05/03/2026

Michel Vaillant: Remparts + Tex: Irmãos de sangue

Questões… acessórias

Por vezes, o principal na leitura não é a intriga intrínseca em si, mas sim questões acessórias que lhe estão associadas. E que tanto podem servir para valorizar a narrativa como serem o sustentáculo para ela.

A nova vida de Michel Vaillant, em modo de ‘série televisiva’, encontrou há alguns álbuns o equilíbrio entre a vida familiar dos intervenientes, as intrigas mais ou menos policiais e as corridas tout court… com estas a ganharem em protagonismo.

Para quem não é adepto deste desporto - é o meu caso - e nunca foi particular apreciador do Michel Vaillant original - também é o meu caso… - isto significou perda de interesse no material.
Em Remparts, com a marca francesa em risco falência e a tentativa de aposta em novos segmentos para a revitalizar, embora necessitando de suspender a participação em provas automóveis, encontrei uma curiosidade extra: a corrida principal da narrativa desenrola-se em Angoulême, cidade que visitei uma dezena de vezes por mérito do seu festival de BD. Não havendo no álbum qualquer referência ao evento, foi uma distracção interessante tentar reconhecer as paisagens e os locais por onde iam passando as viaturas, locais esses que não vejo fisicamente há mais de 20 anos. Um atractivo extra, foi a forma como o relato está montado, devido à cena inicial, uma perseguição do protagonista a ladrões de um carro da marca, que termina abruptamente… e cuja sequência só é revelada quase no final do livro.


Já em Irmãos de Sangue, mais uma aventura do ranger balizada pelas suas características habituais, pese embora alguns apontamentos de uma violência incomum neste western, a curiosidade - capaz de prender ao relato os habituais apreciadores ferrenhos, mas não só está no revelação de como Tex e Jack Tigre se tornaram os irmãos de sangue indicado no título.

Num relato assertivo e consistente, sobre a pilhagem das caravanas daqueles que procuravam refazer a vida no Oeste (ainda muito) selvagem, um acto tão significativo como era aquele de misturar o sangue de dois amigos, surge quase como acessório, é verdade, embora se comprenda o peso que possa ter para os seguidores de Tex e surpreenda até que tal história nunca tivesse sido contada nas décadas de vida que o ranger já conta.

Numa narrativa com várias ramificações, completa num único número da revista, saúdo o ‘regresso’ de Alfonso Font ao desenho, com o seu traço característico e nervoso que, se aqui e ali, já denota a idade do desenhador espanhol, ainda continua a brilhar, especialmente nas cenas em que aposta no contraste total entre a alvura do branco e o negrume do preto.


Michel Vaillant 14: Remparts
Denis Lapière (argumento)
Marc Bourgne (desenho)
ASA
Portugal, Março de 2026
223 x 292 mm, 56 p., cor, capa dura
14,95


Tex 652/17: Irmãos de sangue
História originalmente publicada em Tex 752 (SBE, Itália, 2023)
Giorgio Giusfredi (argumento)
Alfonso Font (desenho)
Mythos Editora
Brasil, 2024
160 x 210 mm, 112 p., cor, capa cartão
R$ 29,90


(capa e prancha de Michel Vaillant disponibilizadas pela ASA; capa de Tex disponibilizada pela Mythos Editora, prancha disponibilizada pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

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