Os mesmos preconceitos, 300 anos depois
Fanatismo religioso, mulheres com hábitos diferentes, um povo com a pele mais escura... Este intróito parece apontar para a realidade de muitas localidades atuais da Europa ocidental no entanto, As raparigas de Salem, edição recente da Arte de Autor, decorre naquela localidade da costa nordeste norte-americana, no estado de Massachusetts, no (só) aparentemente distante final do século XVII.
Os fanáticos são os puritanos anglicanos vindos de Inglaterra, as mulheres de hábitos diferentes são católicas e o povo de pele escura é constituído nada mais nada menos do que pelos... índios - pacíficos - que habitavam originalmente o local.
Mas quando os equilíbrios existentes são rompidos está preparado o cenário para uma explosão social de consequências imprevisíveis em que famílias, vizinhos e amigos se vão virar uns contra os outros.
Este acontecimento real, considerado um dos maiores exemplos de histeria colectiva, que comprova como belas palavras, mesmo que falsas, na voz de alguém carismático, movem multidões, é recontado por Thomas Gilbert, de forma crua e consistente, tendo como protagonista e em boa parte narradora, Abigail uma menina acabada de se tornar mulher. Esse momento natural, a chegada da menstruação, vai levar a que lhe seja retirada a liberdade, inocência e ingenuidade que até aí a caracterizava.
Incapaz de perceber a brusca mudança da sociedade para consigo, a impossibilidade de relacionamento platónico com os jovens índios que de vez em quando espreitam a localidade fundada pelos ingleses e o controlo absoluto que a sua família e responsáveis religiosos passam a impor, Abigail, que na prática só não quer "envelhecer depressa demais", vê-se apanhada no turbilhão do ódio social e da perseguição religiosa provocados pela necessidade de criar um caso maior que esconda um segredo esconso do olhar da comunidade que, visto por nós à distância, revela outra realidade que também conhecemos hoje - o abuso de uma jovem por um clérigo…
O julgamento das chamadas feiticeiras de Salem, que Gilbert, não inocentemente, considera apenas ‘raparigas’ no seu título, terá consequências devastadoras.
Apesar dos mais de três séculos que medeiam entre o acontecimento real e os nossos dias, as situações reportadas, com as devidas diferenças, não estão assim tão distantes e a leitura desta obra poderá ajudar a rever posicionamentos e preconceitos - e evitar decisões igualmente erróneas.
As
raparigas de Salem
Thomas
Gilbert
Arte
de Autor
Portugal,
Maio de 2026
170
x 240 mm, 200
p., cor,
capa dura
27,50
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias a 11 de Setembro de 2026 e na versão em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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