Corria o ano de 1988, tinha iniciado há poucas semanas a colaboração
no jornal O Primeiro de Janeiro e, aproveitando a Feira do
Livro do Porto (que ainda se realizava na Rotunda da Boavista),
decidi entrevistar uma série de autores portugueses de literatura
sobre a sua relação com a BD.
Por razões que não lembro, acabei por não dar qualquer uso aos
áudios, que ainda devo ter algures, com uma excepção: a breve
conversa que tive com António Lobo Antunes (1942-2026), quase um ano
depois fez a capa do terceiro número do Clube Comicarte.
Pelos piores motivos, o falecimento, no passado dia 5 de Março, de um dos maiores autores
de língua portuguesa, recordo essa entrevista agora.
Clube Comicarte: Que importância teve a banda desenhada na sua iniciação na leitura?
António Lobo Antunes: No meu caso foi bastante importante, sobretudo a BD francesa que lia no jornal Tintin e também no Mundo de Aventuras, no Cavaleiro Andante, etc. Acho que teve bastante importância, tanta que quando comecei a escrever tentei fazer banda desenhada.
Clube Comicarte: Acha que a BD contribui para criar o gosto
pela leitura?
António Lobo Antunes: Penso que
sim. Pelo menos em mim criou. Penso que depende muito da forma como
ela é digerida pelos adultos em relação às crianças.
Clube Comicarte: Costuma ler banda desenhada?
António
Lobo Antunes: Sim, sim...
Clube Comicarte: Que autores prefere?
António Lobo Antunes:
Bem, gosto muito do Corto Maltese, como toda a gente, e de muitos
outros, desde o Astérix e por aí fora...
Clube Comicarte: Gostava de ver obras suas adaptadas em
BD?
António Lobo Antunes: Nunca pensei nessa questão...
(pausa) Sinceramente não sei... Provavelmente seria mais simples
escrever directamente para BD do que estar a escrever livros para
eles serem depois adaptados. Acho mais simples fazer directamente um
argumento para BD.
Clube Comicarte: Gostava de o fazer?
António Lobo
Antunes: Bem, eu, até agora, só tenho escrito romances. Não
tenho feito mais nada a não ser romances. Nunca escrevi contos, nem
teatro, nem poemas. Penso que cada vez mais temos que ter uma atitude
de humildade perante as coisas. Era necessária uma grande
aprendizagem para escrever uma história para BD. Acho que seria
muito difícil. Demoraria muito tempo até ser capaz de o fazer.
Porto, Feira do Livro
Maio de 1988
Entrevista de Pedro Cleto
(entrevista publicada originalmente no Clube Comicarte 3, de Maio de 1989, e recuperada no Jornal de Notícias de 8 de Março de 2026; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)


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