09/03/2026

António Lobo Antunes: "Gosto muito do Corto Maltese"



Corria o ano de 1988, tinha iniciado há poucas semanas a colaboração no jornal O Primeiro de Janeiro e, aproveitando a Feira do Livro do Porto (que ainda se realizava na Rotunda da Boavista), decidi entrevistar uma série de autores portugueses de literatura sobre a sua relação com a BD.
Por razões que não lembro, acabei por não dar qualquer uso aos áudios, que ainda devo ter algures, com uma excepção: a breve conversa que tive com António Lobo Antunes (1942-2026), quase um ano depois fez a capa do terceiro número do Clube Comicarte.
Pelos piores motivos, o falecimento, no passado dia 5 de Março, de um dos maiores autores de língua portuguesa, recordo essa entrevista agora.


Clube Comicarte: Que importância teve a banda desenhada na sua iniciação na leitura?
António Lobo Antunes:
No meu caso foi bastante importante, sobretudo a BD francesa que lia no jornal Tintin e também no Mundo de Aventuras, no Cavaleiro Andante, etc. Acho que teve bastante importância, tanta que quando comecei a escrever tentei fazer banda desenhada.


Clube Comicarte: Acha que a BD contribui para criar o gosto pela leitura?
António Lobo Antunes:
Penso que sim. Pelo menos em mim criou. Penso que depende muito da forma como ela é digerida pelos adultos em relação às crianças.


Clube Comicarte: Costuma ler banda desenhada?
António Lobo Antunes:
Sim, sim...

Clube Comicarte: Que autores prefere?
António Lobo Antunes:
Bem, gosto muito do Corto Maltese, como toda a gente, e de muitos outros, desde o Astérix e por aí fora...

Clube Comicarte: Gostava de ver obras suas adaptadas em BD?
António Lobo Antunes:
Nunca pensei nessa questão... (pausa) Sinceramente não sei... Provavelmente seria mais simples escrever directamente para BD do que estar a escrever livros para eles serem depois adaptados. Acho mais simples fazer directamente um argumento para BD.


Clube Comicarte: Gostava de o fazer?
António Lobo Antunes:
Bem, eu, até agora, só tenho escrito romances. Não tenho feito mais nada a não ser romances. Nunca escrevi contos, nem teatro, nem poemas. Penso que cada vez mais temos que ter uma atitude de humildade perante as coisas. Era necessária uma grande aprendizagem para escrever uma história para BD. Acho que seria muito difícil. Demoraria muito tempo até ser capaz de o fazer.


Porto, Feira do Livro
Maio de 1988
Entrevista de Pedro Cleto

(entrevista publicada originalmente no Clube Comicarte 3, de Maio de 1989, e recuperada no Jornal de Notícias de 8 de Março de 2026; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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