
Com que sonhavam os homens há 105 anos?
Alguns que desejavam voar como os pássaros, sonho acalentado pelo ser humano quase desde que o Homem é Homem, punham no ar os primeiros verdadeiros engenhos voadores a que mais tarde se chamaria aviões. Em muitos países - chamavam-se então colónias - sonhava-se com a liberdade e a independência, mas, nalguns deles, muito tempo teve que passar e muito sangue teve que ser derramado para que esses sonhos se concretizassem. Em Portugal, como também noutras nações, havia quem sonhasse com o fim da monarquia e a implantação da república, o que se tornaria uma realidade entre nós a 5 de Outubro de 1910. Uma outra revolução, a russa, que mergulharia o país na ditadura e num banho de sangue, sabemo-lo hoje, estaria também já na mente de alguns.

Nalguns países, especialmente africanos, ainda havia escravos a sonhar com a liberdade; chegaria oficialmente para todos em 1915, após a assinatura, em St. Germain, de um tratado internacional de abolição da escravatura. Que não impede que continue a existir hoje, umas vezes mais claramente, outras à socapa, sob diferentes nomes…
A outro nível, Júlio Verne morria deixando (d)escritos sonhos sem fim, de viagens por todo o planeta, ao centro da Terra e também à Lua, em engenhos novos e mirabolantes que hoje nos são comuns. E talvez Edgar Rice Burroughs já tivesse na cabeça as bases da história de um homem branco que cresceria entre os macacos - que hoje conhecemos como Tarzan, um dos mitos do século XX - e sonhasse já, também, com viagens espaciais e a descoberta de outros mundos.
Todos estes sonhos, e tantos mais, como todos os sonhos, tinham - e têm - o valor que lhes queiramos dar. O valor que lhes dá quem os sonha; o valor que lhes dá quem os ouve contar, sonhando-os, por isso, também. Entre todos estes sonhos e entre tantos sonhadores, um distinguia-se pela forma como os explanava. Os seus sonhos, que hoje, ainda, podemos também fazer nossos, como tantos puderam, ao longo de 105 anos, mais de um século - um século de mudanças intensas, vividas a uma velocidade cada vez maior - foram transmitidos para o papel, para as enormes folhas de um jornal, o "New York Herald", onde, pela primeira vez, um miúdo, de quem quase nada sabemos, para além do seu nome, Little Nemo - literalmente o Pequeno Ninguém, talvez para que cada leitor melhor se pudesse identificar com ele - sonhou fantásticos sonhos passados na terra deles, Slumberland. Sonhos (re)vividos através duma arte - que ainda não se sabia tal - que dava os primeiros passos, ainda trémulos e inseguros, à procura de suportes, técnicas, estilos e temáticas e que via surgir no seu seio uma obra tão notável.

O seu criador - soa melhor o seu sonhador? - era Zenas Winsor McCay, nascido nos Estados Unidos, em Spring Lake, no Michigan, a 26 de Setembro de 1867. Filho de emigrantes escoceses que tinham chegado à terra de todos os sonhos, uma outra Slumberland, que para tantos foi de pesadelo, ainda hoje é, ainda é mais hoje, até - McCay, aos 19 anos, foi enviado pelo pai para Ypsilanti, Michigan, para estudar comércio num colégio. Foi lá que conheceu um inglês chamado John Goodison, que decidiu experimentar o método de aprendizagem que criara, com diversos alunos, entre os quais aquele McCay que herdara os nomes próprios do patrão do pai. O professor forneceu-lhe todas as ferramentas necessárias para representar objectos no espaço de forma tridimensional. As lições incluíam o desenho de sólidos geométricos e outros objectos, as suas sombras e reflexos, texturas e perspectivas, ensinamentos que McCay utilizaria mais tarde na sua obra gráfica, onde sempre procurou as perspectivas mais originais e os efeitos mais surpreendentes.
Como surpreendente era a forma como ocupava o seu tempo após as lições, no Wonderland de Detroit, um dime museum, uma espécie de circo sedentário que combinava atracções exóticas com espectáculos cómicos e onde, pela primeira vez, ganharia dinheiro com os seus desenhos, pois entretinha-se a retratar os actores, vendendo essas obras a 25 cents.
No princípio da última década do século XIX, McCay mudou-se para Cincinnati onde conheceu, nas escadas do dime museum de Vine Street, a pequena Maud Leonore Dufour, por quem se apaixonou de imediato, apesar dos seus apenas 14 anos. O que não foi impedimento para que, poucas semanas depois, fossem casados por um juiz de paz.


Assim, na prancha inaugural de 15 de Outubro, vemos Omp, um emissário do rei Morfeus, a acordar Nemo para solicitar a sua presença perante o soberano. Apresenta-lhe um cavalo que Nemo monta de imediato, enquanto é avisado que não o deve forçar a correr demasiado.Começando a cruzar-se com estranhas parelhas, um canguru montado por um macaco, um porco por um coelho ou um cão por um sapo, Nemo entusiasma-se perante o desafio de uma corrida, acabando derrubado pela sua montada numa queda sem fim que termina… no chão do seu quarto, pois tudo não passara de um sonho, concluído com uma queda da cama. Na semana seguinte, o emissário regressa, fazendo a cama de Nemo afundar-se no chão, descobrindo-se este perante um palhaço que o leva por uma densa floresta de cogumelos de empilhar que desabam quando Nemo se descuida e se encosta a um deles, desatando aos gritos com medo de ficar soterrado e… acordando mais uma vez na sua cama. Esta situação repetir-se-ia semana após semana, terminando cada sonho com o regresso à realidade palpável da cama ou do chão onde esta assentava.

Mas aquela aparente limitação temática revelar-se-ia enganadora e, convidado primeiro pelo Rei Morfeus e mais tarde pela sua filha a princesa, Nemo, só seis meses e muitas aventuras e desventuras - muitos sonos e bruscos despertares - mais tarde, transpõe os portões de Slumberland, tendo, no entanto, de esperar até 8 de Julho de 1906 para conhecer a princesa. No entretanto, travara conhecimento com o pérfido anão Flip, que por todos os meios o tentara impedir de conseguir os seus objectivos, mas que mais tarde se tornará seu amigo e companheiro inseparável, dele e da princesa, constituindo com o canibal (!) Imp os protagonistas da onírica prancha dominical. As sucessivas visitas do pequeno Nemo à terra dos sonhos revelam-se fonte inesgotável de aventuras e descobertas, recheadas dos mais estranhos e deslumbrantes cenários, seres e personagens. Gigantes e anões, palhaços e saltimbancos, animais falantes, outros mais reais, encarnações de lendas e superstições, dragões, sereias e tudo o mais que poderia encher os sonhos de um miúdo de então. Cenários, seres e personagens de sonho, de puro sonho, apetece escrever. Para começar as histórias - cada sonho - o início é o mais diverso e inaudito possível: pode ser o aparecimento de um emissário de Morfeus, a cama de Nemo a afundar-se no chão ou boiar num mar caseiro, elevar-se a casa no ar engolida por um gigantesco peru, ser soterrada por uma tempestade de neve, aparecer como refúgio de um leão ou de um interminável bando de Nemos, etc., etc..

Graficamente, "Little Nemo in Slumberland" é difícil de descrever, pois todos os adjectivos parecem limitados para o qualificarem. Deslumbrante, fabuloso, inovador, único, moderno, são os que primeiro me ocorrem. Mais a mais se considerarmos que a banda desenhada, enquanto forma de expressão não contava ainda dez anos (pela data oficial, estabelecida quase um século depois!), embora as suas primeiras manifestações, com o sentido que hoje lhe atribuímos, tivessem ocorrido há já mais de meio século. Em termos gráficos, no Little Nemo de McCay encontrámos do mais inovador, arrojado e surpreendente que a banda desenhada já nos deu. Artisticamente pode ser considerado exemplo acabado de Art Nouveau. Em termos de banda desenhada pura e dura, é verdade que nos primeiros tempos, McCay parece algo hesitante em relação ao funcionamento da forma de expressão que escolhera. Numera (desnecessariamente) vinhetas para estabelecer o sentido de leitura, explica em cartuchos de texto por baixo das imagens o que estas descrevem na perfeição, mostra alguma dificuldade em gerir os balões de fala. Questões que virão a revelar-se menores e que desaparecerão progressivamente para dar lugar a um autor que demonstra um invulgar à-vontade com a planificação.


Surpreendentemente, "Little Nemo in Slmberland" chegou também a Portugal. Estávamos no princípio dos anos 90 e os Livros Horizonte participaram na co-impressão que reuniu uma dúzia de países, de uma edição organizada e prefaciada por Richard Marschall.

Agora, tantos anos passados, "Little Nemo in Slumberland", umas tantas páginas aos quadradinhos, velhas de 105 anos, fará ainda sentido? Não na obrigatória evocação do clássico, não na defesa e apresentação de uma obra que é intemporal (passe o paradoxo que se segue), mas na actualidade dessa mesma obra, na sua legibilidade, hoje, em 2010? O primeiro impulso é responder sim, claro, qual é a dúvida. Pelo pouco que atrás ficou escrito, por tudo aquilo que a sua leitura revela. Mas, tematicamente, serão os sonhos de Nemo - de McCay - ainda sonhados hoje? Sonharão os mais novos, ainda, com mundos encantados e princesas encantadoras, anões e gigantes, palhaços mil, com mundos maravilhosos, palácios faustosos, com o inenarrável e prodigioso universo com que McCay deslumbrou Nemo e os seus muitos leitores? Serão estes sonhos ainda capazes de encantar as novas gerações? A resposta custa a escrever, mas penso que é não.

Mas acredito que a leitura de "Little Nemo in Slumberland" poderá contribuir para o modificar. Bons sonhos!
(Versão revista do texto publicado originalmente no BDJornal #6, de Outubro de 2005)
Um belo texto, Pedro! Cheio de informação e com uma mensagem final bem interessante!
ResponderEliminarParabéns!