Tu queres ser meu amigo?
No
meu tempo, era assim que as amizades começavam: chegava-se à beira
de alguém e perguntava-se: “Tu queres ser meu amigo?”.
Depois,
crescemos, os tempos mudaram e as amizades definem-se de outra forma
- para o bem e o mal. Que o diga Rafael, acordado pelo toque do
telemóvel às 3 da manhã.
Ensonado, descontente, deixa tocar. A insistência do telemóvel, a insistência de Helen que dormia ao seu lado - levam-no a atender. Do outro lado da linha, Léo pede ajuda. Está algures, a mais de 30 km, num sítio isolado, sozinho, com o carro avariado.
A cair de sono, furioso, Rafael desliga e mete-se na cama. Helen, também já desperta, pergunta o que se passa e obriga-o a ir ter com o amigo.
Descontente, Rafael mete-se no carro e quase uma hora depois chega ao descampado onde está Léo... rodeado de amigos, numa festa improvisada, com bebida à descrição!
Foi apenas uma partida, melhor, um teste, um desafio, uma prova à amizade, um modo de ver quantos amigos - verdadeiros amigos…? - seriam capazes de sair da cama e ir em sua ajuda.
No meio de um grande grupo, alegre, que dança e bebe o champanhe que Léo trouxe, Rafael é o único que acha completamente idiota aquela situação e está completamente contra colocar à prova a amizade daquela forma tão… parva!
Tão parva, na verdade que, uns dias depois, sozinho pois Helen saiu em trabalho, decide fazer o mesmo. O resultado?
Leiam L’invitation, mais uma bela reflexão de Jim - sim, eu sei, não consigo resistir-lhe - sobre as relações humanas, num argumento desafiador que põe em causa sentimentos, da amizade, acima de tudo, ao amor.
E se o início tem sabor a anedota, rapidamente o livro assume um tom mais sério - até porque Rafael percebe que nem tudo está bem com o amigo, tal como nem tudo está bem com ele e Helen. E depois, com a habitual mestria e o traço semi-caricatural de Mermoux, servido quase sempre por cores sombrias que contrariam a habitual luminosidade das obras de Jim, acentuando o tal tom mais grave, temos mais uma proposta de leitura que se vai desenvolver de forma terna e sensível mas também desafiadora, até um final que o resumo acima não permite prever, mas que nos questiona e nos obriga a repensar as nossas relações.
L’invitation
Jim
(argumento)
Mermoux
(desenho)
Vents
D’Ouest
França,
2010
215
x 293 mm, 160 p., cor, capa dura
17,50
€
(imagens disponibilizadas pela Vents d’Ouest; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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