Sem isenção
Quando
estamos perante temáticas polémicas ou fracturantes, tentar separar
o seu interesse/sucesso/impacto
do mediatismo que inevitavelmente provocam ou da abordagem a questões
de moda é sempre complicado e a leitura isenta também - para um ou
outro lado, consoante o posicionamento do leitor perante os temas.
Mau
género/génio -
título imensamente feliz da tradução portuguesa, face ao duplo
sentido do original Mauvais
genre
- é um exemplo do que acabo de escrever.
Baseado no romance La Garçonne et l’Assassin, de Fabrice Virgili e Danièle Voldman, narra a história de Paul e Louise. Apaixonados, casados em véspera da I Guerra Mundial, vão exibir uma enorme cumplicidade quando ele, aterrorizado pela crua realidade bélica, deserta e regressa a Paris. Saturado de estar fechado em casa - ser apanhado, implicaria fuzilamento como desertor - começa a vestir-se de mulher para poder sair e espairecer mas, aos poucos, o que era apenas um subterfúgio acaba por se revelar confortável e, sentindo-se melhor naquela nova pele, começa a dar largas a uma vida em que a novidade e a experimentação, aos poucos o vão seduzir e transformar.
Dividida entre a nova vida de Paul e as mudanças que ela aporta ao casal, com o novo género a sublimar o seu mau génio e a trazer para a relação uma crueldade e uma violência que em tudo chocam com a dedicação e disponibilidade de Louise, Mau género/génio, distinguido com vários prémios, entre os quais o Prémio do Público, em Angoulême, e o Grande Prémio da Associação de Críticos e Jornalistas da BD Francesa, é simultaneamente um retrato de época transgressor e o espelho de uma relação intensa, que assenta em primeiro lugar nos diálogos convincentes e numa capacidade de planificação que dá vida e dinamismo a um contexto que, inevitavelmente, obriga a repetições de momentos e situações e tem como base o que se passa ao nível das emoções e dos sentimentos, próprios e para com os outros.
Voltando ao início, independentemente da moda que minorias impõem e do mediatismo que o tema assim assume, esta é uma obra que pela forma como está construída, pelo clima tenso e provocador que a domina, pela violência psicológica que dela exala e pelo traço delicado com que exprime tudo isto, justifica plenamente e aconselha a sua leitura.
Nota final
É uma opção editorial, por um lado, e de gosto, por outro, no entanto, a redução de tamanho - mesmo que aparentemente ligeira em relação ao original - e a opção por papel brilhante e não mate, podem retirar algum do prazer de manuseamento e da fruição da obra a leitores mais exigentes.
Mau
género/génio
Chloé
Cruchaudet
Iguana
Portugal,
25 de Setembro de 2023
173
x 245 mm, 192 p., pb e cinza, capa dura
21,65
€
(imagens disponibilizadas pela Iguana; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)
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