14/04/2026

Carlota Imperatriz 1/2

Mulher e imperatriz


Costuma dizer-se que o importante não é a história, mas sim a forma como ela é contada. E quando o(s) autor(es) conseguem contá-la bem, o tema não importa, os leitores são seduzidos até por aquees a que são indiferentes.
É o caso de Carlota Imperatriz, primeiro de dois volumes com a edição integral da biografia de Carlota da Bélgica, assinada por Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, que a Ala dos Livros lançou recentemente e promete acabar no segundo semestre.

Se a vida de reis e rainhas do passado não será a temática de eleição de muitos, Nury conseguiu partir dos factos de uma vida, acrescentar-lhes elementos ficcionais credíveis e transformar uma biografia num autêntico romance cuja leitura prende e apetece prosseguir até ao voltar da última página.

O relato abre com a despedida da pequena Carlota da mãe recém-falecida e, num salto temporal, prossegue quando, aos 17 anos, está na fase de escolha de pretendente. Hesitando entre Pedro V, de Portugal e Maximiliano, da poderosa casa austríaca dos Habsburgo, acabará por se deixar cortejar por este último. Os acasos da vida, ou melhor, as vicissitudes da intriga política e da guerra, levarão o casal para um México conturbado e atravessado por uma guerra civil e o combate com as tropas napoleónicas, onde Carlota se afirmará como imperatriz, num meio, num mundo que eram dominados e quase exclusivo dos homens.

Mais do que encadear factos históricos, Nury dota as principais personagens de espessura e carácter, torna-as vivas e reais e não mero repositório de ideias feitas. A força da jovem, nascida em 1840, o seu sentido político e de estado, a sua capacidade de fazer face às adversidades, a luta interior de alguém que quer ser mãe - e mulher - face ao desinteresse do marido, surgem em oposição à fraqueza psicológica de Maximiliano, à sua incapacidade de se afirmar e ao seu gosto pela boa vida, o deboche e a frequência de bordéis. A par deles, conselheiros e amigos, responsáveis por intrigas e opiniões raramente isentas, revelam-se fundamentais para dar corpo a um relato intenso e humano.

Bonhomme, de quem já conhecemos duas incursões muito inspiradas e extremamente aconselháveis no universo alternativo do cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra - O homem que matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke - usa o seu belo traço expressivo, semi-realista, de linha clara para nos apresentar uma bela e sedutora Carlota e distingui-la no meio da restante galeria de personagens. A planificação clássica, com vinhetas de dimensões generosas, revela-se eficaz tanto para os grandes planos como para os retratos de conjunto, a recriar a ostentação das cortes europeias da segunda metade do século XIX, como para nos arrastar através da miséria e pobreza da realidade mexicana, com o todo muito bem servido pelas cores de Isabelle Merlet, vibrantes ou sombrias consoante pede a acção.


Nota final

Se há alguns anos - não tantos quanto isso - a opinião maioritária era que o importante era as obras estarem disponíveis em português, hoje em dia torna-se difícil dispensar edições de superior qualidade, de que a Ala dos Livros fez desta, com dois dos 4 volumes originais, (mais) um exemplo: formato generoso, bons acabamentos de impressão e encadernação, papel de boa gramagem, felizmente baço para o brilho não ferir os olhos ávidos de mergulharem no belo traço de Bonhomme...


Carlota Imperatriz 1/2
Fabien Nury (argumento)
Matthieu Bonhomme (desenho)
Ala dos Livros
243 x 317 mm, 152 p., cor, capa dura
35,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 3 de Abril de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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