19/06/2026

Tex 655/20 - A cavalgada do destino

Capas e/ou pranchas?





Um bom capista é necessariamente um bom autor de BD? A resposta é não, claramente, porque as duas funções têm bases e objectivos diferentes.

A primeira, a capa, tem como função ser porta de entrada no livro. Tem de atrair, despertar a atenção, criar curiosidade, vontade de ler.

A segunda, a banda desenhada, apresenta uma função narrativa. Tem de transmitir ritmo, dinâmica, acima de tudo tem de ter sequência.

Sei que ao nível da banda desenhada franco-belga a questão não será muito relevante, pois geralmente o desenhador faz a sua própria capa, mas no que diz respeito aos comics de super-heróis ou, como é o caso hoje, aos fumetti Bonelli, as coisas não são bem assim.

Na casa mãe de Tex, Dylan Dog ou Martin Mystère, a norma diz que, para cada série, há um artista encarregado de todas as capas - possivelmente como forma de as homogeneizar e de lhes dar uma imagem global imediatamente reconhecível. Por isso, Claudio Villa assinou as dos primeiros relatos do Detective do Pesadelo, sendo depois substituído por Angelo Stano; Giancarlo Alesandrinio assinou as de Martin Mystère, que ele próprio desenhava; sucedendo o mesmo com Gallieno Ferrio em relação a Zagor; o mesmo Claudio Villa citado acima, a partir do número 400, ocupou em Tex o legado que vinha de Aurelio Galleppini, o criador gráfico do ranger.

Villa, ao longo dos anos, estendeu a sua actividade também a algumas das histórias de Tex, poucas, aparentemente devido à sua proverbial lentidão. O exemplo mais recente, pelo menos nas minhas leituras, é este A cavalgada do destino que, assinalando os 75 anos da personagem, foi publicado a cores. Cores essa, refiro desde já, superiores ao que é habitual na editora italiana, o que contribui para realçar a qualidade do desenho.

E não havendo dúvidas quanto à qualidade gráfica do traço de Villa, ao longo da leitura ressaltaram alguns pormenores em que sobressaiu o capista. Na forma como faz grandes planos destacando expressões ou pormenores, por exemplo, mas, principalmente, no modo como em casos pontuais, introduziu vinhetas de maior dimensão para obter cenas compostas que podiam perfeitamente dar… uma capa!

Essas imagens - como a evocação de Lilyth, aquelas em que o relato presente se sobrepõe a imagens passadas ou, perto do final, durante o tornado - deixam a sensação que se Villa fosse libertado (institucionalmente) do espartilho das 2 vinhetas em 3 tiras que são imagem de marca da Bonelli, teríamos certamente uma obra de maior impacto gráfico - atrevendo-me eu a acrescentar sem perda da função narrativa, bem pelo contrário, como é visível nos poucos casos referidos.

O argumento, assinado por Mauro Boselli a partir de uma ideia original de Graziano Frediani, remete mais uma vez para o passado de Tex e para a época em que perseguiu os responsáveis pela morte da sua esposa, Lilyth, e vingou a sua morte, assumindo assim um incontornável peso afectivo e traumático. Anos mais tarde, no presente do relato, alguns fantasmas - bem reais… - dessa época voltarão a surgir, a reboque de novas epidemias de varíola provocadas por brancos gananciosos interessados nos territórios ocupados por peles-vermelhas, o que levará Tex, Kit Carson, Kit Willer e Jack Tigre em nova perseguição punitiva.

Do conjunto, realce para a impacto e a força da cena inicial, no deserto, bem como da que quase conclui o livro, durante o tornado, pelo modo como a natureza assume papel fundamental em ambas.
E uma nota final para a inclusão de umas quantas páginas de esboços no final da edição.


Tex 655/20 - A cavalgada do destino
História originalmente publicada em Tex 755 (SBE, Itália, 2021)
Graziano Frediani (ideia original)
Mauro Boselli (argumento)
Claudio Villa (desenho)
Mythos Editora
Brasil, 2024
160 x 210 mm, 128 p., cor, capa cartão
R$ 33,90

(capa brasileiras disponibilizadas pela Mythos Editora; restantes imagens disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

10 comentários:

  1. Porque atualmente não publicam TEX em Portugal ?

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    1. Em Portugal saíram talvez uma dezenas de edições portuguesas.
      As revistas de Tex que eram distribuídas em Portugal eram brasileiras e não portuguesas. As fracas vendas aliadas a problemas de transporte e desalfandegamento e à diminuição dos seus locais de venda, fizeram com que deixasse de ser um negócio lucrativo.
      Boas leituras.

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    2. Caiu um mito todos gostam de Tex.

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    3. Eu tentei mas não consigo gramar o Tex (fora algumas excepções), na verdade o Fumetti em geral, assim como o Mangá, deixam-me "de pé atrás", sente-se tudo tão fabricado, formulaico, tantas páginas redundantes, para cobóiadas vou mais para os trabalhos do Hermann (Comanche) ou Ringo do Vance, o excesso de verborreia do Blueberry também nunca me convenceu, no topo vou meter sempre o Bouncer, o Jonah Hex e o Undertaker, Lucky Luke no humor.

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    4. Não podemos gostar todos do mesmo, felizmente, para aumento da oferta. Leio Tex com prazer, sabendo o que me espera - e às vezes tenho boas surpresas.
      Mas não o comparo a Comanche, Blueberry, Bouncer ou Undertaker. Nem a Buddy Longway ou Ken Parker. Ou Deadwood Dick. [Reconheço a minha lacuna quanto ao Jonah Hex - alguma sugestão por onde começar?]
      ...mas quanto a meter tudo no mesmo saco, quando se fala de fumetti ou manga, acho extremamente redutor. É o mesmo que dizer que os comics de super-heróis (fabricados e formulaicos) são todos iguais ou que a banda desenhada franco-belga é toda a mesma coisa...
      Boas leituras!

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    5. Posso recomendar, para o Jonah Hex, os seguintes:
      Jonah Hex: Two-Gun Mojo, 1993, escrito pelo grande Joe R. Lansdale e arte do fantástico Timothy Truman e Jonah Hex: No Way Back, 2010, escrito por Justin Gray e Johnny Palmiotti e arte do grande Tony De Zuñiga, conhecido pela sua arte-final sobre a arte do John Buscema nas estórias da Espada Selvagem de Conan.
      Para algo mais clássico (década de 1970) temos a edição: Weird Western Tales: Jonah Hex Omnibus.
      São estórias cruas, realistas, muito bem feitas.
      Esta edição seria uma boa aquisição: https://www.dc.com/graphic-novels/jonah-hex-shadows-west-1999/jonah-hex-shadows-west

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  2. Esta é uma edição de estórias esgotadas, reedição de 2026, também vale a pena, pode-se ver um sample na Amazon: https://www.wook.pt/livro/jonah-hex-a-face-full-of-violence-2026-edition-justin-gray/33516580

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    Respostas
    1. Muito obrigado, vou ver o que encontro... O western é a minha perdição...
      Boas leituras!

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    2. Não há dúvida Pedro, temos iguais perdições na BD e no D

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    3. Pois...
      Boas leituras... western!

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