Cada um por si
"...
Em alguns, é a sede de poder, o orgulho, a húbris..."In
Slava
2 - Os novos russos
Se o volume inicial de Slava já tinha sido uma agradável surpresa, neste segundo (de três) Pierre-Henry Gomont consolida e confirma tudo o que aquele apresentava e eleva-o a um outro nível.
O cenário de fundo continua a ser a União Soviética em desagregação, os restos de grandeza pilhados e contrabandeados, os orgulhos vendidos por dinheiro - tantas vezes falso ou simplesmente sem valor…
Por todo lado há o estabelecimento de instáveis equilíbrios de poder ou de dinheiro - ou de poder e dinheiro - ao bel prazer dos poderosos ou dos mais fortes, por todo o lado surgem negociatas, esperteza saloia e a tentativa desesperada de enriquecer antes que tudo impluda.
Neste
contexto, se no primeiro volume de Slava,
o protagonista (menor) que dá nome à série, Lavrine, Arkady, Nina,
Volodia,
estavam de algum modo juntos, unidos
por interesses que pareciam comuns - ou pelo menos, a certa altura,
apontaram
na mesma direcção - agora, no final de Os
novos russos,
a
sensação que fica é que nele os vimos cada um por si - ou quase -
a lutar pelos seus próprios
sonhos,
pelas suas próprias
utopias,
pela sua própria
sede
de dinheiro ou por algo seu
que
já não sabem muito bem o que é. Até ao ponto em que, desiludidos,
desencantados, cansados ou compreendendo-se vencidos, mesmo assim o
fazem mais por teimosia do que por ideal ou crença,
numa corrida para a frente que espelha principalmente desespero e o
medo de perder tudo aquilo em que se acreditou, o temor
não de perder o pouco - ou bastante - que têm, mas de se perderem
no seu íntimo, no mais profundo de si.
Graficamente, o trabalho de Gomont é no mínimo fabuloso, pela forma como ele impregna de vida e movimento cada vinheta por si e o conjunto num todo, numa soberba demonstração de como deve ser uma banda desenhada, em termos de legibilidade e acção.
Veja-se,
a título de exemplo, como nalguns balões
substitui
diálogos
que poderiam ser longos ou excessivos por uma simples ilustração de
suma expressividade.
Ou,
ainda, como as
suas personagens esguias correm de um lado para o outro, no interior
das vinhetas ou para lá delas - no espaço entre elas que por vezes
se revela longo e tortuoso - como se não houvesse amanhã - e
possivelmente não haverá - arrastando
nessa corrida desenfreada os leitores, por vezes obrigados a recuar
para se situarem no relato, que chegam ao fim da leitura exaustos, a
arfar, mas sumamente satisfeitos.
Slava
2 - Os novos russos
Pierre-Henry
Gomont
ASA
Portugal,
Maio de 2026
240
x 295 mm, 112 p., cor, capa dura
20,90
€
(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



Esperemos que haja amanhã e a Asa publique rápido o terceiro volume deste fabuloso SLAVA
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