10/03/2011

Capitão América, 70 anos

Datada de Março de 1941 (embora pareça certo que foi distribuída em Dezembro do ano anterior), a “Captain America Comics” marcou a estreia de um novo super-herói, criado por Joe Simon e Jack Kirby e destinado a auxiliar o seu país na luta contra os nazis na II Guerra Mundial.
Por toda a Europa, onde as forças do Eixo tinham acabado de assinar um pacto, a guerra alastrava; na União Soviética, Trotsky, um dos líderes da Revolução Socialista era assassinado; no Norte de África, nada parecia poder deter as tropas de Mussolini; nos Estados Unidos, os preparativos para a guerra estavam a começar. Por isso, neste contexto, nada mais natural do que criar um herói que servisse de modelo, incentivasse e liderasse os jovens contra os nazis e os seus aliados.
Dessa forma, o Capitão América, sem super-poderes nem artefactos tecnológicos, dependia apenas da inteligência, da força física e da coragem. E, fora do uniforme, era Steve Rogers, numa primeira fase dispensado do exército por inaptidão física e posteriormente utilizado como cobaia de um soro especial, numa experiência que visava criar super-soldados que permitissem aos EUA sair vitoriosos do combate que se avizinhava.
Para apelar ao patrio-tismo, o novo herói, vestia as cores e os símbolos da bandeira dos Estados Unidos (as faixas, as estrelas) e tinha como única arma um escudo, que era triangular na revista de estreia, mas passou a redondo a partir da segunda, para evitar confusões (e um processo judicial) com The Shield, um herói surgido semanas antes.
O sucesso foi imediato e a revista, apesar do tom ingénuo (que hoje reconhecemos nas suas histórias), atingiu rapidamente vendas acima do milhão de exemplares – mais do que a “Times”… -, que se mantiveram mesmo com a saída da dupla de criadores no décimo número.
Ao lado do Capitão América, estava Bucky, um adolescente que por acaso descobriu a sua identidade secreta e Betty Ross, agente do governo e sua grande paixão. Mais tarde surgiriam o Falcão, Nick Fury e os Vingadores, como seus aliados nos combates pela liberdade.
Estes, de início eram contra os espiões que, nos EUA, na sombra, tentavam sabotar o esforço de guerra americano, o que não impediu que o Capitão América logo no segundo tomo, fosse até à Europa desbaratar as forças nazis e socar (literalmente) Hitler e Goering!
O fim da guerra – e a crise que se lhe seguiu – esvaziaram o interesse dos heróis patrióticos, levando ao cancelamento da revista em Fevereiro de 1950, pese embora uma tentativa vã de o transpor para a Guerra da Coreia.
E se hoje em dia morrer e ressuscitar é tão natural como respirar no universo Marvel, o Capitão América foi de certa forma um pioneiro neste aspecto. Desaparecido nas águas geladas do Oceano Ártico, na sequência de uma explosão, no final da II Guerra Mundial, sobreviveu graças ao soro que lhe fora injectado, mantendo-se em animação suspensa, até ser resgatado pelos Vingadores, já nos anos 60, pelas mãos de Stan Lee e, de novo, Kirby, vindo depois a passar pelas mãos talentosas da maior parte dos grandes criadores da Marvel-
Só que os tempos eram outros, o seu protagonismo desvaneceu-se, o seu desencanto com os “novos” EUA foi grande. Combateu então vilões comuns (sempre com o Caveira Vermelha à cabeça) e também políticos corruptos, chegando mesmo a enfrentar o governo americano quando os princípios em que acreditava eram postos em causa.
O início deste século trouxe-lhe novos adversários, os terroristas que atacaram Nova Iorque e Washington e todos aqueles que desafiam o exército americano pelo mundo. Por isso não surpreende vê-lo a servir de modelo e exemplo, nos comics que anualmente a Marvel cria para distribuição gratuita aos soldados americanos no estrangeiro.
Em tempos mais recentes, durante a saga “Guerra Civil”, que opôs super-heróis contra e a favor do registo das suas identidades secretas, os ideais que sempre defendeu fizeram dele o líder por excelência dos que, contra o governo, defendiam o direito à liberdade e à privacidade, o que culminou com a sua prisão e posterior assassinato a tiro à entrada do tribunal onde ia ser julgado. Enterrado com honras militares, o seu lugar seria ocupado por Bucky Barnes (um outro ressuscitado…). De forma temporária, no entanto, porque, pouco tempo depois, o Capitão América original regressou porque o seu legado não pode desaparecer enquanto os EUA tiverem inimigos no mundo.
Apesar do sucesso nos quadradinhos, o Capitão América só chegaria ao pequeno ecrã nos anos 60, como integrante da série animada “The Marvel Super Heroes”. Com excepção de dois filmes televisivos na década seguinte, as restantes aparições do herói, em desenhos animados, nunca foram em séries com o seu nome. Nos anos 90, o cinema dedicou-lhe um filme menor, protagonizado por Matt Salinger, e actualmente está em produção “Capitão América – O Primeiro Vingador”, com estreia prevista para Julho deste ano. Dirigido por Joe Johston, a partir do argumento de Christopher Markus e Stephen Mcfeely (que já trabalham na respectiva sequela), tem como protagonistas Chris Evans (Steve Rogers), Hugo Weaving (Caveira Vermelha), Tommy Lee Jones (General Phillips) e Hayley Atwell (Peggy Carter).

(Versão revista do texto publicado no JN de 5 de Março de 2011)

09/03/2011

Peanuts regressam aos quadradinhos

Charlie Brown, Snoopy, Lucy, Linus e os restantes companheiros vão regressar à banda desenhada já este mês. O anúncio foi feito pela editora norte-americana Kaboom!, confirmando assim os rumores que circulavam no meio dos quadradinhos, desde que os herdeiros de Schulz venderam os direitos da série à Iconix Brand Group Inc. por 175 milhões de dólares (cerca de 131,5 milhões de euros), em Abril do ano passado.
Ao contrário do que muitos pensavam, esta volta à BD não vai ser no tradicional formato de tira diária de jornal, mas sim numa novela gráfica intitulada “Happiness is a Warm Blanket, Charlie Brown” (“A felicidade é um cobertor quente, Charlie Brown”), que adapta o filme animado homónimo que também ficará disponível neste mês de Março e que assinala os 45 anos da estreia dos Peanuts na televisão.
São 80 páginas a cores, baseadas no trabalho de Schulz, com argumento do seu filho Craig Schulz e de Stephen Pastis (criador da tira de imprensa Pérolas a Porcos) e desenhadas por Bob Scott, Vicki Scott e Ron Zorman.
Pelas páginas iniciais da obra, já disponibilizadas pela Kaboom!, até agora mais conhecida pelas adaptações aos quadradinhos de criações da Disney e da Pixar (Donald Duck, The Cars, Nemo), é possível verificar que foi utilizado um estilo gráfico muito próximo do de Schulz e uma planificação dinâmica e variada.
Os Peanuts começaram a ser publicados em Outubro de 1950 e através deles, Schulz traçou um retrato duro e desencantado do mundo dos adultos, visto através de um grupo de crianças, que apresentavam todos os defeitos do ser humano. A última prancha dominical foi publicada a 13 de Fevereiro de 2000, um dia após a morte de Schulz, único responsável pelas 17 897 tiras da sua criação, pelo que esta é a primeira vez que os Peanuts têm uma assinatura diferente.
O sucesso da banda desenhada levaria os heróis de Schulz levá-los-ia a serem adaptados na televisão, em teatro e em musicais, gerando um sem número de artigos derivados, o que faz com que os respectivos direitos gerem um encaixe de cerca de 75 milhões de dólares por ano.


(Texto publicado no Jornal de Notícias de 8 de Março de 2011)

08/03/2011

Tintin

#11 – O Segredo do Licorne
#12 – O Tesouro de Rackham, o terrível
Hergé (argumento e desenho)
Edições ASA (Portugal, Setembro de 2010)
160 x 220 mm, 64 p., cor, cartonado, 8,90 €


Entre as muitas leituras aos quadradinhos que faço, confesso que Tintin tem (continua a ter) um lugar especial. Não por nostalgia de infância porque, se é verdade que o li – parcialmente - em criança, a minha relação – voluntária e consciente - com Tintin surgiu bem mais tarde e tem, por isso, mais contornos de relação estável e duradoura do que de paixão avassaladora mas passageira. Até porque, cada nova leitura, me leva a (re)descobrir novos motivos para admirar a obra-prima de Hergé.
Entre os diversos álbuns com as suas aventuras, “O Segredo do Licorne”, não sendo o meu preferido – esse destaque vai sem dúvida para “Tintin no Tibete” e “As Jóias da Castafiore” – será o que mais memórias me evoca. Curiosamente, em contradição com o que atrás escrevi. Porque o descobri – incompleto – em páginas de velhos exemplares de O Papagaio existentes em casa da minha avó e nelas, muitas vezes, o reli – incompleto, reforço – sem saber se e como Tintin chegaria a encontrar o famoso tesouro de Rackham, o Terrível.
Se este facto é determinante para o peso ”sentimental” que ele tem para mim, a verdade é que este álbum, melhor, o díptico “O Segredo do Licorne”/”O Tesouro de Rackham, o Terrível”, tem tudo para seduzir e conquistar qualquer leitor que a ele chegue sem preconceitos.
Desde logo, porque é, sem dúvida, um dos argumentos mais sólidos de Hergé, baseado na sempre motivadora busca de um tesouro, feita através de um inquérito, longo e recheado de percalços em que humor e mistério se combinam com perfeição.
Depois, porque é nele que se solidifica a relação do repórter com Haddock e é nele que se estreia Girassol. Também porque nele os Dupond/t têm um papel fundamental, não tanto como heróis, mas ainda como co-protagonistas com o papel – mais importante do que por vezes se pensa - de atenuar o clima de mistério, graças aos sucessivos disparates que dizem e fazem. E não deixa de ser curioso analisar como todos eles vieram, de alguma forma, ocupar um espaço que até agora (praticamente só) Milu preenchia, enquanto companhia, elemento de salvação e/ou de introdução de humor.
Voltando à questão do argumento, na construção da (longa) narrativa, veja-se como, em especial no primeiro álbum, ela funciona em blocos, de alguma forma autónomos, mas perfeitamente interligados e contribuintes imprescindíveis para o todo: a Feira da Ladra, a insistência pela caravela, a (fabulosa) recriação da história do Cavaleiro de Hadoque (com os paralelos entre o passado e o empolgado Haddock no presente), o carteirista, o rapto e prisão de Tintin, o confronto com os irmãos Pardal, a sua libertação.
E como, no segundo tomo, a tensão cresce, a expectativa aumenta, a curiosidade do leitor é incontrolável num relato em que, na verdade… se pode mesmo dizer que nada acontece! Porque se há uma busca a decorrer, sucedem-se os equívocos, os falhanços, as desilusões.
Tudo narrado com mestria, com uma técnica gráfica e narrativa inigualável, apurada, de uma enorme legibilidade, atraente e expressiva, aqui com um recurso pouco comum a vinhetas grandes. E com um perfeito controle do desenrolar das cenas, das atitudes das personagens, dos diálogos estabelecidos, com os momentos de tensão, de dúvida, de suspense a multiplicarem-se no final de cada prancha (a isso obrigava a publicação semanal em revista), sem uma quebra, um erro…
Tudo motivos para o leitor chegar ao final da leitura satisfeito, recompensado pelo tempo empregue. Tenha sido a primeira ou a vigésima vez que a fez.
E com a certeza que, depois deste díptico, nada ficou como dantes. Tintin, encontrou uma casa – o Castelo de Moulinsart – e uma família estável – Milu, Haddock, Girassol, os Dupond/t. As bases para o melhor período do herói – menos espontâneo, mais genial… - sobre o qual, possivelmente, virei a escrever (algumas vezes mais) aqui.

07/03/2011

Portugueses na Marvel

Lançados em meados de Fevereiro nos Estados Unidos, chegam no início desta semana, às lojas nacionais especializadas em banda desenhada importada, dois comics de super-heróis com participação portuguesa na sua autoria.
Um deles é o primeiro dos quatro números previstos de “Onslaught Unleashed”, que fica como a primeira mini-série desenhada por um artista português, no caso Filipe Andrade. Esta narrativa de Sean McKeever, um argumentista de primeira linha, que reúne o Capitão América, a Mulher-Aranha e alguns dos X-Men em novo confronto com o vilão Onslaught, conta com outro português na sua ficha técnica, Ricardo Tércio, como responsável pelas cores da publicação. Como é normal em projectos de alguma relevância da Marvel, foram feitas tiragens com capas alternativas, desenhadas por dois grandes autores da Casa das Ideias, Humberto Ramos e Rob Liefeld.
Ao mesmo tempo, chegará também “Marvel Girl #1”, uma história completa de Josh Fialkov, desenhada e colorida por Nuno Plati Alves, que narra como os poderes psíquicos da mutante Jean Grey se manifestaram após o seu namorado falecer num acidente automóvel, sendo necessária a intervenção do professor Xavier, dos X-Men, para a ajudar a controlá-los.
Entretanto, Nuno Plati Alves que, tal como Filipe Andrade, tem multiplicado as suas colaborações com a Marvel, terminou recentemente uma história curta do Homem-Aranha, estando agora a trabalhar num one-shot com o mesmo herói. A BD, de 8 páginas, será incluída na revista “Amazing Spider-Man” #657, em que, na sequência do recente desaparecimento do Tocha Humana e a sua substituição pelo Homem-Aranha, várias personagens evocam episódios que partilharam com aquele membro fundador do Quarteto Fantástico.
A participação de autores portugueses em revistas Marvel, que tem vindo a crescer nos últimos anos, geralmente leva a uma maior procura desses títulos nas lojas portuguesas, como aconteceu na Mundo Fantasma, no Porto, com “Onslaught Unleashed” e Marvel Girl #1, revelou ao JN Vasco Carmo.

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 27 de Fevereiro de 2011)

06/03/2011

Selos & Quadradinhos (29)

Stamps & Comics / Timbres & BD (29)
Tema/subject/sujet: Henry van de Velde (1863-1957)
País/country/pays: Bélgica/Belgium/Belgique
Autor/author/auteur: François Schuiten
Data de Emissão/Date of issue/date d'émission: 2003

05/03/2011

Bedeteca de Beja - Programação

Março de 2011
Exposições

MECÂNICA POPULAR
Exposição da obra gráfica de José Feitor

De 26 de Março a 30 de Abril
Visita à exposição, com o autor, dia 26 às 18h00.
Galeria Principal – 1º andar.

TINTIN
Uma revista dos 7 aos 77

De 26 de Março a 30 de Abril
Exposição bibliográfica.
Galeria da Ala esquerda – 1º andar.

COR
15 Ilustradores Portugueses

Até 10 de Março
Exposição de serigrafia com André Letria, Alex Gozblau, André Carrilho, Bernardo Carvalho, Daniel Lima, Filipe Abranches, João Fazenda, Miguel Rocha, Maria João Worm, Nuno Saraiva, José Manuel Saraiva, Pedro Burgos, Tiago Albuquerque, Tiago Manuel e Susa Monteiro.
Uma exposição do Ar.Co. e da Casa da Cerca, com o Centro Português de Serigrafia.
Galeria da entrada – R/C.

NO REINO DO TERROR
Até 11Março
Exposição bibliográfica de revistas de terror.
Galeria da Ala esquerda – 1º andar

CARLOS PÁSCOA
Até 19 de Março
Exposição de banda desenhada e ilustração.
Galeria Principal – 1º andar.


Montra de Março
Fanzine Funzip

De 1 a 31 de Março
O Funzip é um fanzine eclético, que junta várias sensibilidades, estilos e influências (dos comics americanos à mangá japonesa). Uma diversidade de estilos e influências que também se reflecte nas temáticas abordadas, que vão da crítica social à ficção científica, ao fantástico ou à aventura pura. É publicado sem interrupção desde 2004. Até ao momento saíram 5 números e uma edição especial. Editado pelo Grupo Entropia, tem como mentores e principais impulsionadores Paulo Marques e Ana Saúde. Pelas suas páginas já passaram autores como Álvaro, Andreia Rechena, André Oliveira, Bruno Silva, Carla Rodrigues, Daniela Varela, Filipe Duarte, Gastão Travado, Guilherme Mendes, J. B. Martins, Joana Lafuente, João Mascarenhas, João Sá-Chaves, Jorge Massuça, J. Veiga, Lara Santos, Melanie Romão, Miguel Martins, Nuno Nobre, Paula Carichas, Pedro Rito, Rui Mourão, Vanessa Nobre e XPeTO (além dos próprios Paulo Marques e Ana Saúde). O projecto foi apresentado em Beja, na última edição do Festival…
Bedeteca – 1º andar.

Cinema e BD
Conversas sobre Cinema e Banda Desenhada, por Véte, com exibição do filme VILÕES DA BANDA DESENHADA, de James Dale Robinson
.
Dia 10, quinta-feira, às 21h30
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Cinema de Animação
Traços do Japão – Sessões de Anime da NCreatures

PADRINHOS DE TÓQUIO, de Satoshi Kon e Shôgo Furuya, apresentado por Paulo Monteiro.
Dia 17, quinta-feira, às 21h30
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Noite de Western
Conversa sobre o célebre Blueberry, de Charlier e Giraud, por Paulo Monteiro, e exibição do filme OS SETE MAGNÍFICOS, de John Sturges, com Yul Brynner e Steve McQueen, apresentado por Hélder Castilho.
Dia 24, quinta-feira, às 21h30
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Apresentações
Apresentação do livro Educação Estética Visual Eco-Necessária na Adolescência (MinervaCoimbra), de Elisabete Silva Oliveira. Diálogo com a autora sobre o tema.

29 de Março, terça-feira, das 17h30 às 19h00
Bedeteca – 1º andar.

Oficinas
Ouriço-do-Mar – Oficina de Banda Desenhada
Todas as terças-feiras, das 19h30 às 20h30
Para autores entre os 8 e os 12…
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Toupeira – Oficina de Banda Desenhada
Todas as quintas-feiras, das 19h30 às 20h30
Para autores a partir dos 13 anos…
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Clubes
Lemon Studio – Clube de Mangá

Todas as quintas-feiras, das 16h00 às 18h30
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Magic The Gatering – Clube de Magic
Todos os Sábados das 15h00 às 20h00
Bedeteca – 1º andar.
Entrada livre.

Livro do Mês
A Trágica Comédia ou a Cómica Tragédia de Mr. Punch (Vitamina BD), de Neil Gaiman (argumento) e Dave McKean (desenho).
Donos de uma obra absolutamente singular, quer do ponto de vista da escrita, quer do ponto de vista da narrativa e do grafismo, Neil Gaiman e Dave McKean são dois dos mais excitantes e surpreendes autores de banda desenhada europeus.
A Trágica Comédia ou a Cómica Tragédia de Mr. Punch, uma obra-prima dos 2 autores britânicos, gira à volta do encontro entre um rapaz e um obscuro bonecreiro de passado misterioso. À medida que o bonecreiro revela as suas histórias, o rapaz confronta-se com terríveis segredos de família, pontuados pela violência, pela traição e pelo abuso. Uma fábula negra e desencantada sobre a inocência da infância e a dor da idade adulta.
Dave McKean esteve em Beja em 2008, por ocasião da exposição realizada com o seu trabalho, durante o IV Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.
A Trágica Comédia ou a Cómica Tragédia de Mr. Punch (104 páginas), foi publicada pela Vitamina BD em 2006 (a Bedeteca também dispõe da versão original, em língua inglesa). Neil Gaiman e Dave McKean são também os autores das obras O Dia em que troquei o meu pai por 2 peixinhos vermelhos e Os Lobos nas Paredes, igualmente disponíveis na Bedeteca.

Notícias
O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja aproxima-se a passo largos… Este mês, entre os estrangeiros, destacamos a presença de Aleksandar Zograf e Melinda Gebbie (a célebre autora de Lost Girls fará uma conferência sobre banda desenhada e censura. Um tema muito actual, por uma autora que tem a sua obra interditada neste momento). Entre os portugueses, que são muitos, destacamos a presença de Fernando Relvas, regressado da Croácia há pouco tempo…
O acervo da Bedeteca inclui muitas centenas de publicações - d’O Mosquito, ao Jornal do Cuto, passando pela revista Tintin… O acervo está praticamente inventariado e em breve todas estas centenas de publicações estarão disponíveis para consulta. Uma bela notícia, para quem gosta de sentir o cheiro do papel das velhas edições…

Nas escolas
Este mês vamos estar em Castro Verde, a fazer uma acção de formação para professores de vários concelhos do Alentejo. Uma acção de formação com uma forte componente prática, já que o que se pretende é que sejam os próprios professores a realizar a sua primeira banda desenhada…

(Texto da responsabilidade da Bedeteca de Beja)

04/03/2011

O Grupo do Leão

Rui Zink (argumento)
António Jorge Gonçalves (desenho)
Museu Nacional de Arte Contemporânea (Dezembro de 2010)
250 x 340 mm, 32 p., cor, cartonado, 16 €

Resumo

O desaparecimento de três pintores – José Malhoa, Silva Porto e Moura Girão - do quadro “O Grupo do Leão”, de Columbano, exposto no Museu do Chiado, leva um dos seus responsáveis a chamar a polícia, na pessoa do Inspector Columbano, para proceder à respectiva investigação.


Desenvolvimento
Nascido como um (falso?) policial, esta nova colaboração entre Rui Zink e António Jorge Gonçalves - depois de “A Arte Suprema”, “Rei” e “VIH, o vírus da sida” – nascida de um convite do Museu do Chiado para dar a conhecer os contornos daquele que foi talvez o mais influente movimento da arte portuguesa de finais século XIX, rapidamente se transforma num passeio em tom de divagação pelo mundo da arte, da pintura (e mesmo da banda desenhada). Por isso, ao longo das páginas são mostradas diversas pinturas e esculturas, nalguns casos inseridas num contexto actual, de forma bem curiosa.
No seu epicentro está “O Grupo do Leão”, um quadro pintado por Columbano Bordalo Pinheiro, em 1885, no qual imortalizou a tertúlia de artistas e intelectuais que se costumava reunir na cervejaria Leão. Partindo dos seus inte-grantes, Zink leva-nos a acom-panhar o trajecto – não isento de percalços - do quadro ao longo das décadas, numa história que, sendo didáctica, está longe de excessos que a tornem aborrecida, ressaltando da sua leitura a fluidez com que o leitor é guiado através das páginas, cuja planificação raramente é convencional, mesmo apesar da multiplicidade de personagens, enquadramentos e soluções gráficas adoptadas. Nalguns casos, estratégias aparentemente simples, mas bem conseguidas, como o passeio pelo “interior” de alguns dos quadros abordados, cujas molduras servem de (falsas) vinhetas, ou o percurso dos protagonistas ao longo de vários locais numa mesma prancha, que também contribuem para tornar a leitura mais dinâmica.
Tal como o passeio pela arte, também a inves-tigação é levada a bom termo – longe no entanto daquilo que se esperaria se se tratasse de um policial tradicional - num todo que destaca a importância não das obras mas dos autores e das pessoas reais que as inspiram e elas retratam. No final, fechado o álbum, pode o leitor concluir que os criminosos foram afinal os autores do livro, apostados em mostrar um novo “grupo”, não do Leão, mas deste país que temos. Mais actual sem dúvida; mais genuíno, possivelmente; mas também mais pobre intelectualmente. Por isso, fica a (incómoda e triste) sensação de que Portugal, o actual, em que vivemos, fica bem pior no novo retrato…

Curiosidade
- No quadro O Grupo do Leão, abaixo reproduzido, Columbano retratou, sentados, da esquerda para a direita: Henrique Pinto, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e Rodriges Vieira; e de pé, da esquerda para a direita: Ribeiro Cristino, Alberto d'Oliveira, o empregado de mesa Manuel Fidalgo, Columbano Bordalo Pinheiro, outro criado (Dias) ou o dono da Cervejaria, António Monteiro e Cipriano Martins.

03/03/2011

Les Nuits Assassines

J.-M. Goum (argumento)
Byun Ki-hyun (desenho)
Casterman (França, 11 de Março de 2009)
170 x 240 mm, 168 p., cor, brochado com badanas, 16 €


Resumo
Na região dos Alpes austríacos, no início dos anos 70, uma pequena povoação é abalada pela morte súbita de Axel Neunhöffer, um homem saudável acabado de completar 36 anos. Precisamente da mesma forma e com a mesma idade com que o seu pai faleceu.
Mas esta é apenas a primeira de uma série de mortes inesperadas na família, cuja razão – doença hereditária? maldição? assassino em série? – as autoridades locais e um jornalista em busca de projecção pessoal vão tentar descobrir.

Desenvolvimento
Na origem deste livro um pressuposto: criar uma obra que fizesse a ponte entre duas culturas (aos quadradinhos): a ocidental (leia-se franco-belga), representada pelo argumentista J.-M. Goum, diplomado em comunicação, com passagens pelo jornalismo e pela organização de espectáculos, e a asiática, na pessoa do desenhador Byun Ki-hyun, pertencente à nova geração coreana.
A existência deste ponto de partida, após a leitura da obra, obriga a uma primeira constatação: mais do que a soma de duas partes, Les Nuits Assassines revela duas formas distintas de narrar graficamente: a estrutura narrativa, o ritmo e a planificação são tipicamente ocidentais; o traço está mais próximo do anime semi-realista, sem recurso a aspectos mais comuns ao manga (e ao manhwa): onomatopeias, linhas de acção e movimento, personagens caricaturais para expressar emoções… Não que daí venha mal ao mundo, até porque o todo é convincente e funciona, mas porque saíram goradas eventuais expectativas de descoberta ou inovação.
A história em si, é um policial típico, com um toque de fantástico, que beneficia bastante pelo facto de se passar numa localidade pequena e isolada, onde abundam as tensões, em especial entre as famílias Neunhöffer e Oefeln, unidas – contra vontade dos seus “patriarcas” – pelo casamento de Axel, a primeira vítima, e Helga. União em que o amor e a cumplicidade rapidamente deu lugar a dúvidas, desconfianças, conturbação e opções mal explicadas, devido às pressões exercidas pelos restantes familiares. As personagens são consistentes e apresentam aspectos interessantes, sendo a base de uma história bem delineada, com alguns momentos de suspense bem conseguidos, ao longo da qual o argumentista vai expondo de forma equilibrada e credível diversas explicações para as sucessivas mortes que assolam a província austríaca do Voralberg.
E que, como não podia deixar de ser, tem um desfecho que vai surpreender os leitores.

02/03/2011

Os incontornáveis da Banda Desenhada

Vários autores (ver a seguir)
ASA+Público (Março de 2010)
220 x 229 mm, cor, 96/144 p., brochada com badanas, 7,40 €


O jornal Público em parceria com as Edições ASA começa hoje a distribuir uma nova colecção de BD, que durará 12 semanas.
Sem prejuízo de voltar posteriormente a alguns deles, pois a qualidade de vários dos volumes justifica-o plenamente, fica já a seguir a data de publicação de cada um dos títulos, sendo de referir que apenas uma (O Sábio Louco) das 24 bandas desenhadas propostas já foi publicada em álbum em Portugal.

Dia 2/03 - Volume 1
VALÉRIAN E LAURELINE, de Christine e Mézières
- Nas Imediações do Grande Nada
- O AbreTempo

Dia 9/03 - Volume 2
O GATO DO RABINO, de Joann Sfar
- O Bar-Mitzvá
- O Malka dos Leões
- O Êxodo

Dia 16/03 - Volume 3
XIII MISTERY, de R. Meyer e X. Dorison e P. Berthet e Corbeyran
- O Mangusto
- Irina

Dia 23/03 - Volume 4
ADÈLE BLANC-SE,C de Tardi
- O Sábio Louco
- Demónio

Dia 30/03 - Volume 5
O BUDA AZUL, de Cosey
- Tomo 1
- Tomo 2

Dia 06/04 - Volume 6
I.R.$., de Vrancken e Desberg
- A Via Fiscal
- A Estratégia Hagen

Dia 13/04 - Volume 7
MURENA, de Dufaux e Delaby
- O Melhor das Mães
- Os que Vão Morrer…

Dia 20/04 - Volume 8
MAX FRIDMAN, de V. Giardino
- Rapsódia Húngara

Dia 27/04 - Volume 9
EM BUSCA DO PÁSSARO DO TEMPO, de Le Tendre e Loisel e Lidwine e Aouamri
- O Meu Amigo Javin
- O Livro dos Deuses Antigos

Dia 04/05 - Volume 10
LARGO WINCH, de Philippe Francq e Jean Van Hamme
- A Fortaleza de Makiling
- A Hora do Tigre

Dia 11/05 - Volume 11
O VAGABUNDO DOS LIMBOS, de Godard e Ribera
- A Fissirmá de Musky
- O Tempo dos Óraculos

Dia 18/05 - Volume 12
O ASSASSINO, de Jacamon e Matz
- A Dívida
- Laços de Sangue


Uma referência ainda para o facto de esta colecção, variada e heterogénea, ser aproveitada (também) para concluir/prosseguir séries que por diversas razões (falência da Meribérica, abandono da BD pela Booktree, dificuldade de conseguir co-edições, …) até agora estavam incompletas. O que, apesar das inevitáveis diferenças de formato em relação aos volumes originais, não deixa de ser uma iniciativa louvável, a que os leitores portugueses de banda desenhada não estão de todo habituados.
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