16/01/2019

Le Storie: Lavennder

Nunca. Na terra.

E pronto, a 14 de Janeiro, sinceramente sem contar, li o meu primeiro grande livro de 2019. Vai ficar como uma das minhas referências deste ano, especialmente pela tempestade emocional que conseguiu desencadear.
Lavennder, começa como um thriller de suspense e terror para, a certa altura, de forma sádica e despudorada, arrasar com um dos maiores mitos que embalou a infância e juventude de muita gente. E a minha também.
Número especial da colecção Le Storie - de que a Levoir nos proporcionou, no ano passado, o excelente Sangue e Gelo - Lavennder arranca com a chegada de Aaron e Gwen a uma pequena ilha deserta, para passarem 10 dias (que se pretendem) paradisíacos. E que o traço linha clara escolhido, com cores planas, quentes e agradáveis bem adequadas, tornam apetecível (também ao leitor).
E, naquela maravilha, nem um despedimento recente e algumas fricções de origem familiar, parecem ser mais do que problemas menores face ao (pequeno) sonho que uma promoção online tornou possível.
Só que - como sempre acontece... - aos poucos, pequenos (ou grandes?) incidentes, o agitar das folhas de uns arbustos, uma sombra entre as árvores... começam a provocar alguma inquietação e parecem anunciar que nem tudo era o que parecia e que o jovem casal não está afinal só naquele paraíso. Como o leitor - ao mesmo tempo que os jovens - pode ir intuindo.
Se esta trama base soa a déjá vu - e me recordou até Rocher Rouge, o título que me 'forçou' a criar este blog - a verdade é que Giacomo Bevilacqua, o autor completo deste tomo, a certa altura decide fazer uma inflexão acentuada no rumo escolhido. Sem alterar de todo o tom até aí claramente assumido, mas servindo uma explicação para as dúvidas que se vão adensando que - escrevo sem medo de errar - não estará de certeza nas cogitações de nenhum dos leitores. O desvendar de que ilha se trata, através da identificação daqueles que nela habitam é um primeiro murro no estômago, mas a revelação do verdadeiro carácter de personagens que nos preencheram sonhos maravilhosos na infância e juventude é de molde a deixar o leitor a um tempo estupefacto pela violência psicológica inaudita a que Bevilacqua se atreveu, mas também deleitado pelo modo como conseguiu transformar completamente uma narrativa de base vulgar.
E, quando chegados ao final, ele nos revela as pistas - 17! - que espalhou desde as primeiras páginas da história, só podemos admirar como adequou, subverteu ou deu a volta a questões nucleares que nos passaram ao lado, a pormenores do original de alguma forma mascarados para não denunciarem cedo de mais o que nos estava reservado, e agora se afirmam em toda a sua evidência como partes de uma narrativa bem estruturada, coerente mas surpreendente e, acima de tudo, bem conseguida.
Não posso - não devo - escrever mais sobre Lavennder - isso seria destruir o prazer da descoberta proporcionado pela leitura que eu já fruí - apenas posso aconselhar vivamente esta obra e - porque não? - a sua inclusão numa (futura?) colecção Novela Gráfica.

Lavennder
Speciale Le Storie #4
Giacomo Bevilacqua
Panini Comics
Espanha, Dezembro de 2018
195 x 259 mm, 144 p., cor, capa dura
16,00 €

(imagens recolhidas no site da Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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