23/06/2010

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito João Tércio*


- Publicar em pequenas editoras é uma opção pessoal ou a única alternativa face ao desinteresse por parte das “grandes” editoras?
João Tércio -
É as duas coisas. No meu caso foi com grande satisfação que vi o meu primeiro álbum editado por um amigo, colega e pessoa ligada à BD portuguesa há mais de 20 anos, Pepedelrey. Alguém que sempre acreditou no meu trabalho. Aliás, estou a trabalhar num novo livro com ele mas de momento não posso adiantar pormenores; top secret!
Por outro lado, não sei se tem a ver com o efeito crise, as grandes editoras não mostram grande interesse em apostar em novos autores e preferem por enquanto dedicarem-se a reedições de clássicos e a continuar a trabalhar com os talentos já confirmados. Este ano em Angoulême não vi grandes novidades.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
João Tércio -
Tudo depende da capacidade de distribuição... se conseguirmos entrar no mercado brasileiro penso que a BD em língua portuguesa pode crescer muito nos próximos anos. Nos outros mercados temos de pensar em edições bilingues ou trilingues para angariar o máximo número de leitores. Mas mesmo lá fora e em países onde se consome BD como França, Itália, Espanha, o mercado varia muito. E se retirarmos a percentagem maior, que são os comics americanos e a manga japonesa, a fatia que sobra é muito pequena mas muito variável. Hoje quer-se uma BD politicamente correcta, amanhã uma viajem introspectiva de autor, e depois quer-se é erotismo kafkiano, etc...

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
João Tércio -
O habitual futuro negro de autor de banda desenhada...
Penso que em Portugal é muito devido à determinação e talento dos autores se tenta revolucionar a 9ª arte, que ao longo dos anos tem sido de alguma maneira menosprezada como uma arte menor. Se esta revolução de vários estilos, cores e feitios chegará a bom porto, só a médio prazo o saberemos. Continuo a sublinhar a importância que o mercado brasileiro pode vir a ter para a BD portuguesa, porque vejo aí uma grande vontade de ler projectos novos em português.

* Autor de Março Anormal

22/06/2010

L’impertinence d’un été – première e seconde parties

Denis Lapière (argumento)
Rúben Pellejero (desenho)
Dupuis (Bélgica, Abril de 2009 e Maio de 2010)
236 x 306 mm, 56 + 56 p., cor, cartonados


Resumo

México, Janeiro de 1942. É noite. O passageiro de um táxi pede ao motorista para parar no meio da rua. Pede-lhe que espere, sai e deposita no chão empedrado um lenço feminino. Volta ao carro e convida o condutor para beber um copo, enquanto lhe conta uma história. A história do fotógrafo norte-americano Edward Weston e da actriz, modelo e fotógrafa italiana Tina Modotti e da sua relação, ao mesmo tempo forte e distante, num país sacudido pela revolução onde sopram os ventos de (todas as) liberdades.

Desenvolvimento
É uma história – uma biografia ficcionada – que ele conta com exactidão mas também parcialidade, com a emoção só possível a quem conviveu de perto com os biografados. Porque o narrador, que suportará o relato ao longo dos dois tomos, é Théo, amigo dos dois amantes. Porque Weston deixou mulher e filhos na pátria para se juntar a Tina e para procurar um sentido para a fotografia, o meio – a arte - que escolheu para expressar os seus sentimentos e visões do mundo, num México conturbado e em plena efervescência, onde revolução rima com liberdade – todas as liberdades – e com arte (todas as artes, com destaque para as dos “muralistas” como Diego Rivera ou Xavier Gerrero).
Por isso, este relato acaba por se desenvolver a três níveis, que se entrecruzam e são indivisíveis. Por um lado, a relação dos dois, propriamente dita, feita de sensualidade, paixão e ciúme pois Tina, mesmo amando Weston, nunca foi mulher de um homem só, e ele, também, está dividido entre a sensual amante e os filhos que deixou (com a mulher) nos EUA.
Depois, o relato tem uma forte componente política, discutida em rodas de amigos, patente no contexto histórico que suporta a narrativa, entre a repressão conservadora e a (tentativa de) explosão do marxismo, passando pela perseguição e repressão do catolicismo, entre ambições pessoais e esperanças colectivas, num boião explosivo em que certos momentos sugerem a utopia de que tudo é possível. Numa época entre o “fim do mundo” causado pela I Guerra Mundial e a sua reconstrução em curso, que muitos acreditavam possível sem todos os defeitos e perigos do anterior.
Finalmente, L’impertinence d’un été é uma longa dissertação sobre arte, sobre o que a motiva e origina, sobre o momento criativo, sobre a insatisfação (que tantas vezes surge) face ao objecto criado, sobre as motivações, os desejos e os objectivos do artista.
Lapiére, com um texto contido mas profundo, em que as palavras têm o peso exacto, muitas vezes dizendo tanto quanto o que deixam intuir, conduz o relato – belo, poético, sentido - de forma equilibrada, aproveitando os momentos passados no tasco onde Théo e Miguel – o condutor de táxi – bebem e conversam – melhor, onde um conta e o outro escuta -, para os saltos temporais necessários à acção propriamente dita, passada cerca de 20 anos antes, no momento em que tudo acontecia.
Théo, o narrador, aliás Théophille Genet, pintor francês, personagem fictício, tem, apesar disso, uma enorme dimensão humana, expressando nas suas palavras, nos seus olhares, nos gestos e tiques, toda a emoção - todas as emoções: paixão, vibração, nostalgia, melancolia, tristeza, saudade… – que viveu (e agora revive). Sentimentos por vezes opostos, é verdade, mas que têm a sua razão de ser pela forma como acaba a história dos dois amantes – cujo reencontro serve apenas para se voltarem a separar – e como acabam, também, todas as ilusões e utopias (por isso são ilusões e utopias…) que foram sendo construídas... Como se tudo não tivesse sido apenas um imenso sonho de verão, que, no entanto, não durou mais do que os dois, três meses estivais, para depois a vida mergulhar nos mais sombrios Outono e Inverno, sem a esperança de uma Primavera que para Weston e Tina nunca chegou…
Quanto a Pellejero, com a sua habitual linha clara, de traço largo e expressivo, servida por cores planas, neste díptico quase sempre de tons mais sombrios, embora aqui e ali a cor expluda em momentos específicos e bem determinados, consegue passar para o desenho – com o desenho –, de forma notável, a carga sentimental inerente à história; veja-se, por exemplo, a belíssima e expressiva sequência de abertura do primeiro tomo ou a descrição da solidão de Weston no final do mesmo.

A reter
- A força e a emoção do relato.
- O traço de Pellejero (de quem, confesso, sou fã, há muitos anos).

Menos conseguido
- Eu sei que os autores demoram o seu tempo a criar e que, comercialmente, a obra funciona melhor assim, mas esta é uma daquelas historias que devia ser contada num só volume, para ser lida de uma só vez.

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito Nuno Duarte*


- Publicar em pequenas editoras é uma opção pessoal ou a única alternativa face ao desinteresse por parte das “grandes” editoras?
Nuno Duarte -
Apesar de considerar que não há "grandes" editoras de BD em Portugal, a resposta seria que as "pequenas" são uma alternativa interessante, face à liberdade temática, estilística e de formato que permitem.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
Nuno Duarte -
Com o advento das redes sociais a visibilidade é cada vez mais resultado do empenho dos editores/autores, enquanto que a a distribuição comercial está adstrita à necessidade das editoras em abrir cada vez mais concessões quanto maiores forem os canais de distribuição.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
Nuno Duarte -
Com a explosão dos meios de leitura digital surge uma possibilidade das "pequenas editoras" se implementarem cada vez mais. Nesse sentido será a qualidade e a diferença do "produto" a ditar as regras do seu próprio sucesso.

* Associado das Produções Fictícias e argumentista de A Fórmula da Felicidade

21/06/2010

Tex Anual #11 – Nas trilhas do Oeste

António Segura (argumento)
José Ortiz (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Dezembro de 2009)
135 x 176 mm, 324 p., pb, brochado

Resumo

Tex Willer e Kit Carson são enviados em perseguição de um bando de impiedosos assassinos que mancham de sangue e morte o sul do Arizona.
Na sequência de um confronto, Carson é ferido, obrigando Tex a encetar uma longa caçada a solo.

Desenvolvimento
Se o mais importante numa banda desenhada (num filme, num romance…) é a história, António Segura, um dos mais interessantes argumentistas espanhóis das últimas décadas, com provas dada no género aventura – como é o caso – falha nesta sua nova incursão em Tex – com quem já tinha sido bem mais feliz, por exemplo no Tex Anual #7 – O trem blindado - com uma história feita aos repelões, onde os diversos episódios parecem encaixados à pressão, dando por vezes a ideia que pelo meio foi esquecida a ideia-base que originou a trama. Dessa forma, os sucessivos encontros e desencontros com índios ou a caravana de pioneiros parecem apenas servir para adiar o confronto com os chefes dos assassinos, que acaba por surgir quase fortuitamente e por ser resolvido à pressa em poucas páginas, com um final surpreendente e inovador, que no entanto parece fisicamente impraticável. Não o vou desvendar, para não estragar a surpresa, mas deixo duas questões: Como se levanta Tex? Como é que as suas pistolas ainda disparam? Respostas (ou não) numa apreciação atenta da página 320…
A isto há que juntar a forma como soam pouco credíveis as questões temporais envolvidas no (longo) ramalhete de episódios, a forma como são praticamente ignoradas ou apenas abordadas pela rama temáticas que poderiam ser interessantes – como as relacionadas com a guerra civil – bem como personagens prometedoras, como os “loucos” de Gunnison, que mereciam ter sido mais e melhor explorados, em lugar de serem pouco mais do que meros figurantes.
Sobram, mesmo assim, razões para espreitar este Tex Anual, como é o caso, desde logo, do traço, de José Ortiz, seguro como sempre, duro e agreste, bem de acordo com a época violenta e à margem da lei retratada, e com um trabalho soberbo ao nível dos jogos de luz e sombras. E, para além dos ingredientes habituais do western, que satisfarão os apreciadores do género, há igualmente um Tex menos infalível do que é habitual e o retrato cruel mas lúcido de como a febre do ouro afectou (e enlouqueceu) até pessoas que pareciam dotadas do mais elementar bom senso…

(Texto publicado originalmente a 18 de Junho de 2010 no Tex Willer Blog)

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito a Miguel Rocha*


- Publicar em pequenas editoras é uma opção pessoal ou a única alternativa face ao desinteresse por parte das "grandes" editoras?
Miguel Rocha -
Tanto quanto me apercebo a Asa (ou a Maria José) modificou a sua política e já publica autores nacionais. (Não há outra grande editora a publicar BD, pois não? A Tinta da China fá-lo mas de forma muito errática).
Eu gosto das pequenas editoras, sinto que tenho um maior controle sobre o processo, mas também não tenho outra experiência e portanto pode ser tudo ilusão.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
Miguel Rocha -
Os livros melhor ou pior vão fazendo o seu caminho, com um numero de edições tão pequeno geralmente qualquer edição é notícia independentemente da editora. No meu caso, porque já tenho um público muito definido, geralmente o boca a boca (ou blog a blog) funciona para a divulgação do livro. Faço excepção ao Salazar (publicado numa pequena editora sem qualquer tradição de BD) e que teve uma super-atenção mediática, mais por obra da personagem do que dos méritos próprios do livro.
Onde esta questão mais se põe será provavelmente na internacionalização dos livros, mas disso também não sei, apenas suponho.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
Miguel Rocha -
Os formatos de distribuição electrónicos parecem-me interessantes. Para o formato livro creio que os autores têm que se virar para editoras estrangeiras de modo a ganharem mercados que permitam a profissionalização.

* Autor de livros de banda desenhada como “Salazar – Agora na hora da sua morte, A noiva que o rio disputa ao mar ou Hans, o cavalo inteligente

20/06/2010

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito a Fil*



- Qual o objectivo das vossas edições?
Fil -
O objectivo da Zona é essencialmente publicar BD, nacional ou internacional, com a maior qualidade possível, mas mantendo a porta aberta a autores mais novos ou inexperientes, mas que apresentem trabalhos com qualidade e uma boa margem de progressão.
O objectivo passa ainda por divulgar o trabalho de autores desconhecidos do grande público, ou não, e motivar a produção de mais e melhores trabalhos nesta área.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
Fil -
Neste momento eu diria que não deveremos conseguir grande visibilidade fora do meio da BD pois não temos uma estrutura profissional que apoie a produção e divulgação. E francamente, além da falta de tempo a verdade é que não somos muito fortes em termos de capacidade de divulgação, não temos por exemplo grande experiência em contactar a imprensa e na realidade não sabemos sequer bem como abordar esse meio. A falta de tempo também impede que tenhamos mais acções de divulgação. O ponto onde somos mais fortes será talvez a divulgação pela internet, em que todos os autores colaboram e penso que fazemos um bom uso sobretudo dos blogs e redes sociais, mas mesmo aí, há margem de progressão.
Seja como for tem havido um progresso grande, e pretendemos criar uma associação cultural que espero possa dar um apoio mais forte e consistente a este projecto e a outros. A colaboração entre autores é fundamental neste caso.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
Fil -
Imagino que por estes moldes, te refiras à edição independente e de autor.
Penso que o futuro deste tipo de publicação depende sobretudo do gosto pelo que se faz, ou mais a paixão, gosto não deve chegar. Pois dá muito trabalho, perde-se muito tempo, e pela minha experiência é possível não perder o dinheiro investido, mas por outro lado também não se ganha.
Por outro lado, penso que faz falta uma publicação do género da Zona para a divulgação e como motivação para os autores produzirem mais e melhor. Eu penso que neste ano fizemos com que a BD nacional crescesse mais um pouco. Pusemos autores a trabalhar mais, a produzir mais e melhor.
No panorama nacional penso que seria difícil muitos destes autores encontrarem um veículo tão interessante para divulgar e expor o seu trabalho. E viemos agitar um bocado o meio também.
Penso que temos muitos autores de grande nível e muitos outros com potencial para chegar a níveis elevados. A Internet veio abrir muitas portas e como tal vemos agora muitos autores a trabalhar para grandes empresas de BD estrangeiras, mesmo sem ter de sair do país.
A BD nacional tem futuro, mas é preciso muito trabalho e não desistir.

* Editor do projecto Zona Gráfica

19/06/2010

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito David Soares*



Publicar em pequenas editoras é uma opção pessoal ou a única alternativa face ao desinteresse por parte das “grandes” editoras?
David Soares -
Quanto à questão do desinteresse das grandes editoras, aquilo que elas demonstram não é isso, mas algum temor em publicar autores menos conhecidos e tal não acontece apenas no mercado da BD. Publicar o álbum "Mucha" pela Kingpin Books começou por ser o desejo que eu tinha de trabalhar com o Mário Freitas, porque somos amigos e achámos que seria enriquecedor fazer algo em parceria. No que diz respeito ao meu trabalho de banda desenhada, eu não teria problemas nenhuns em publicá-lo por qualquer editora que eu escolhesse, fosse ela mais pequena ou maior, considerando o currículo que tenho e isso é factual. Eu gosto é de trabalhar com quem gosto, por conseguinte a dimensão da Kingpin Books nunca foi uma questão que tivesse sido sequer equacionada por mim.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
David Soares -
Os distribuidores não querem saber se as editoras com quem trabalham são pequenas ou grandes: apenas estão preocupados em distribuir o maior número possível de edições, a um ritmo constante. Garantir a distribuição dos álbuns de BD depende, em exclusivo, do capital do editor. Se tiver capital para publicar muitos títulos com regularidade assegura uma boa distribuição. Se não, pode defender-se oferecendo livros de características únicas. O leitor "normal" de BD é conservador, lê sempre a mesma coisa e, quase sempre, desconfia da BD nacional. Os leitores "especializados" que compram BD nacional sabem que podem encontrá-la nas livrarias de BD ou encomendá-la pela Internet aos próprios editores, por isso nem sequer vale a pena falar sobre distribuição nas grandes superfícies, porque os leitores "especializados" não precisam dela para nada.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
David Soares -
O mercado da BD nacional sempre foi de nicho, feito com obras de qualidade sismográfica realizadas por autores que, na sua maioria, nunca se profissionalizaram - ou seja, nunca chegaram a viver da BD ou (para não ir tão longe) a produzir trabalhos de qualidade a um ritmo constante. Existiram e existem autores que fogem a esta caracterização, mas de maneira geral o que se passou e passa é isto. Logo, se não crescemos mais até agora é porque o nosso estado natural é este. Em termos de proporção, se calhar até temos o mesmo número de autores que Espanha: países maiores, e com mais leitores, têm de ter mais autores, mais editores e mais livros - isso parece-me evidente. Acho que o futuro da BD portuguesa vai ser idêntico ao que tivemos ontem. Mudarão os actores, as linguagens, os veículos de expressão, mas as mecânicas continuarão a ser as mesmas. Hoje continuamos a ter autores que nem sequer pensam em publicar cá e publicam directamente lá fora (como sempre tivemos, verdade seja dita) e essa mecânica irá manter-se, senão acentuar-se.

* Romancista e argumentista de Mucha
e do álbum É de noite que faço as perguntas

18/06/2010

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito a Pepedelrey*


- A edição é para ti um projecto pessoal ou surge para suprir uma falta (por parte das “grandes” editoras)?
Pepedelrey - São, talvez, dois dos motivos válidos para ter decidido a criar a El Pep. Creio que a criação de um registo editorial é um passo natural depois de anos envolvido na edição de fanzines. O espírito do it yourself continua na base de todas as decisões editoriais. A El Pep não existe para suprir a inexistência de grandes editoras de BD em Portugal. Afinal, não existem em Portugal verdadeiras casas editoriais de BD. A existência de micro estruturas editoriais, a editar BD em Portugal, compensa essa inexistência. Felizmente que estamos a assistir à criação de algumas dessas micro estruturas editoriais. Todas elas passam pelo espírito da auto-edição. Ou quase todas. Portugal continua a não ter um mercado, uma indústria de BD, apesar de existirem diversos autores e de grande qualidade e de existirem consumidores. Continua a falhar a existência de verdadeiras casas editoriais e distribuidores/lojistas.

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições (como as tuas)?
Pepedelrey - Depende da vontade e do trabalho feito por essas micro estruturas. Sei que algumas conseguem ter alguma visibilidade, dentro da pequenez de mercado livreiro nacional. A El Pep tem tido mais visibilidade fora da fronteira nacional, com a presença em certames internacionais como Angoulême. Os livros editados tem sido vendidos em diversos países, dentro e fora da união europeia.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
Pepedelrey - Lamento mas não tenho uma visão nacionalista da BD. Em Portugal existem grandes autores, sejam desenhadores, argumentistas ou arte finalistas. O mercado nacional não existe e como tal, o que não existe não tem futuro. Acredito que actualmente estamos a assistir ao nascimento de uma plataforma editorial e de negócio de BD, apesar de micro estruturas, que no futuro vai se transformar num verdadeiro mercado de BD. Como é claro, não estou a referir-me às vendas de BD pelos lojistas. Porque os lojistas vendem BD mas não a nacional. Com diversas argumentações ridículas como aquela de que o consumidor não está interessado. Acredito que a produção de BD em Portugal está a aumentar em quantidade e qualidade e que ainda estamos a dar os primeiros passos.

- Gostava também que explicasses brevemente o propósito e os objectivos do TLS Mag.
Pepedelrey - O The Lisbon Studio MAG#1 é uma co-edição do The Lisbon Studio e da El Pep. A revista vai ser editada de 6 em 6 meses. A revista nasceu da vontade dos membros do The Lisbon Studio editarem um Art Book como portfólio do estúdio. Após as diversas reuniões de estúdio, decidimos que com a frenética produção nas áreas da BD, Ilustração, Fotografia, Arquitectura, Design e outras mais, justificava-se a edição de uma revista com a periodicidade de 6 meses, escoando assim muito trabalho produzido e que iria ser guardado para memória futura. Não é objectivo do estúdio colmatar a falta de revistas de BD no mercado.
* Editor da El Pep

17/06/2010

BD nacional cresce à margem das grandes editoras – Inquérito a Paulo Monteiro*

- Qual o objectivo das vossas edições?
Paulo Monteiro -
Com a edição do Venham +5 temos essencialmente dois objectivos: por um lado divulgar o trabalho dos autores, dentro das limitações impostas por este tipo de publicações ao nível da divulgação e da distribuição; por outro, incentivar a própria produção artística, já que a publicação, para os autores, é sempre essencial e motiva sempre novos projectos. A edição constitui, em si mesmo, um incentivo à produção. E isso é muito importante...

- Até onde conseguem chegar/que visibilidade têm estas edições?
Paulo Monteiro -
Têm grande visibilidade dentro do meio ligado à banda desenhada: autores, críticos, pequenos editores, etc. (basta consultar os blogs e sites da especialidade, para termos essa noção). Fora deste nicho, acho que a visibilidade é muito reduzida, ou quase nula. Aliás, isto não se passa apenas com as pequenas edições ou com a edição de fanzines. Passa-se a uma escala mais alargada, mesmo com as grandes casas editoras. A banda desenhada não abre os noticiários nem é primeira página de jornal, salvo em raras ocasiões (não obstante o esforço levado a cabo por muitos jornalistas). As redacções raramente destacam a banda desenhada. Basicamente: a banda desenhada constitui um nicho de leitores. Como constitui um nicho não tem visibilidade. Como não tem visibilidade não "merece" destaque. É um círculo vicioso que vamos tentando anular (instituições ligadas à banda desenhada, autores, jornalistas, etc.). Mas nem sempre é fácil contrariar esta situação.

- Nestes moldes, que futuro antevês para a BD nacional?
Paulo Monteiro -
Se nos quisermos circunscrever a um pequeno nicho (como sucede, de certa forma, com a poesia ou com o cinema de animação), antevejo um futuro relativamente tristonho. Faltam-nos leitores... (Teremos que os ir buscar a outros sítios, nomeadamente à literatura).
Ao nível artístico, que considero verdadeiramente surpreendente na banda desenhada portuguesa (há de tudo para todos os gostos), acredito que os autores continuem a criar obras absolutamente excepcionais, como sucede de quando em quando. Todos os anos surgem novos projectos. Mas falta-nos estratégia. Falta-nos agregar gente à volta da banda desenhada. Há muitas ideias, muitas intenções, mas uma falta de visão estratégica que só se resolve juntando autores, críticos e editores para estabelecer um plano de divulgação e leitura.

*Director do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja e editor do Venham +5 e da colecção Toupeira

16/06/2010

Al Williamson (1931-2010)

Al Williamson, um dos grandes nomes dos comics das últimas cinco décadas, faleceu aos 79 anos. Dele, os leitores do Jornal de Notícias e/ou do Mundo de Aventuras recordarão certamente o traço fino, elegante e dinâmico com que desenhou o Agente Secreto X-9. A sua visão de Philip Corrigan, agente do FBI e – no seu “consulado”, que durou entre 1967 e 1980, com Archie Godwin nos argumentos – também agente espacio-temporal, protagonista de várias aventuras de temática fantástica, fica como um dos marcos de uma carreira notável, onde se destaca também a sua versão de Flash Gordon, caracterizada por paisagens exóticas e mulheres sensuais, que lhe valeu o prémio da National Cartoonist Society para melhor desenhador, em 1967.Nascido a 2 de Março de 1931, em Nova Iorque, encetou uma carreira profissional aos 17 anos, após frequentar um curso de desenho na Cartoonists and Illustrators School, leccionado por Burne Hogarth, de quem se tornou assistente em Tarzan. Westerns, terror, guerra e ficção-científica foram alguns dos géneros que experimentou durante a década de 50, muitas vezes ao lado de nomes como Frank Frazzeta, Wally Wood, Reed Crandall, Roy Krenkel ou Jack Kirby. Em 1961 John Prentice convidou-o para o assistir em Rip Kirby.
Após deixar X-9, Williamson, foi convidado por George Lucas para desenhar a adaptação em BD de O Império Contra-Ataca, assumindo depois as tiras diárias e dominicais de Star Wars, entre 1981 e 1984.As adaptações de filmes como Flash Gordon, Blade Runner ou O Regresso de Jedi foram alguns dos seus trabalhos nos anos 80 e 90, em que também trabalhou para a Marvel, como arte-finalista de John Romita Jr. (em Daredevil), Gene Colan, John Buscema, Rick Leonardi, Pat Oliffe, Mike Mignola ou Lee Weeks.
Em 2000 Williamson foi justamente distinguido com o Eisner Hall of Fame, por uma longa carreira de mais de 50 anos, que só a doença de Alzheimer interrompeu, e durante a qual conquistou inúmeros prémios como desenhador.

(Versão alargada do texto publicado no Jornal de Notícias de 16 de Junho de 2010)

As Viagens de Loïs – Portugal

Luís Diferr (texto e ilustrações)
ASA (Portugal, Junho de 2010)
225 x 302 mm, 56 p., cor, cartonado


Hoje, às 18h30, é apresentado em Lisboa, no Palácio Beau Séjour – Gabinete de Estudos Olisiponenses, este álbum ilustrado, cuja versão nacional já está disponível nas livrarias, cerca de um mês após o lançamento da versão original francesa da Casterman.
Terceiro tomo das viagens de Loïs – mas o único até à data lançado em Portugal – constitui um retrato escrito e desenhado do Portugal dos séculos XVII e XVIII, feito por Luís Filipe Diferr, nascido em Angola em 1956, diplomado em arquitectura, professor de desenho e autor de bandas desenhadas como “As aventuras de Herb Krox” ou “Dakar o Minossauro”.
Na base desta colecção, imaginada pelo criador da série Alix, Jacques Martin - que apenas assina o prefácio, apesar do seu nome constar igualmente da capa - está a exploração dos ambientes mágicos e faustosos das mais poderosas nações do mundo, sendo este volume sobre a capital lusa e a cidade do Porto.
Nascido em 2002, aquando da passagem de Martin pelo Festival de BD da Amadora, o presente volume levou 6 anos a concretizar, mas apresenta como resultado uma conjunto de belas ilustrações, nas quais se reconhece um trabalho aturado de investigação cuidada e minuciosa ao nível da arquitectura, vestuário, veículos e utensílios da época e um grande rigor na sua recriação gráfica, ao nível daquela que era uma das imagens de marca de Martin.

15/06/2010

Crepúsculo – A novela Gráfica – Volume I

Stephenie Meyer (argumento)
Young Kim (adaptação e desenho)
Gailivro (Portugal, Abril de 2010)
152 x 235, 244 p., pb e cor, brochado com badanas


Êxito sob a forma de romance e também no cinema, a saga da luz e escuridão iniciada com Crepúsculo, chega agora também à banda desenhada, compreensivelmente em estilo manga, aquele que mais apela aos seus jovens fãs.
Mas esta adaptação traz consigo alguns motivos de surpresa. Desde logo, por ter demorado tanto a surgir, face ao êxito da saga. Depois, por não ser, como tantas vezes acontece, uma simples adaptação do filme. O que possibilitou, possivelmente, que se trate de uma obra completa em si mesma – qualidade frequentemente ausente nesse tipo de adaptações - que dispensa o conhecimento prévio do romance (ou da versão cinematográfica). A isso, não será estranha a cuidada supervisão exercida por Stephenie Meyer, a autora original, neste aspecto e também ao nível dos diálogos.
O que nos leva à terceira surpresa: descobrir que o homem por detrás deste livro, o coreano Young Kim, não tinha experiência em banda desenhada antes de a executar. Porque esse aspecto não é notório ao longo da leitura, com a narrativa a levar-nos aos poucos para o mundo de Isabella Swan, recém-chegada a Forks, onde acabará apaixonada pelo enigmático Edward Cullen, atracção que se manterá mesmo depois de saber que ele é um vampiro. Os problemas de adaptação de Bella à sua cidade natal de onde esteve afastada alguns anos, a estranheza face ao comportamento de Edward ou a hostilidade latente em Forks em relação aos Cullen, são-nos apresentados progressivamente neste primeiro volume de Crepúsculo, de forma consistente e sustentada, num relato que se vai adensando ao correr das páginas, que se destaca também pelo uso contido de texto escrito.
Já a nível gráfico, detectam-se algumas oscilações no traço, com Kim a revelar algumas insuficiências, nomeadamente ao nível da transmissão de movimento e da expressividade dos rostos, por vezes demasiado parecidos, o que nem sempre é compensado pela diversidade da planificação, pelo bom uso (pontual) da cor ou de referências fotográficas ou pelo curioso recurso a balões “transparentes”.
Se à tradução nacional há que apontar alguns deslizes, sempre lamentáveis, é incompreensível a utilização de uma legendagem mecânica, hoje em dia algo completamente obsoleto e em desuso, o que diminui a beleza plástica das pranchas, mas essa é uma herança incontornável da versão original…

11/06/2010

Aqueles que te amam

Étienne Davodeau (argumento e desenho)
MaisBD (Portugal, Outubro de 2002)
230 x 320 mm, 48 p., cor, cartonado

Resumo
“Aqueles que te amam” começa nos últimos momentos da grande final europeia em que se enfrentam franceses e italianos. O empate, a manter-se, assegura a vitória dos primeiros. Jogam-se os últimos segundos da partida e Renaud Landy, o guarda-redes dos franceses do F.C.E., prepara-se para bater o último pontapé de baliza. Faz um compasso de espera, dá alguns passos para a bola, pára e, de repente, golpe de teatro! Chuta para a própria baliza, dando a vitória à equipa italiana.

Desenvolvimento
“Porquê?”, interrogam-se todos. Para conhecer a resposta, é preciso recuar alguns dias, quando Titou, a estrela da equipa francesa, após muita insistência, acede a participar no jantar de aniversário de Adrien, um seu fã indefectível, que está às portas da morte. Só que, o que parecia ser um relaxante jantar, é perturbado pela aparição de Pascal, um amigo de Adrien, recentemente despedido pela empresa que patrocina Titou, e que está decidido a receber “a sua parte” da fama do jogador, nem que para isso tenha que o raptar.
Ao mesmo tempo, em casa dos Bertin, estala uma tempestade entre pai e filho, ambos apostados em assistir à grande final, mas com a relação a ser perturbada pelas sucessivas negativas escolares do filho.
Estes são os pontos de partida de “Aqueles que te amam”, cujo relato se vai desenvolvendo num crescendo, narrando em paralelo as duas situações, que se vão tornando cada vez mais rocambolescas, até se cruzarem num final inesperado e caótico.
Neste álbum, já quase com uma década, Étienne Davodeau faz um retrato distorcido – embora não tanto como parece - de uma realidade a que todos assistimos no nosso dia a dia, por onde perpassavam nomes como Figo, Zidane, Khan, Raúl ou Ronaldo (o brasileiro), hoje substituídos por outro Ronaldo, o Cristiano, Kaká, Ribery ou Di Maria, que todos identificámos imediatamente como talentosos futebolistas. Mas o que são eles? Ídolos ou meras mercadorias, das quais cada um – fans, famílias, dirigentes desportivos, políticos, imprensa, eles próprios – tenta tirar o máximo proveito possível, enquanto dá, esquecendo que, antes de tudo, são seres humanos.
É a esta reflexão que Étienne Davodeau nos convida em “Aqueles que te amam”, um olhar atento, sério e preocupado sobre este “mundo tão tranquilo” em que nós vivemos.

Curiosidade
- O “mundo tão tranquilo” referido no final do texto era o título da colecção em que este one-shot estava inserido em França, e que incluía também os títulos (não traduzidos em português mas igualmente muito recomendáveis) “La Gloire D’Albert” e “Anticyclone”.

(Versão revista e actualizada do texto escrito para a nota de imprensa de apresentação deste álbum, em 2002)
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