02/02/2016

Tex em Cores #24 e #25




O (re)encontro com (o verdadeiro) Mefisto na narrativa principal que ocupa boa parte destes dois volumes, é, provavelmente, uma das histórias mais marcantes na – longa – vida aventurosa do ranger. Por várias razões.

Desde logo, porque introduzia na série, melhor, reaproveitava, uma personagem com quem Tex se tinha cruzado uma vez, transformando-a no verdadeiro contraponto do ranger. Usado com (inteligente) parcimónia ao longo das quase sete décadas que Tex já conta, Mefisto fica mesmo assim como o seu grande inimigo, como a sua besta negra, como aquele que por mais derrotado que pareça há-de regressar sempre um dia para atormentar o caminho do herói, pessoalmente ou por interposta pessoa.
Considerado mesmo por alguns o retrato em negativo do herói, o ilusionista original (visto em Tex em Cores #7) surge aqui com poderes renovados e aumentados, mais próximos da feitiçaria, introduzindo uma nota peculiar - e fantástica – bem explorada nesta e em narrativas futuras.
Acredito que ao escrever esta história – possivelmente criada ao correr das semanas, sem guião prévio, como era então norma, Gianluigi Bonelli estava longe de imaginar a importância do vilão que esteva a desenvolver e que a ele voltaria outras vezes.
Mesmo assim – por isso? – esta trama, que tem como ponto de partida o desejo obsessivo de vingança de Mefisto em relação a Tex e aos seus companheiros, apresenta algumas notas distintas em relação ao que era habitual na escrita de Bonelli.
A primeira, desde logo, relaciona-se com a introdução do já referido tom fantástico – em Tex geralmente associado a previsões de feiticeiros índios – mais a mais por parte de uma personagem branca, que se apresenta com poderes paranormais, como a capacidade de projectar o espírito no espaço para vigiar ou atormentar os seus inimigos ou o controle da personalidade através do hipnotismo, sendo mesmo capaz de obrigar os que domina desta forma a contrariarem a sua forma de ser.
Depois, há o referido recurso a um vilão (pouco) recorrente.
O tom de mistério e suspense introduzido, é outra nota pouco comum na estrutura habitual deste western – antes e depois deste confronto – e para isso pesa bastante a forma como Bonelli mantém oculta dos leitores a identidade do novo(/velho) inimigo de Tex durante mais de 50 páginas (cinco dos livrinhos de 32 tiras em que a história foi originalmente publicada) - e demorará mesmo mais algumas páginas até o protagonista descobrir quem enfrenta.
Por isso – e pela forma como o bruxo, ao longo de quase toda a trama, parece sempre mover os cordelinhos, manobrando à distância os oponentes, conduzindo-os a seu bel-prazer e parecendo a caminho de uma vitória - pessoal e do mal que representa e encarna - de todo inimaginável em Tex, não custa elegê-lo como o verdadeiro protagonista desta narrativa, relegando mesmo o ranger para um (raro) segundo plano.
Curiosamente – e reforçando esta ideia – durante as quase duas centenas de páginas que ela abarca, Tex nunca chega a estar – em carne e osso… - face a face com o seu adversário e acaba mesmo por não ter influência directa no – apesar de tudo esperado – desfecho.

Uma nota final para referir que Tex contra Mefisto, o título global dado a esta narrativa, foi a primeira aventura do ranger publicada em Portugal – em 2005, na colecção Série Ouro – Os Clássicos da Banda Desenhada, do jornal Correio da Manhã – como é destacado por Júlio Schneider na introdução, sendo por isso uma edição bastante cobiçada pelos muitos fãs do ranger. Aliás, Tex só voltaria em português uma década depois – no ano passado - com o magnífico Patagónia, numa edição da Polvo que ainda se encontra à venda com facilidade.

Tex Edição em Cores
#24 – O Diabólico Mefisto
#25 – O Homem da Caveira
Gianluigi Bonelli (argumento)
Aurelio Galleppini (desenho)
Mythos Editora
Brasil, 2015
160 x 210 mm, 252 p., cor, capa mole
R$ 34,90 / 17,00 €

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