Nunca temos mal que chegue
Apesar da aclamada proximidade e afinidade culturais, a banda desenhada brasileira continua quase desconhecida entre nós. A Turma da Mônica, há décadas distribuída em Portugal nas edições originais, é a exceção que, honrosamente, a editora Polvo tem tentado contrariar através da sua colecção Romance Gráfico Brasileiro. O título mais recente, o 35.º do rol, é Como pedra, de Lucas Iohanathan, distinguido com o prestigiado prémio Jabuti, em 2023.
A edição portuguesa foi disponibilizada com duas capas diferentes.
A sua história está ambientada no nordeste do Brasil, no Sertão profundamente afectado pela miséria e pela pobreza, agravadas por uma seca contínua cuja contabilidade vai avançando inexoravelmente ao longo deste romance gráfico, ultrapassando rapidamente um ano e mais, e centra-se num casal, Cristo e a mulher, e na sua filha, Rosa, presa desde sempre a uma cadeira de rodas, por uma doença que a priva de se mover e falar, quase como um vegetal, sem qualquer reação.
Um peso mais, numa vida já de si plena de agruras, cuja essência, a ignorância, o medo e a necessidade de explicações, a par da inexistência das posses necessárias para recorrer a ajuda médica, levam a procurar respostas no inexplicável, inevitavelmente na religião. Na religião, na relação com Deus ou na forma como cada um a encara, na fé ou na sua aparente falta, uns buscando na sua condição de pecadores a razão para a tragédia que representam diariamente num palco vazio e sem espectadores, outros apontando facilmente o dedo para justificarem sacrifícios e obrigações que nunca lhes cabem a eles.
Entre o amor de uma mãe, disposta a tudo, balançando entre a vã esperança de um dia arrancar um sorriso à filha ou o desespero mais profundo que leva a entregar tudo nas mãos da crendice, do fanatismo e da facilidade da acusação alheia, Lucas Iohanathan constrói uma narrativa dura, assente em tons laranja que acentuam a aridez dos cenários em que ela decorre, e num relato muitas vezes mudo, cuja ausência de palavras apenas acentua a sua violência intrínseca.
O final, aparentemente feliz, não passa na verdade do reforçar do tom trágico que perpassa por todas as páginas de Como pedra, e faz pensar que nunca temos mal que chegue.
Como
pedra
Lucas
Iohanathan
Polvo
Portugal,
Outubro de 2025
165
x 230 mm, 200
p., pb+laranja,
capa mole com badanas
22,90
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias a 26 de Dezembro de 2025 e na versão em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Polvo; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



E o novo livro deste autor ("Ouroboros") também está a ser considerado por muita gente lá no Brasil com um dos melhores do ano nas leituras deles. Espero que saia cá
ResponderEliminarEsperemos que sim.
ResponderEliminarBoas leituras!