06/01/2026

Peter Pan de Kensington

Ver para lá do que os olhos mostram


Nos últimos anos, José-Luís Munuera tem-nos proposto em banda desenhada obras provenientes da literatura (Um conto de Natal, Bartleby, o escriturário, A corrida do século), em versões inspiradas e cativantes, que a Arte de Autor tem editado por cá. A mais recente é este Peter Pan de Kensington, que se baseia em O pequeno pássaro branco (1902), de J. M. Barrie.

Como pressuposto, temos uma menina, Maimie Mannering, que se perde nos imensos jardins de Kensigton, em Londres, que, como toda a gente sabe, durante a noite são povoados por fadas que comem dedos, sombras assustadoras, pássaros falantes e outras criaturas com tanto de maravilhoso quanto de sinistro. E também por lá anda, melhor dizendo, esvoaça, um certo Peter Pan.

Sim, porque o Barrie que citei atrás é James Mathew Barrie, o criador do menino que não queria envelhecer que, neste relato, com um ténue fio condutor, que dá a sensação de ter sido escrito ao correr da pena, alinhava alguma situações mais ou menos delirantes, com os primeiros conceitos do que viria a ser o futuro Peter Pan, surgido anos mais tarde em Peter e Wendy (1911).

Com esta base, Munuera utilizando a mesma técnica das obras citadas, que consiste em apor um traço semi-caricatural em fundos realistas, constrói um relato consistente e completo em si mesmo, em que não se coíbe de citar, de passagem, anacronicamente, meninos perdidos, a Terra do Nunca ou um certo Capitão Gancho. Acerca de quem, Maimie, diz que "se esqueceu a sua infância, deve ser uma alma solitária e triste", completando Peter, de forma crua: "é um adulto!". 

Porque, a dualidade criança/adulto, com estes a esquecerem tudo aquilo que um dia foram ao entrarem na chamada vida real, já está presente. E por isso, tal como o futuro Peter Pan, esta é uma história que, afastando o tom delicodoce que Walt Disney transmitiu ao seu filme de 1953, se dirige aos adultos que ainda são crianças, ou seja, àqueles que, ao crescer, mantiveram a capacidade de sonhar e de verem “o que é, o que não é e o que poderia ter sido”.

Contudo, apesar do seu tom feérico e onírico, que recorrentemente nos leva a tirar os pés da terra onde os assentamos, Peter Pan de Kensiington não se coíbe de um olhar crítico e sarcástico sobre a sociedade, o que contribui para lhe conferir um outro tom complementar.


Como complementar, a este relato de Munuera e ao Peter Pan de Barrie, é a sugestão de que, mantendo-se no universo de Barrie, mas completamente subvertido, passando da poesia onirica para um ultra-realismo violento, (re)leiam o excelente Peter Pan, de Régis Lousel disponível em seis volumes numa edição da Asa.


Peter Pan de Kensington
José-Luís Munuera segundo J. M. Barrie
Arte de Autor/A Seita
Portugal, Outubro de 2025
210 x 285 mm, 96 p., cor, capa dura
22,50 €

(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 20 de Dezembro de 2025; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor e A Seita; clicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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