Consciência social
Se há algo que se pode apontar à banda desenhada nos últimos anos - na verdade já algumas décadas, mas de forma mais vincada em tempos recentes, em especial no nosso mercado - é um ganho de consciência social.
Vão longe as suas origens, quando a BD se dividia maioritariamente - e quase só - em dois géneros: o humor e a aventura, embora este último abarcasse a aventura pura, o policial, depois a ficção científica, mais tarde também os super-heróis.
Esta consciência social, se me deixam designá-la assim, é aquela que - numa cronologia hiper-simplista - levou - marginalmente - Harvey Pekar ou Robert Crumb - a descreverem o seu quotidiano ou, (muitos) anos depois, Joe Sacco em reportagem à Palestina, Marjane Satrapi a falar da vida no seu Irão natal, Étienne Davodeau a partilhar experiências com um vinhateiro, ou todo um enorme leque de novelas - romances… - gráficos que nos dias de hoje representam uma boa fatia das edições de BD em Portugal - e não só.
Ganho de consciência social reflectido nas propostas para leitores mais maduros e/ou adultos, sim, mas também em edições para os mais novos, de que serão exemplos recentes A nossa voz! e Entre elas - ou, agora, este Frizzy - Solta os caracóis!
Edições todas elas para leitoras adolescentes/jovens, abordam temáticas diversas. E num tempo de diversidade cada vez maior, possivelmente é importante que toquem as questões que as preocupam. Em Frizzy..., o problema é o cabelo encaracolado das dominicanas nos EUA, alvos de troça e discriminação, motivadores de situações embaraçosas e conflitos geracionais. Estranho para quem está de fora - fundamental para quem os sofre na pele, melhor, no cabelo.
Razão e tradição vão opôr-se ao longo de mais de duas centenas de pranchas, num (des)equilíbio difícil, narrado com ponderação e de forma directa, numa linguagem adequada ao público-alvo e um grafismo agradável e dinâmico, com a (inevitável) função didáctica suficientemente discreta no meio de um relato em que as emoções são quase sempre preponderantes.
E se é verdade que esta temática não fará grande sentido no nosso meio social, o livro poderá sempre servir de ponto de partida para abordagem a questões - a diferenças, é disso que se trata… - que, essas sim, se podem tornar complicadas por cá.
Frizzy - Solta os caracóis!
Claribel A. Ortega (argumento)
Rose Bousamra (desenho)
Pauline Spiro
Fábula
Portugal, Junho de 2026
143 x 205 mm, 224 p., cor, capa mole com badanas
16,45 €
(imagens disponibilizadas pela Fábula; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)


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