17/07/2026

Partir, ficando

Ir para fora cá dentro’



Não sei se Chabouté conhece - mas duvido… - o célebre slogan acima, criado pelo Turismo de Portugal já lá vão mais de 30 anos, mas Partir, ficando é a sua ilustração perfeita, levando o conceito a um minimalismo que pode ser considerado absurdo mas que deverá servir para que - literalmente - abramos os olhos.

Imaginem usar uns óculos de ver ao longe para olhar para o que está a nossa beira: vai ficar tudo difuso, nublado, impreciso; seremos incapazes de observar o que está ao alcance da nossa mão. Muitas vezes usamos as nossas férias desta forma: queremos ver longe, conhecer o que só vimos em livros ou num qualquer ecrã, fugir da rotina quotidiana mas, na verdade, desconhecemos o que está à nossa volta, o que nos rodeia, a rua que calcorreamos diariamente, o bairro em que vivemos...

Esta é a base de Partir, ficando, em que o protagonista, após 28 anos a trabalhar como guarda num parque de estacionamento, no horário noturno, decide partir para uma caminhada de 8 dias no Alasca. Uma sucessão de acasos - azares, dirão alguns - irão obrigá-lo a ficar.

De férias, sem as ocupações habituais - as lentes que deformam, as palas que limitam... - terá uma oportunidade para (re)descobrir o que tinha à porta da casa, os pequenos nadas que ao longo dos anos, no seu vaivém sem a luz do sol, lhe passaram despercebidos.

Entre o contraponto entre as regras para (sobre)viver em ambiente selvagem, com a ilustração da (re)nova(da) realidade, da observação daquilo que estava tão perto, vai criar um ‘caderno de viagem’ que revela da sua parte a descoberta de um novo mundo, tão próximo. E que, posteriormente, o vai levar a uma interacção, entre o poético e o irónico, com os espaços que (afinal não) conhecia,

Neste regresso ao mercado português, Chabouté, no seu preto e branco contrastante, aqui e ali, cirurgicamente pintalgado por apontamentos coloridos, mínimos na sua dimensão, mas profundos no seu significado, longe de outros espaços selvagens que nos tem prodigado - como em Acender uma fogueira - obriga-nos a parar, a olhar para o que nos rodeia, para o que está tão próximo, para o que podia fazer parte da nossa vida, desafiando-nos a aproveitar e interagir com o que está ao alcance de uma mão ou de um abraço ou, simplesmente, vive onde nós vivemos.
Tão só, a ‘ir para fora cá dentro’.


Partir, ficando
Colecção Novela Gráfica IX
Chabouté
Levoir/Público
Portugal, 3 de Julho de 2026
195 x 270 mm, 152 p., pb/cor, capa dura
16,90


(imagens disponibilizadas pela Levoir; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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