Um velho (des)conhecido...
Volta e meia dou por mim a
pensar o que leva autores de créditos firmados, obra feita e
carreira longa a retomarem séries antigas, nalguns casos datadas e
que até nem são especialmente marcantes ou
originais.
A
pergunta é retórica, eu sei e a resposta é simples: alimentar a
nostalgia de gerações e garantir - tanto quanto isso é possível -
vendas (no mínimo) interessantes.
Um
dos exemplos mais recentes - mesmo assim já quase com um ano - é
este Ray Ringo.
Trata-se da retoma um western menor, cujo principal destaque - e não é de somenos - é ter (tido) a assinatura de William Vance que, num outro patamar, nos legou obras como Bruno Brazil ou XIII.
Série curta de ‘apenas’ 180 páginas, nascida a preto e branco, em meados dos anos 1960, nas páginas da Tintin Séléction e depois retomada a cores na revista mãe, (Ray) Ringo, na sua origem, foi composto por uma série de episódios curtos mais ou menos auto-conclusivos mas que no seu conjunto formavam uma narrativa mais encorpada, há poucos anos finalmente reunidos num volume integral.
Já com algum do brilhantismo gráfico que depois distinguiria a obra do desenhador, apresentava como protagonista o guarda armado das diligências que cruzavam o velho Oeste. A profissão, relativamente original no âmbito da temática, acabava por não ser especialmente determinante na forma como o argumento se desenvolvia e isso é visível também nesta retoma por Corbeyran e Surzhenko.
Por isso tudo, mais uma vez, questionei-me sobre as razões para esta opção por parte de dois autores reconhecidos - e da respectiva editora - mas a verdade é que a opção funciona e a prova é que me interessei pela obra ou não fosse, também, o western uma das minhas temáticas de eleição. E, confesso, não sei se seria igualmente atraído pelo livro se, no título, em lugar de Ray Ringo, estivesse escrito outro nome qualquer.
Para além do protagonista, a ligação ao ‘passado’ faz-se pela sua profissão - de que ele até se demite no início do álbum - e pelo recurso à utilização pontual de personagens menores do relato original.
Na narrativa presente, a menor aposta da companhia das diligências na segurança dos passageiros - onde já ouvi isto em tempos mais recentes… - leva Ringo a demitir-se, embora aceite uma última viagem. Um assalto, o (duplo) rapto da sua companheira e uma história nebulosa do passado desta acabarão por o levar numa perseguição em que a razão tem lugar menor, numa história bem urdida e com diversas variações, cujo desfecho, no entanto, só conheceremos no(s) próximo(s?) volume(s).
Ao argumento consistente e competente de Corbeyran, Surzhenko corresponde com um belo traço realista, sem qualquer tentação de emular o virtuosismo de Vance, mas apondo-lhe a sua própria marca pessoal.
Ray
Ringo 1 - La Porte du Diable
Éric Corbeyran
(argumento)
Roman
Surzhenko (desenho)
Segundo
a série Ringo criada por William Vance
Le
Lombard
Bélgica,
Junho
de
2025
241
x 318 mm, 56 p.,
cor, capa dura
15,95
€
(imagens disponibilizadas pela Le Lombard; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



A nostalgia é um mercado de muito dinheiro, mas extremamente perigoso.
ResponderEliminarVemos tantas séries antigas de bd voltarem, filmes e parece que a cultura ocidental está doente. Ou será algo mais que isso?
Uma sociedade que vive olhando para trás, não tem perspectivas de futuro, não cria rupturas e tendências culturais novas.
Basta ver os movimento de BD de Espanha pós franco, a geração de autores de BD britânicos da era Punk, para perceber estamos estagnados culturalmente.
E é incrível como parece que estamos a viver o Séc XX outra vez - as piores partes...
Na nostalgia, como em tudo, aconselha-se a moderação... E olhar para trás pode ser bom, se isso servir para vermos melhor para a frente.
EliminarMas que há alguns sinais preocupantes, é inegável...
Boas leituras!