Por vezes há várias razões para escrever sobre um livro.
Este é um deles.
Um bom pretexto era considerar a primeira edição de BD da
Levoir fora das habituais colecções. Caso único, experiência ou título
inaugural, o futuro aferirá da importância desta edição – e da sua continuidade
ou não. Mas convém não esquecer que a Levoir é hoje, possivelmente, a principal
editora de BD em Portugal…
Outra hipótese era aflorar a questão ‘novela gráfica’. O
sucesso da colecção Levoir/Público, repetido na sua redistribuição (apesar do
agravamento dos preços) na FNAC, parece indicar que este é um caminho a trilhar.
Repetidamente. A associação deste livro àquela colecção, frisa-o. E, mais uma
vez, abre portas…
A utilização da banda desenhada para evocação de grandes
figuras, estando longe de ser uma novidade, pode sê-lo – mais entre nós –
quando essa banda desenhada sai dos cânones mais tradicionais, como é,
indubitavelmente, o caso.
E aqui, entramos – finalmente – na principal razão para este
texto: a obra em si.

Sampayo, com uma escrita cirúrgica mas divagante, pega em
pedaços dessa vida que nos apresenta como compondo uma manta de retalhos e, num
momento de inspiração especialmente feliz, relaciona-os com Alack Sinner –
personagem fetiche dele e de Muñoz – que aparentemente se cruzou várias vezes
com Billie.
O retrato que traça da diva, resulta perturbado e
perturbador, desfocado e incerto, mas, se num primeiro momento afasta, depois
atrai inexoravelmente para o abismo – e para o abismo gráfico narrativo de
Muñoz, traçado impressivamente, em pinceladas fortes, por vezes (quase)
realistas, outras mais próximas (quase) da abstracção.
Falta – no objecto livro, que não na narrativa que o seu
papel suporta, em que Sampayo e Muñoz sublinham musicalmente (…?) muitas das
passagens – a banda sonora para a qual, inevitavelmente, a leitura do livro
conduz.
Billie Holiday
Carlos Sampayo (texto)
José Muñoz (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 5 de Novembro de 2015
220 x 295 mm, 80 p., pb, capa dura
11,90 €
Não sendo de elástico duas coisas (dinheiro e espaço em casa), não sendo assunto do meu interesse (Jazz) e não tendo gostado do aspecto gráfico do livro em questão (gosto pessoal), este foi um dos que não adquiri.
ResponderEliminarEspero no entanto que seja um sucesso o suficiente para que a editora (Levoir) continue a apostar em editar BD 'não formatada' em Portugal.
pco69,
ResponderEliminarFelizmente de momento há tantas propostas de BD em Portugal que é necessário fazer escolhas.
Este Billie Holiday está longe de ser um álbum de leitura fácil e não é de certeza obra para agradar a todos. Mais, acredito que é daqueles livros que se amam ou odeiam!
Eu gostei! ;)
Boas leituras!