chamar-se Wednesday.
E é aqui que um relato que parecia poder desenrolar-se algures entre o policial e a crónica quotidiana, começa a derivar. A viagem que Shadow e o seu empregador empreendem, qual road trip através de boa parte dos Estados Unidos, propicia estranhos encontros. Com personagens inesperadas e - de forma crescente - com seres a que geralmente só humanos chama(va)m deuses. Da Irlanda, do Egipto, sabe-se lá de onde mais. Deuses cujo poder e influência, obviamente está a diminuir face ao desenvolvimento dos novos deuses - todos americanos - que, menos espiritualmente, bem mais financeiramente, dominam os nossos dias.
Entre eles, na sombra, desenrola-se um confronto silencioso (quase sempre), há um antagonismo (quase) permanente, cujo objectivo final é receber se não a adoração, pelo menos os serviços dos pobres humanos, apanhados entre dois fogos… divinos.
Só que, a maior parte destes encontros, revelam-se pontuais e passageiros, meros cruzamentos pontuais de vidas, existências, a que parece faltar uma continuidade ou fio condutor.
Acredito - espero - que o próximo volume de Deuses Americanos trará respostas - algumas, pelo menos - ajude os leitores que, como eu, se sintam algo perdidos no final deste volume. Que, apesar de tudo, foi lido com alguma avidez, graças à forma envolvente como a narrativa de Neil Gaiman progride, impelindo-nos a prosseguir, página após, página, sedentos das respostas que (ainda...) não encontramos.

Como nota final - amarga porque não tem sido habitual nas edições da Saída de Emergência - uma referência para os problemas de legendagem que vão além da escolha das fontes e da sua adequação aos espaços e passam por uma revisão que se revelou insuficiente, sendo o ponto mais gritante o ‘and’ que devia ser ‘e’ logo no rodapé da capa...

Deuses Americanos
Neil Gaiman (argumento e diálogos)
P. Craig Russell (guião e esboços)
Scott Hampton (desenho)
Saída de Emergência
Portugal, Setembro de 2018
168 x 259 mm, 264 p., cor, capa mole com badanas
18,80 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

7 comentários:

  1. Boa tarde Pedro
    Apresento-me: sou o pco69
    Em termos reais, não haverá qq diferença entre "pco69" e "Xico Manel", visto que as informações que "partilho" são completamente inventadas.

    Compreendo perfeitamente o teres bloqueado os posts "anónimos".
    Mas isso não impedirá "posts" idiotas e esses post idiotas também não levarão a "pessoas reais".
    Quanto muito, creio que darão acesso a um mail Gmail. Que poderá ser lido e respondido ou nem isso. Mas isso é apenas a minha opinião.
    A casa é tua e como tal, as regras são as tuas.

    Adiante.
    Em termos dos "Deuses Americanos", li a edição portuguesa de 2009 da Presença. Lembro-me que não percebi grande coisa da trama e que não lhe achei grande piada.

    Quando vi que iria ser editado em BD, foi algo que me passou e continua a passar ao lado. Exactamente por não ter achado grande piada à novela.

    A tua análise/opinião, só vem reforçar a minha opinião que este será um dos que dificilmente irei comprar e ler...

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    Respostas
    1. pc069 Xico Manel,
      Comentadores anónimos não se podem bloquear individualmente, comentadores 'idiotas' podem. É a vantagem.
      Boas leituras!

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    2. De qualquer forma, não tenho qualquer problema com o pco69. Não quero é que apareça no nome 'Anónimo', porque anónimos há muitos...
      Boas leituras!

      Eliminar
  2. Pedro, aconselho vivamente o romance.

    Depois de Sandman é o grande Neil Gaiman. Este livro é globalmente fraco - o P. Craig Russell não desenha e isso vê demasiado. Normalmente ele é muito verboso, mas tem experiencia em layout com muito texto.

    Mas não tendo desenhado foi-se.

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  3. Gostei bastante do romance... também aconselho vivamente. E atenção, não sou grande fã do Sandman e do Gaiman.
    Esta BD vou passar, como provavelmente o vou fazer com a série televisiva.

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  4. Comecei a ler hoje a BD e estou a gostar. Não li o romance nem vi a série. Tem algo de misterioso e ao mesmo tempo confuso que me está a prender.
    Gosto bastante das edições da Saída de Emergência. Excelente qualidade de papel e capa mole.

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  5. É mesmo para ser estranho, como o Sandman.

    O estilo do Gaiman não mudou grande coisa ao longo dos anos.

    A ideia é o Shadow agir como uma espécie de Virgílio numa viagem ao inferno, neste caso o universo onírico dos deuses, antigos e modernos e que também é uma crítica social ao mundo desalmado em que vivemos, ausente de poesia e que vendeu a alma aos media. Shadow representa a humanidade no meio de uma batalha pela sua alma.

    Aqui o que interessa não é o destino mas sim a viagem, as respostas ficam ao critério de cada um.

    Não posso concordar com as legendas, sim parecem toscas e têm alguns erros mas são uma lufada de ar fresco para com as informatizadas e todas iguais que andam a meter certinhas dentro dos balões e onde nem têm o cuidado de replicar os ênfases e estados de espírito de quem as dita.

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