08/01/2026

Como pedra

Nunca temos mal que chegue


Apesar da aclamada proximidade e afinidade culturais, a banda desenhada brasileira continua quase desconhecida entre nós. A Turma da Mônica, há décadas distribuída em Portugal nas edições originais, é a exceção que, honrosamente, a editora Polvo tem tentado contrariar através da sua colecção Romance Gráfico Brasileiro. O título mais recente, o 35.º do rol, é Como pedra, de Lucas Iohanathan, distinguido com o prestigiado prémio Jabuti, em 2023.

A edição portuguesa foi disponibilizada com duas capas diferentes.

A sua história está ambientada no nordeste do Brasil, no Sertão profundamente afectado pela miséria e pela pobreza, agravadas por uma seca contínua cuja contabilidade vai avançando inexoravelmente ao longo deste romance gráfico, ultrapassando rapidamente um ano e mais, e centra-se num casal, Cristo e a mulher, e na sua filha, Rosa, presa desde sempre a uma cadeira de rodas, por uma doença que a priva de se mover e falar, quase como um vegetal, sem qualquer reação. 

Um peso mais, numa vida já de si plena de agruras, cuja essência, a ignorância, o medo e a necessidade de explicações, a par da inexistência das posses necessárias para recorrer a ajuda médica, levam a procurar respostas no inexplicável, inevitavelmente na religião. Na religião, na relação com Deus ou na forma como cada um a encara, na fé ou na sua aparente falta, uns buscando na sua condição de pecadores a razão para a tragédia que representam diariamente num palco vazio e sem espectadores, outros apontando facilmente o dedo para justificarem sacrifícios e obrigações que nunca lhes cabem a eles.

Entre o amor de uma mãe, disposta a tudo, balançando entre a vã esperança de um dia arrancar um sorriso à filha ou o desespero mais profundo que leva a entregar tudo nas mãos da crendice, do fanatismo e da facilidade da acusação alheia, Lucas Iohanathan constrói uma narrativa dura, assente em tons laranja que acentuam a aridez dos cenários em que ela decorre, e num relato muitas vezes mudo, cuja ausência de palavras apenas acentua a sua violência intrínseca.

O final, aparentemente feliz, não passa na verdade do reforçar do tom trágico que perpassa por todas as páginas de Como pedra, e faz pensar que nunca temos mal que chegue.


Como pedra
Lucas Iohanathan
Polvo
Portugal, Outubro de 2025
165 x 230 mm, 200 p., pb+laranja, capa mole com badanas
22,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias a 26 de Dezembro de 2025 e na versão em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Polvo; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

2 comentários:

  1. E o novo livro deste autor ("Ouroboros") também está a ser considerado por muita gente lá no Brasil com um dos melhores do ano nas leituras deles. Espero que saia cá

    ResponderEliminar
  2. Esperemos que sim.
    Boas leituras!

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...