27/02/2023

Spirou: A esperança nunca morre - 1.ª parte

Entre o humor e o horror




Integrado na colecção Spirou por..., que apresenta versões relativamente livres do famoso aventureiro vestido de groom, A esperança nunca morre é a inesperada continuação de O diário de um ingénuo, porque esta série era até aqui formada apenas por álbuns auto-conclusivos.

Esta segunda incursão de Émile Bravo em Spirou, arranca onde o anterior terminou, a preparação da invasão da Polónia que deu início à II Guerra Mundial, mas tem no seu desenvolvimento algumas diferenças fundamentais. A primeira, possivelmente inevitável, é a moderação das referências de Spirou ao "rival" Tintin, com menos apartes ou apropriações da personagem. A segunda, mais marcante, é a utilização dos diversos momentos de humor, geralmente associado aos disparates de Fantásio nas aventuras de Spirou, através das suas tiradas infelizes ou despropositadas, para, de forma contrastante, acentuar o lado trágico da narrativa que, podendo ser menos significativo para leitores de outras latitudes, (ainda) diz muito aos habitantes de países como a França ou a Bélgica, que viveram sob o jugo nazi durante a II Guerra Mundial.

Dado que boa parte deste álbum decorre durante a invasão e ocupação da Bélgica pelas tropas alemãs, Bravo consegue moderar e até tornar incómodas esses apartes divertidos, para dar a primazia à guerra e aos seus efeitos, sejam eles o bombardeamento de cidade, o desespero de quem tem de fugir das suas habitações, das suas cidades, do seu país, a inimizade entre os supostos aliados, sejam eles ingleses, franceses ou belgas, a facilidade com que a nova ordem leva amigos a transformarem-se em inimigos devido às suas crenças políticas ou religiosas ou problemas como a fome ou o desemprego que tornam quase impossíveis a subsistência e a sobrevivência ou a sensação de inutilidade e de incapacidade de resistir, que perpassa por todo este primeiro volume

Bem representativo desta dualidade, entre a boa disposição de uma banda desenhada leve de aventuras e a realidade inultrapassável associada ao conflito - a qualquer conflito - é um diálogo de duas páginas entre Spirou e Fantásio, quando este deseja voltar à frente com uma espingarda para combater, enquanto o titular da série argumenta que, mesmo na guerra, pegar numa espingarda contra o seu semelhante é um acto bárbaro e hediondo, passível de ser considerado assassinato.

Primeiro de um conjunto de quatro que se espera que a ASA edite rapidamente - o segundo sai já no próximo mês de Março - A esperança nunca morre deixa um sabor agridoce pela forma como Bravo conseguiu traçar um retrato tão negro de uma situação real, usando a roupagem de uma das séries mais emblemáticas da banda desenhada europeia, num equilíbrio brilhante entre a realidade histórica, o espírito das aventuras de Spirou e Fantásio e as necessidades do seu relato, construindo uma narrativa trágica, densa, pungente e apelativa, que explora com personagens de ficção universais um dos momentos mais trágicos da história da humanidade.


A esperança nunca morre - 1.ª parte
Émile Bravo
ASA
Portugal, Novembro de 2022
240 x 320 mm, 80 p., cor, capa dura
19,90€

(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias online a 17 de Fevereiro de 2023 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar no texto a cor diferente para saber mais sobre o tema destacado)

1 comentário:

  1. É provavelmente a melhor edição de Spirou pós Franquin tanto no grafismo como na argumentação.
    Retorno á paginação de pequena quadricular que permite articular melhor a ação e tornar mais densa a historia .

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