21/01/2026

O Castelos dos animais 4: O Sangue do Rei

Bando de idiotas mortos para nada


Nestes tempos instáveis em que conceitos como ditadura e democracia se confundem e atropelam e as respectivas formas de actuar se sobrepõem assustadoramente, regressar a O triunfo dos porcos - e há cada vez mais… - pode levar-nos a colocar em perspectiva aquilo que estamos a viver. Mais exactamente, regressar a O castelo dos animais, uma eventual sequela daquela obra de Georges Orwell que Xavier Dorison e Delep desenvolveram ao longo de quatro álbuns, o último dos quais, O Sangue do Rei, já foi disponibilizado pela Arte de Autor.

No tal Castelo, a quinta que homens e porcos, sucessivamente, outrora dominaram, o poder - é disso que trata esta obra - está agora entregue ao touro Sílvio e à matilha de cães com os quais impõe com ‘cornos de ferro, mandíbulas de aço’ e secretas ajudas externas a sua vontade. A chegada de um pequeno rato, no qual é impossível não vermos projectado Mahatma Gandhi e a sua doutrina de não-violência e resistência passiva, num confronto sereno pela liberdade e pela paz, desejada sem lágrimas nem sangue, vai levar os outros animais, naturalmente mansos - simples galinhas, patos, ovelhas e poucos mais - a organizarem-se e a defenderem a igualdade de alimentos, trabalho e regalias a que até aí só os dominadores tinham direito.

À frente desse movimento sereno, acabarão por se encontrar os improváveis Miss B., uma gata viúva com dois filhos pequenos, e César, o coelho gigolo, que terão de converter os outros à senda do pacifismo - e por vezes as maiores dificuldades surgem com os que são mais próximos...

Ao longo dos quatro álbuns, cujo traço bastante realista de Delep torna um deleite para os olhos, Dorison, num tom entre o realismo ou a utopia, o cinismo ou a mais pura crueza, vai expondo o crescimento dos protagonistas e as sucessivas mudanças de posição, umas ligeiras, outras profundas, umas quase inócuas, outras funestas, que vão experimentando de um e outro lado de uma barreira invisível mas de resultados bem concretos, aqueles que a vida - a sede de ser e ter mais do que os outros - tornou, mais do que adversários, inimigos. Desse modo, transforma o que poderia ser apenas mais uma variação da obra de Orwell num completo e apaixonante tratado sócio-político, em que, sem dificuldade, todos nos reconheceremos, na pele de um ou outro animal.

No final, fica a certeza que todas as revoluções, mesmo as pacíficas têm um custo. Um custo alto, um custo para todos, um custo que vai acima do que qualquer um desejaria pagar.

Compensam? Sim, até já não compensarem.


Nota final 1

Livro a livro, senti necessidade de ir partilhando sensações e impressões de leitura.

Não sendo necessário, mas ajudando a aprofundar o que Dorison e Delep foram dizendo, podem (re)ler esses textos nas ligações a seguir indicadas.

O Castelo dos Animais 1: Miss Bengalore

O Castelo dos Animais 2: As Margaridas do Inverno

O Castelo dos Animais 3: A noite dosjustos


Nota final 2

Com este tomo, esta é mais uma série que fica completa em Portugal. Apanhada pela Arte de Autor com ligeiro atraso em relação à edição original do volume inicial, nos dois seguintes acompanhou-as de muito perto e terminou com a publicação do derradeiro em simultâneo. Mais uma razão - a par das excelentes edições - para dar os parabéns à editora.


O Castelos dos animais 4: O Sangue do Rei
Xavier Dorison (argumento)
Felix Delep (desenho)
Arte de Autor
Portugal, Novembro de 2025
232 x 310 mm, 96 p., cor, capa dura
23,50 €

(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 10 de Dezembro de 2025; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...