14/01/2026

Coração das trevas

Até ser engolido pela selva


Ainda sob o âmbito de um ano que foi pródigo em adaptações de obras literárias em banda desenhada - Dom Quixote de La Mancha ou O Vento nos Salgueiros são dois títulos a reter e (re)descobrir - abro 2026 [no Jornal de Notícias] com mais um exemplo: Coração das trevas, de Luc Brahy, baseado no romance homónimo de Josep Conrad, que deve parte da sua fama ao facto de ter servido de base ao filme Apocalypse now, de Francis Ford Coppola.

Após a leitura do romance, ver a sua adaptação no filme ou como é agora o caso, em banda desenhada, permite confrontar a imagem mental que nós formámos ao lê-lo, com a interpretação que outros lhe deram, em meios diferentes.

Próxima ou não da nossa visão, diferindo mais ou menos dela, isso permite sempre uma nova releitura e, no mínimo, leva-nos a descobrir outras aspectos da história que nos é contada e a explorá-la mais a fundo.

Naturalmente, a diferença de fundo entre o filme e esta banda desenhada que a Relógio D’Água disponibiliza em português, é o abandono do Vietname enquanto cenário escolhido por Coppola, para regressar à África negra original de Conrad, que vamos entrevendo enquanto percorremos o longo e sinuoso rio Congo.

Uma África ainda exótica e nebulosa do final do século XIX, onde o tempo não passa, onde o clima opressivo convida a não fazer nada, onde os contactos com a dita civilização e as suas vantagens se tonam mais difíceis e escassos à medida que o protagonista se vai embrenhando cada vez mais na selva, no ‘coração das trevas’ para que remete o título. De seu nome Marlow, seguiu para o Congo com a missão de restabelecer o lucrativo comércio de marfim que, na sua origem, está nas mãos de um certo Kurt, de cuja saúde mental todos duvidam sem avançar razões.

Balizado por estas incertezas, a atracção dos valiosos dentes de elefantes, os mistérios que a região encerra e as suas especificidades tão difíceis de entender e aceitar por brancos ditos civilizados, Coração das trevas é uma obra tensa e pesada, que narra uma viagem sucessivamente atrasada pelos incidentes da viagem, o carácter dos locais, o desinteresse dos ocidentais já estabelecidos e acondicionados ao clima e a dificuldade de chegar até Kurt. Nela, Marlow, assaltado por muitas dúvidas e pela descrença crescente, vai embrenhar-se tanto no coração de África quanto no âmago dos que o vão rodeando, num relato opressivo acentuado pela traço impreciso de Luc Brahy e pelos tons verde e laranja dominantes das cores de Cyril Saint-Blancat.


Coração das trevas
Luc Brahy segundo Joseph Conrad
Relógio D’Água
Portugal, Dezembro de 2025
195 x 270 mm, 108 p., cor, capa mole com badanas
20,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 2 de Janeiro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Relógio D’Água; clicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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