09/01/2026

Les Tuniques Bleues 65 - L'envoyée spécial

Mudança… temporária



Os Túnicas Azuis (Les Tuniques Bleues), com presença regular aqui no blog, são uma daquelas séries aparentemente intermináveis mas que conseguem manter uma qualidade média muito assinalável. Para além disso, apesar do seu inegável registo histórico, constroem sucessivas pontes com a actualidade o que acaba por a distinguir de outras que lhe poderiam ser equiparáveis.

Sem diminuir a importância gráfica de Salverius, primeiro, e de Lambil, depois, na sua consolidação ao longo de décadas, a verdade é que grande parte desse sucesso se deve à qualidade da escrita de Cauvin. Por isso, o anúncio da sua retirada, pouco tempo antes do seu falecimento, deixou os fãs - e a editora... - apreensivos. 

Este tomo 65, curiosamente publicado antes do 64, último assinado por Cauvin, em que Lambil ainda trabalhava na altura, poderia indicar um caminho para a série: algo como Les Tuniques Bleues de autor. A exemplo do que já sucedia com Spirou, para citar apenas uma série da mesma editora.

Escrevi 'poderia', porque L'envoyée spécial não passou de uma exceção a uma regra que passou pela continuidade de Lambil no desenho, embora acompanhado por outros argumentistas.

Aqui, o argumento, partilhado entre Beka e José-Luis Munuera - um autor ajustificar acompanhamento de perto que, felizmente, a Arte de Autor tem permitido fazer em português - aproveita a presença nos EUA do jornalista britânico William Howard Russell (1820-1907), considerado o primeiro correspondente de guerra da História, para destacar a importância daqueles que, em zonas de conflito, tentam levar até aos leitores (ou espectadores) o que está a acontecer no terreno. No caso, com a vantagem de Russell optar por uma visão independente e rigorosa que, realça, expõe e faz entrar pelos olhos dentro os horrores da guerra, sem olhar a cores, ideologias ou lados.

Esse posicionamento, leva-o a ser um alvo preferencial tanto para os nortistas, que primeiro o acolheram em busca de justificação para os seus actos, como para os sulistas, acabando por levar a uma cínica aliança entre os opositores em contenda, com o propósito de 'assustar' o jornalista e reenviá-lo para o seu país natal.

A par disto e do habitual confronto de ideias entre Blutch e Chesterfield sobre a guerra e os seus horrores ou ideais, L'envoyée spécial apresenta ainda uma série de outros temas subjacentes que justificam e pedem uma leitura atenta e uma reflexão séria sem que, de alguma forma, o humor que é uma das imagens da marca da série, seja alguma vez posto em causa ou reduzido a posição de menor destaque.

Munuera, sem descaracterizar o traço original de Lambil, imprime-lhe a sua marca pessoal, com persoagens mais esguias e dinâmicas e uma planificação menos presa a uma grelha fixa, conseguindo dessa forma dar mais leveza e ritmo ao relato, que é antecedido por uma entrevista com os autores sobre a sua génese.


Les Tuniques Bleues 65 - L'envoyée spécial
Beka e Jose-Luis Munuera (argumento)
Jose-Luis Munuera (desenho)
Dupuis
Belgica, Outubro de 2020
218 x 300 mm, 56 p., cor, capa dura
12,95

(imagens disponibilizadas pela Dupuis; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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