23/09/2026

Slava 2 - Os novos russos

Cada um por si


"... Em alguns, é a sede de poder, o orgulho, a húbris..."
In Slava 2 - Os novos russos


Se o volume inicial de Slava já tinha sido uma agradável surpresa, neste segundo (de três) Pierre-Henry Gomont consolida e confirma tudo o que aquele apresentava e eleva-o a um outro nível.

O cenário de fundo continua a ser a União Soviética em desagregação, os restos de grandeza pilhados e contrabandeados, os orgulhos vendidos por dinheiro - tantas vezes falso ou simplesmente sem valor…

Por todo lado há o estabelecimento de instáveis equilíbrios de poder ou de dinheiro - ou de poder e dinheiro - ao bel prazer dos poderosos ou dos mais fortes, por todo o lado surgem negociatas, esperteza saloia e a tentativa desesperada de enriquecer antes que tudo impluda.

Neste contexto, se no primeiro volume de Slava, o protagonista (menor) que dá nome à série, Lavrine, Arkady, Nina, Volodia, estavam de algum modo juntos, unidos por interesses que pareciam comuns - ou pelo menos, a certa altura, apontaram na mesma direcção - agora, no final de Os novos russos, a sensação que fica é que nele os vimos cada um por si - ou quase - a lutar pelos seus próprios sonhos, pelas suas próprias utopias, pela sua própria sede de dinheiro ou por algo seu que já não sabem muito bem o que é. Até ao ponto em que, desiludidos, desencantados, cansados ou compreendendo-se vencidos, mesmo assim o fazem mais por teimosia do que por ideal ou crença, numa corrida para a frente que espelha principalmente desespero e o medo de perder tudo aquilo em que se acreditou, o temor não de perder o pouco - ou bastante - que têm, mas de se perderem no seu íntimo, no mais profundo de si.

Esta individualização das personagens, acaba por contribuir para o crescimento da sua definição e para um desenvolvimento mais sustentado, tornando-as mais humanas e credíveis.

Graficamente, o trabalho de Gomont é no mínimo fabuloso, pela forma como ele impregna de vida e movimento cada vinheta por si e o conjunto num todo, numa soberba demonstração de como deve ser uma banda desenhada, em termos de legibilidade e acção.

Veja-se, a título de exemplo, como nalguns balões substitui diálogos que poderiam ser longos ou excessivos por uma simples ilustração de suma expressividade.
Ou, ainda, como as suas personagens esguias correm de um lado para o outro, no interior das vinhetas ou para lá delas - no espaço entre elas que por vezes se revela longo e tortuoso - como se não houvesse amanhã - e possivelmente não haverá - arrastando nessa corrida desenfreada os leitores, por vezes obrigados a recuar para se situarem no relato, que chegam ao fim da leitura exaustos, a arfar, mas sumamente satisfeitos.


Slava 2 - Os novos russos
Pierre-Henry Gomont
ASA
Portugal, Maio de 2026
240 x 295 mm, 112 p., cor, capa dura
20,90 €

(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

1 comentário:

  1. Esperemos que haja amanhã e a Asa publique rápido o terceiro volume deste fabuloso SLAVA

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