Confessei
aqui alguma desilusão pela forma como Seuls
se foi desenvolvendo. Com um ponto de partida desafiante - o
desaparecimento de todos os adultos de uma cidade, Fortville - foi
aos poucos assumindo contornos (ainda) mais fantásticos. Essa
desilusão - que na altura classifiquei de parcial - fez com que o
regresso à série demorasse mais do que inicialmente previra, mas em
boa altura o fiz porque, iludidas as expectativas iniciais, avancei
de espírito aberto para ler mais quatro álbuns de uma das mais
desafiantes e intrigantes narrativas aos quadradinhos a que me
dediquei nos últimos anos.
Fabien Vehlmann (argumento) Jason (desenho) Glénat (França, 19 de Janeiro de 2011) 240 x 320 mm, 56 p., cor, cartonado, 15,00 €
Resumo Há cinco anos, depois de partir à procura de um tesouro, após encontrar um mapa numa garrafa que deu à costa, o pai de Gweny nunca mais deu notícias. Desde essa altura, ela deseja ir à sua procura, o que se torna possível no dia em que encontra nova garrafa na praia. Reúne uma equipagem de piratas, desejosos de se livrarem dela na primeira oportunidade, e parte em busca do lendário tesouro da Ilha dos Cem Mil Mortos. Desconhece que as garrafas com mensagens não passam de uma artimanha para atrair curiosos à ilha onde funciona uma escola de carrascos…
Desenvolvimento É assim que um relato que parecia ser uma história típica de piratas, com ilhas desertas, tesouros e traições a par da busca de um pai desaparecido por uma filha que “dourou” a sua imagem, resvala rapidamente para uma história negra e absurda, ao mesmo tempo que é cruel e melancólica. Crueldade e melancolia que nem sequer o aparente final feliz (sê-lo-á mesmo?) consegue iludir, já que o cumprir de objectivos de Gweny resultam em desilusão e Tobias, o amigo e aliado que há-de encontrar no decorrer do relato, é um falhado, desiludido com a vida que leva e incapaz de a tentar mudar. Por isso, também, realce na história para o humor, negro, por vezes muito negro, e para o absurdo que Vehlmann claramente se diverte a espalhar pelo argumento, por vezes em pequenos pormenores que, no entanto, fazem toda a diferença, pois surpreendem e dispõem bem o leitor, dispondo para seguir a leitura, mesmo que aquele ande a par de uma violência, menos gráfica do que mental mas incómoda, que, não sendo gratuita, também não conhece grandes limites. Deixo alguns exemplos: a emulação dos velhos de “Astérix na Córsega” que, comentando a acção, originam um flashback que tem por base a doença de Alzheimer! (página 4); o desentendimento entre a mãe (louca) e a filha (tão ou mais louca?) (p.5-6); a referência escatológica no diálogo de Gweny com o chefe dos piratas (p. 8); o estratagema daquela para conseguir um aliado no barco (p. 11); quase todas as “aulas” (de tortura e morte) na original “escola de carrascos”, etc., etc… A par destes pormenores que elevam a qualidade e aumentam o interesse da narrativa, esta demonstra ainda uma grande legibilidade e uma boa cadência, pese embora a planificação tradicional de Jason, praticamente imutável no formato de 3 tiras de 3 vinhetas por prancha. O que é contrabalançado pela diversidade de pontos de vista utilizados, sem grandes audácias gráficas, sim, mas que ajudam a transmitir a sensação de movimento e “puxam” pelo leitor por páginas tornadas bastante agradáveis, devido ao uso de cores lisas cujos tons ajudam a definir os diferentes momentos e locais da acção. Em jeito de conclusão, para que não haja ilusões: esta história deve ser lida como um (simples…) divertimento, bem conseguido, não tão ligeiro no entanto quanto (em especial o traço de Jason) pode aparentar, o que não lhe retira méritos nem ambições. Pelo contrário.
A reter - Os pormenores negros e absurdos do relato. - A forma divertida e inventiva como os (aparentes) pressupostos iniciais são completamente subvertidos. - A legibilidade do conjunto.
Menos conseguido - O olhar vazio e inexpressivo das personagens de Jason (uma das suas “marcas pessoais”), devido aos seus olhos serem completamente brancos.
Curiosidades - A parceria entre Vehlmann, um dos argumentistas em crescendo no meio franco-belga, e o norueguês Jason, autor alternativo que é presença assídua no catálogo da Fantagraphics Books. - Esta é uma das obras que pode ser lida em entregas semanais, online, no site gratuito Comix 8.
Vehlmann (argumento) Yoann (desenho) Hubert (cor) ASA (Portugal, Setembro de 2010) 218 x 300 mm, 56 p., cor, cartonado
Resumo De regresso de um festival onde foram representar a revista que publica as suas aventuras (!), Spirou e Fantásio recebem uma chamada urgente do Conde de Champignac, informando que a sua propriedade está cheia de monstros. Dirigem-se de imediato para lá, descobrindo que a pacata localidade foi considerada zona de guerra e está transformada numa floresta com fauna e flora muito estranhas, como se a natureza tivesse de repente endoidecido.
Desenvolvimento Novos “detentores” da série Spirou, Vehlmann e Yoann tinham uma difícil missão: recuperar os amantes das versões de Franquin e de Tome e Janry e agradar também aos novos leitores, geralmente mais vocaccionados para o manga. Ou seja, ter êxito onde Morvan e Munuera falharam (comercialmente), apesar do sucesso obtido junto de alguma crítica. Para agradar aos primeiros, foram buscar diversos elementos que fazem parte da “memória Spirou”: o Conde de Champignac e as suas extraordinárias invenções, um ou outro habitante da pacata localidade, o (nem sempre) pérfido Zorglub com o zorglumóvel, a zorgonda e a fixação pela Lua… Aos outros, os novos, é oferecida uma história com diálogos divertidos e ritmo acelerado, que se adivinha bebido na dinâmica típica do manga, com um traço menos “abonecado”, mais próximo do semi-realista, muito expressivo mas também mais duro e agreste (também devido aos rons mais sombrios que predominam), mas com muitas vinhetas demasiado preenchidas e, por isso, menos legíveis. Leitor fiel de banda desenhada franco-belga há muitos anos, sempre considerei Spirou um caso à parte num campo em que impera a BD de autor. Porque o eterno paquete de hotel desde tempos (quase) imemoriais (!) foi passando de mão em mão, em minha opinião perdendo qualidades desde o período de Franquin, pese embora um ou outro álbum esporádico bem conseguido. Por isso, e sabendo daqueles pressupostos iniciais, abordei o álbum com algum receio, mas também embalado por algumas críticas positivas que entretanto lera. E confesso que cheguei ao fim da leitura dividido. Entre uma interessante aventura de acção e humor e um Spirou demasiado atípico (se ainda é possível escrever isto). Por um lado, desiludido por uma intriga demasiado linear, e algumas opções – o uso de uma armadura por Zorglub, o esquema final que resolve o problema do bombardeamento – pouco credíveis, simplistas ou pura e simplesmente irrelevantes. Por outro, tendo gostado bastante do espírito da história e do cenário pré-histórico/pós-apocalíptico em que a maior parte da acção decorre, extrordinariamente bem delineado num número reduzido de pranchas, bem como do ritmo de leitura imposto. Suficiente para o recomendar a outros? Sim, pela curiosidade de que o álbum se reveste. E porque penso que cada leitor de Spirou é “um” leitor, caberá a cada um formar a sua própria opinião.
A reter - O piscar de olhos gráfico às soberbas “Ideias Negras”, de Franquin. - A ironia da utilização por Fantásio e Spirou de um ridículo boneco insuflável gigante com a imagem deste último. - Os cenários, conforme já descrito atrás. - Os diálogos bem conseguidos.
Menos conseguido - A história, demasiado despida de contornos e pormenores que a enriqueçam. - As duas suecas (!) que acompanham o conde. A sua presença e o seu papel na história são completamente irrelevantes e desnecessários. - Se as edições com capa especial da FNAC têm sido uma mais valia (têm pelo menos todo o potencial para o serem), Yoann revelou muito pouco inspiração (ou vontade de trabalhar), criando uma capa alternativa que pouca diferença faz da original.