10/03/2026

Um livro esquecido num banco

Elogio da leitura num tempo de ecrãs



A viver um momento de estagnação na sua relação com o namorado com quem vive há anos, Camélia, num intervalo de almoço, encontra um livro esquecido num banco de jardim. Leitora empedernida, num tempo em que os ecrãs de todos os tamanhos são omnipresentes, abre-o e depara com uma mensagem escrita, de desafio à descoberta do verdadeiro amor, que sente como dirigida a si.

É assim que começa Um livro esquecido num banco, uma bela divagação romântica de Jim e Mig sobre ‘livros viajantes’, que a ASA acaba de editar. O conceito de base é que, uma vez lidos, não devemos fechar os livros nas nossas bibliotecas, mas largá-los num qualquer lugar, para que outros possam desfrutar deles, acreditando que "as páginas são feitas para verem a luz do dia, para serem arejadas pelos leitores em busca de emoções!" 

Mesmo não ficando deslumbrada pela obra, mas sentindo-se desafiada, tão curiosa quanto de súbito apaixonada pelo misterioso escriba, Camélia decide responder-lhe e volta a colocar o livro no mesmo local. Começa assim uma troca de mensagens - escritas em papel - que transformam a vida da jovem, incompreendida pelos amigos, cada vez mais afastada do namorado, que irá repensar muitas das suas decisões de vida ao deixar-se envolver numa busca quase obsessiva por alguém que parece ser a sua alma gémea. E se é verdade que “ler foi a única maneira que arranjamos para viver várias vidas, vários amores, várias paixões", a jovem, entre encontros e desencontros, acredita que aquele livro a pode conduzir ao seu grande amor.

Perito em expor e analisar relações através de páginas desenhadas, Jim obriga-nos a embrenharmo-nos numa história sensível e emotiva sobre livros e sobre a importância que eles podem ter para (alguns de) nós, num tempo em que são cada vez menos as pessoas que os lêem.

O traço de Mig, realista quanto baste, belíssimo, agradável e complementado com um colorido de encher o olho, conforta-nos enquanto leitores, mesmo nos momentos em que é evidente o desespero de Caméla, por quem facilmente nos deixamos seduzir e torcemos na sua procura.

A leitura cativante, apontará caminhos inesperados e soluções nem sempre evidentes, deixando como consolo, mesmo que desnecessário, um excerto que alguém cita: “acho que nunca tive um desgosto que uma hora de leitura não dissipasse…"


Nota 1

Como já escrevi noutras alturas, o momento da vida e o estado de espírito da altura em que se lê, influenciam sobremaneira a leitura. O mesmo acontece com o idioma em que ela é feita. Descobri esta obra há alguns anos na edição original francesa e escrevi, na época, sobre os dois volumes, que muito bem a ASA compilou num só. A leitura desses textos, mais extensos no seu conjunto, poderá fornecer outras pistas de leitura.

Basta clicar nas ligações abaixo.

- Un petit livre oublié sur un banc

- Un petit livre oublié sur un banc 2


Nota 2
Jim tem sido um dos autores que me esforço em seguir de perto, enquanto vou recuperando obras antigas. Com uma excepção, tenho fruído de excelentes leituras com as suas obras. Por isso, foi um autor que nos últimos anos aconselhei a todos (?) os editores portugueses. A sua publicação pela ASA, é uma pequena vitória minha neste percurso longo em que tenho tentado partilhar o que de melhor a banda desenhada me tem dado.


Um livro esquecido num banco
Jim (argumento)
Mig (desenho)
ASA
Portugal, Fevereiro de 2026
205 x 275 mm, 112 p., cor, capa dura
22,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 28 de Fevereiro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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