Série
emblemática dos anos 80 e 90, quando a BD espanhola dava cartas e
seduzia os leitores europeus, O
Mercenário
não deixou ninguém indiferente aquando da sua publicação. Criação
do espanhol Vicent Segrelles, passou pelo catálogo da
Meribérica/Líber na época e está agora, finalmente, editada em
português na sua totalidade pela Ala dos Livros.
No
meu tempo, era assim que as amizades começavam: chegava-se à beira
de alguém e perguntava-se: “Tu queres ser meu amigo?”. Depois,
crescemos, os tempos mudaram e as amizades definem-se de outra forma
- para o bem e o mal. Que o diga Rafael, acordado pelo toque do
telemóvel às 3 da manhã.
As
gerações portuguesas dos leitores de BD dos anos 1980 e 1990 foram
especialmente marcadas pelos super-heróis, lidos nas pequenas
revistas brasileiras que chegavam (ir)regularmente aos quiosques
nacionais. As
cronologias cada vez mais complicadas e ramificadas das histórias da
DC Comics e da Marvel, com sucessivas mortes e ressurreições e
múltiplos universos, levaram muitos deles a afastar-se - e ao mesmo
tempo impediram a aproximação daqueles que se sentiam atraídos
através das versões animadas ou com actores reais.
Se
há algo que se pode apontar à banda desenhada nos últimos anos -
na verdade já algumas décadas, mas de forma mais vincada em tempos
recentes, em especial no nosso mercado - é um ganho de consciência
social.
E
já está. Depois do diálogo originado pela meu texto sobre Tex
655/20 - A cavalgada do destino, lá
fui à procura de Jonah Hex, um western
que era uma lacuna nas minhas
leituras de um género que aprecio bastante, como bem sabem os que me
seguem por aqui. Não
sei se foi a melhor porta de entrada - mas foi uma das edições que
me foi sugerida e a verdade é que gostei bastante de Le colt de
la vengeance.
Há
obras intemporais, que a cada releitura revelam novos aspectos,
enquanto, em simultâneo, mantêm a actualidade e a frescura de
quando foram criadas. É o caso de O grande
poder do Chninkel, publicada originalmente na revista (À
Suivre), em 1988, o que permitiu libertar-se do espartilho das 48
páginas do formato tradicional franco-belga e ser um romance gráfico
antes do tempo, que a Arte de Autor finalmente edita em português no
preto e branco em que foi concebida por Jean Van Hamme e Grzegorz
Rosinski, os autores de Thorgal.
Tenho
lido (ir)regularmente
os livros da colecção BDPALOP - e ainda tenho alguns por ler - mas
até ao momento este foi o que me pareceu
mais consistente.
Giovanni
Drogo é um jovem oficial, apostado em seguir a carreira militar e
cobrir-se de glória no campo de batalha, mas as suas aspirações
parecem coartadas quando é colocado na inóspita
Fortaleza Bastiani. Entusiasmado de início, pela proximidade da
fronteira com um reino inimigo, sente-se rapidamente desiludido pela
degradação do fortim e pela incúria e falta de disciplina e de
postura de soldados e oficiais lá colocados, surgindo um pedido de
transferência urgente como a solução.
No glorioso tempo das revistas de banda desenhada, em que os autores se conheciam bem e se encontravam regularmente, acontecia que também por vezes as suas personagens se cruzavam nas páginas desenhadas.
Continuando
a ressuscitar - mais figurada que literalmente - personagens
marcantes da longa cronologia das aventuras de Tex Willer, Mauro
Boselli desta vez leva-nos de novo ao encontro do Tigre Negro, aqui
na sua quarta aparição na série, algo que poucos - ou mais nenhum?
- dos adversários de Tex se podem gabar, com excepção talvez de
Mefisto.
Não
sei se Chabouté conhece - mas duvido… - o célebre slogan
acima, criado pelo Turismo de Portugal já lá vão mais de 30
anos, mas Partir, ficando é a sua ilustração perfeita,
levando o conceito a um minimalismo que pode ser considerado absurdo
mas que deverá servir para que - literalmente - abramos os olhos.
“Para
ser franca, o único adjectivo que lhe assenta como uma luva é
‘estranho’.
Ou,
quando muito, ‘indescritível’”
In
O Sétimo Homem e outros contos
Embora
a frase acima seja aplicada a uma personagem e não aos contos que
compõem este livro, a verdade é que se ajusta
bastante bem ao conteúdo do global da obra.
Último
tomo da trilogia (em quatro volumes, com quatro desenhadores diferentes) Co.Br.A.,
Porto,
que a Ala dos Livros lançou recentemente, tem como palco da acção
a cidade invicta, no início da década de 1980, e como protagonistas
algumas das suas gentes, num retrato que hoje, à distancia, nos
surge como desvanecido e até quase inacreditável.
Trajectórias
humanas que me parecem dignas de serem contadas.”
Étienne
Davodeau In Là où tu vas
(tradução
livre de As Leituras do Pedro)
E
é isto que Davodeau tem feito ao longo de uma carreira recheada de
obras notáveis que falam do nosso tempo, de pessoas como todos nós,
de situações anónimas ou comezinhas que afetam - de sobremaneira…
- quem as vive ou com quem eles contactam.
Terminado
- para Portugal - o Mundial, surge a altura de me ocupar de uma obra
que evoca um outro Mundial, o de 1966, de boa memória. Lançado
em Abril, Magriços
tem assinatura de Vascio Parracho, no que ao grafismo diz respeito, e
de António Simões - esse mesmo, um dos magriços de 1966 - no que
diz respeito, se não ao argumento, pelo menos às memórias e aos
textos.
Descoberta
e lida irregularmente ao longo de anos nas páginas da Méga Spirou, a série Dad, a princípio pouco mais fazia do que
provocar um ou outro pequeno sorriso mas, aos poucos, foi-se tornando
numa das minhas preferidas entre as muitas (e algumas muito boas)
propostas que a Dupuis tem no seu catálogo de humor e na revista
Spirou onde realiza a sua pré-publicação.
O
amarelo como símbolo de qualquer côr de que gostamos e nos traz saudades
O
livro é estranho: a capa muito grossa, a lombada em bruto, inacabada
- que mal vai ficar na estante... É
a Solidão
do Ser, que
marca a estreia de Helena Sá, contemplada com o prémio Autora
Revelação do Maia BD 2026, no ano zero desta distinção, que se
concretizará sempre no apoio à edição de uma obra.
Perante
a sua incapacidade de roubar do galinheiro galinhas já criadas,a
Raposa Malvada, a conselho do Lobo, parte interessada no
acontecimento, decide roubar uns ovos e esperar que os pintainhos
nasçam, para depois os assustar e finalmente comer.
Parece
(quase) a pedido: depois do que eu escrevi como intróito a propósito
de A Fuga, a
verdade é que nessa últimas semanas se têm multiplicado as obras
de autores portugueses que de algum modo abordam quer o tempo da
ditadura, quer a guerra colonial, quer os anos que se seguiram à
Revolução dos Cravos.
Poucos
dias antes da estreia do filme, [no
passado dia 25 de Junho],
a Devir disponibilizou Supergirl
- Mulher do futuro,
o romance gráfico que serviu de base à película de Craig
Gillespie, que tem argumento de Tom King, um dos mais aclamados
escritores de super-heróis da actualidade.
Sim,
eu sei, já o escrevi algumas vezes, mas as surpresasque
a leitura me continua a proporcionar cada vez me fazem gostar mais de
ler. A mais recente - pelo menos em
termos de escrita, aqui - é este Camões (Re)visitado, cuja
edição passou despercebida.
Prémio Nacional de Banda Desenhada distingue carreira de António Jorge
Gonçalves Prémio
atribuído pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das
Bibliotecas distinguiu 'Dormindo entre Cadáveres' como Obra do Ano e
'Rumo ao Eclipse' venceu na categoria Inovação.
Sherlock
Holmes, criado por Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), fez a sua
estreia em 1887. Arsène Lupin, imaginado por Maurice Leblanc
(1864-1941), foi publicado pela primeira vez em 1905. A unir estes
dois heróis da literatura popular estão a imaginação, a
capacidade de se disfarçarem e
assumirem outras personagens e
um certo código de conduta, com mais semelhanças do que diferenças;
a separá-los, o facto de estarem em lados opostos da lei: Holmes
desvenda crimes, Lupin comete roubos julgados impossíveis.
Há textos que têm todas as
justificações para serem escritos, sendo das mais simples de todas
deixar informação para registo futuro e chamar a atenção aos mais
distraídos. É o caso deste que vos trago
hoje.
Todos
temos um filme de Spielberg preferido, todos temos filmes de
Spielberg entre os nossos preferidos, muito
possivelmente um deles pode ser - foi, sem dúvida, a determinada
altura - o ‘filme da nossa vida’, portanto, na actual moda de
biografar a torto e a direito e em todas as direcções - com tudo o
que o ‘género’ tem de bom e de mau e os excessos potenciam -
nada mais natural do que contar a vida do realizador em banda
desenhada.
Talvez
não seja demasiado arriscado afirmar que esta era a Graphic MSP
que faltava. Porque não é protagonizada por nenhuma das muitas
personagens que Maurício de Sousa criou, mas porque é o próprio
autor que se transforma em protagonista.
Nome em destaque nos últimos quase 40 anos, Nuno Saraiva tem dividido a
sua actividade artística entre a ilustração, a banda desenhada e
aquilo a que se poderia chamar a pintura social, com a realização
de inúmeros murais pela sua Lisboa que, na verdade, é protagonista
de quase toda a sua obra.
Ainda
há escassas semanas referia a pouca apetência da BD nacional pelas
temáticas relacionadas com a ditadura e o 25 de Abril e eis que,
após A Fuga,
de Paulo Caetano e Jorge Mateus, chega às livrarias Um quadrado de
céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso, numa edição de Os
Livros de Oeiras.
Portugal tem hoje em dia uma série de eventos - festivais, salões, mostras… - dedicados à BD. Importantes para todos: para os leitores, por poderem conhecer os seus autores preferidos, ver os seus originais e descobrir novas propostas; para os autores, pelo contacto directo com aqueles para quem escrevem e/ou desenham; para os editores, porque são momentos significativos de venda (directa) das suas edições.
Apesar de pontos em comum, cada um desses eventos tem públicos-alvo diferentes, características diferentes, propostas diferentes…