Selvagens somos nós, não os deuses
Esta
é uma daquelas histórias que, datada da ‘origem
dos tempos’,
é também uma história de todos os tempos. Uma história de
violência e fúria, de ódios ancestrais e vinganças servidas
frias, uma história de mortes em nome dos deuses.
Mesmo que, os
selvagens, não sejam eles, mas sim os homens que os criaram e/ou
acreditam neles e em seu nome perseguem, violentam, torturam e matam.
Mesmo que, os
selvagens, não sejam eles, mas sim os homens que os criaram e/ou
acreditam neles e em seu nome perseguem, violentam, torturam e matam.
Nos dias que correm, outra vez, estas palavras ecoam demasiado próximas, demasiado actuais, mas O Deus Selvagem, edição recente da Ala dos Livros, decorre numa era longínqua e indeterminada - em que as mortes se perpetravam em pessoa e não à distância… Mas não eram menos sanguinárias e absurdas.
E faço aqui um parêntesis, para realçar a qualidade desta edição portuguesa, de formato superior ao normal, capa dura, lombada em tela, completada com um caderno gráfico que ilustra a forma de trabalhar do desenhador. E, principalmente por, em detrimento da colorida, ter optado pela versão em preto e branco, plena de contrastes, que dá maior liberdade à imaginação do leitor e lhe permite apôr ao belíssimo traço realista de Roger, em doses generosas, todas as cores que o relato inspira, com predominância para o sangue que corre abundantemente.
O Deus Selvagem é a história de um jovem macaco órfão, que aspira a provar o seu valor no seio do clã que o acolheu. A procura de alimento, levá-los-á para a zona proibida, onde imperam os humanos e, capturado, será treinado, forçado, esvaziado do seu querer e da sua personalidade, para se tornar uma máquina de morte insensível, o tal ‘deus’ do título.
Vehlmann, num argumento com vários níveis de leitura, que assenta especialmente em relatos em off, cujos protagonistas não são desde logo evidentes, o que aumenta o interesse e o desafio que a obra propícia, irá estabelecer um paralelo cruel entre o símio e uma adolescente, pois os seus percursos, na verdade, não são muito díspares.
Os seus caminhos irão cruzar-se, o desejo de vingança obsessivo contra os seus mesmos captores é um elo comum, mas, até ela se concretizar, passará muita água sobre as pontes, quase sempre tingida de sangue.
E se muitas vezes somos tentados a desculpar a violência em nome da sobrevivência, aqui, sem peias, assistimos a um também extremamente natural cru e raivoso “matar ou ser morto”...
O
Deus Selvagem
Vehlmann
(argumento)
Roger
(desenho)
Ala
dos Livros
Portugal,
Fevereiro de 2026
245
x 330 mm, 112 p., pb, capa dura com lombada em teça
22,90
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 6 de Março de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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