27/10/2021

Marcello Quintanilha: “Acredito na arte como meio transformador”


Presente mais uma vez no Amadora BD, para o lançamento anual de uma nova obra, numa saudável tradição anual que os leitores agradecem, Marcello Quintanilha respondeu às perguntas de As Leituras do Pedro, numa entrevista via e-mail, intermediada por Rui Brito, da Polvo.
O tema, desta vez, foi o seu novo romance gráfico Escuta, formosa Márcia [que, a propósito, As Leituras do Pedro já leram].


As Leituras do Pedro - Mesmo à distância, o Marcello Quintanilha é cada vez mais um cronista da sociedade brasileira. Porquê esta necessidade de se debruçar sobre uma realidade que neste momento não é a sua?

Marcello Quintanilha - Meu trabalho não está construído como uma crônica da sociedade brasileira de um ponto de vista necessariamente antropológico, se é a isso que você se refere, mas sim como vetor de aspectos dessa sociedade como matéria da ficção, o que é substancialmente diferente.

Tampouco posso estar de acordo com a afirmação de que a realidade brasileira não é mais a minha, porque isso seria reduzir a criação artística a um imperativo geográfico, o que todos sabemos não ser verdade.

Não tenho outra maneira de explicar: o Brasil que existe nas minha histórias não é o Brasil que está diante de mim, mas sim o Brasil que está comigo.


As Leituras do Pedro - Como leitor, noto um desencanto cada vez maior do autor em relação à realidade do seu país. O autor Marcello Quintanilha reconhece-se nesta leitura?

Marcello Quintanilha - Não, não me reconheço na interpretação proposta por você, porque ela se atém à perspectiva de um universo sócio-cultural específico — no caso, o brasileiro —, quando minha percepção sobre o desencanto abrange o planeta como um todo

Não identifico o desencanto como calibre narrativo em Escuta, formosa Márcia, e mesmo substantivos como otimismo ou pessimismo sequer entram na equação, porque me interessa explorar a humanidade dos personagens independentemente de moralidade, escarmento ou julgamento.


As Leituras do Pedro - Acredita que a denúncia que faz através dos seus livros pode ajudar a mudar a situação?

Marcello Quintanilha - Não acredito na denúncia social como premissa para meu trabalho, sobretudo se nos situamos no século XXI, onde as mais diversas facetas da coletividade — particularmente as brasileiras — não estão exatamente fora do alcance dos meios de informação.

Parto da realidade como agente formalizador da ficção, sem subterfúgios, sem concessões. Minha ficção, portanto, existe em função da realidade, enquanto a realidade presente no meu trabalho se concretiza como ficção, o que põe em suspensão a dinâmica frequentemente associada a obras que não seguem os paradigmas do mercado.


As Leituras do Pedro - Este livro nasceu da música que Márcia ouve por acaso, ou esta surgiu mais tarde?

Marcello Quintanilha - A modinha que dá nome ao livro é uma das minhas canções favoritas. Creio na arte como meio transformador e durante anos imaginai uma história que girasse em torno de uma canção, até que todas as peças que haviam sido buriladas ao longo do tempo se juntassem para a realização do livro.


As Leituras do Pedro - A história da enfermeira Márcia, outras histórias que tem contado, do seu pai, por exemplo, baseiam-se em acontecimentos reais. Procura estas histórias, ou as pessoas vêm até si com as suas experiências e pedir que as transformes em banda desenhada?

Marcello Quintanilha - Nem uma coisa, nem outra.

Com exceção das histórias que têm meu pai como protagonista, efetivamente criadas a partir de acontecimentos reais, todas as demais precisam ser incluídas no hall da ficção, porque acredito imensamente no poder da ficção como tradução da complexidade da existência, muito mais do que a transcrição objetiva dos fatos.

Embora muitas vezes me inspire em pessoas reais, após concebidas como personagens, são eles que assumem as rédeas do relato, conduzindo a história por caminhos que não cabem no molde da veracidade, procedimento que considero um dos mais sublimes da criação artística.

Trabalho sobretudo a psicologia de cada personagem, acredito neles como indivíduos e me torno refém de seus desígnios. Eles próprios escolhem seus rumos. É quando tudo entra no campo da mais pura fabulação.

Com Escuta, formosa Márcia, é exatamente assim.


As Leituras do Pedro - Porquê a mudança de grafismo, que de certa forma já se tinha visto em Hinário Nacional, embora fosse a preto, branco e cinzento, agora privilegiando o desenho em cor directa, quase sem recurso ao traço preto?

Marcello Quintanilha - Cada álbum é um organismo único, e os argumentos impõem, por si mesmos, a forma como devem ser narrados. A cada novo livro, me vejo na contingência de reaprender a desenhar, reinterpretar a noção de narrativa, no sentido de cumprir o que é ditado pelo próprio enredo.

No caso de Escuta, formosa Márcia, as cores são a matéria volumétrica do desenho, cores que transladam para a publicação o estado de ânimo daqueles que são capazes de gargalhar de alegria sem nunca sorrir de verdadeira felicidade — nosso drama universal —, sem corresponder a seus equivalentes no mundo tangível, simbolizando a progressiva desconexão com a realidade que reina no mundo atual.


As Leituras do Pedro - Apesar do registo neo-realista da história, os tons utilizados têm pouco ou nada a ver com a realidade. Porquê este contraste?

Marcello Quintanilha - Porque ela não se ancora na estética neorrealista da mesma forma em que o fazem Fealdade de Fabiano Gorila ou Luzes de Niterói, mas em três outros pilares, especificamente três obras, Esperando Godot, de Beckett, Os demônios, de Dostoiévski, e A juventude de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

Sou fascinado pelo teatro do absurdo, por seu questionamento ao propósito da existência em si mesmo, fruto do trauma da segunda guerra mundial; pelo esvaziamento que promove do significado das palavras, pela subversão da identidade dos personagens como sujeios e da própria estrutura da ficção como relato. Nada mais concomitante com o século XXI.

Dostoiévski nos arrebata ao contar sem contar uma trama subjacente à vivida pelos protagonistas, trama essa que nos dá a medida da efervescência política na Rússia da segunda metade do século XIX e que resultaria na revolução de 1917.

Hugo Pratt se utiliza de exíguos metros quadrados para que Corto Maltese deslize daqui para ali, em um jogo de luz e sombra com seu nêmesis Rasputin. Até hoje esse álbum é uma das minhas principais referências, pela concisão no desdobramento da história, pela mecânica que conduz as ações e pelo despojamento lírico do traço.


(versão integral da entrevista com Marcello Quintanilha que serviu de base ao texto publicado no Jornal de Notícias online de 23 de Outubro de 2021; imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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