A propósito dos 70 anos de “O Cavaleiro Misterioso”, primeiro western realista dos quadradinhos portugueses, eis o depoimento de dois autores que experimentaram o género, José Ruy e João Amaral:
1. Qual a importância do western na sua obra?
José Ruy - Este género não tem realmente uma incidência muito grande no conjunto de bonecos que tenho feito. No que hoje se chama «fanzine» que publicava em 1943, garatujei uma história de Cow-Boys assinando «Domador», para dar a ideia de ter mais colaboradores na revistinha, com uma tiragem de 50 provas para distribuir pelos amigos. Já colaborador de «O Papagaio», quando o Roussado Pinto passou a fazer parte da Redacção, achou que eu devia fazer um Western e elaborou um argumento. Chamava-se «Os Cavaleiros do Vale do Negro», e depois de muitos episódios, ao sair da Redacção, disse-me para continuar a história, pois não lhe dava jeito manter essa colaboração, e que eu tinha condições para tal. E o resto desse Western foi de minha inteira autoria. Quando se publicou a 2ª série de O Mosquito, editada pelo Ezequiel Carradinha e depois por mim, fiz um Western para as páginas centrais da publicação, só porque não tinha na colaboração importada uma história desse género.
João Amaral - Sobre a importância do western na minha obra, devo dizer que apesar de não ser muito visível no imediato, ela se encontra lá de alguma forma. Basta dizer que este foi um dos primeiros géneros que conheci em miúdo, com as revistas de O Falcão, Tex Tone ou Relâmpago, entre aquelas que agora me lembro, e mais tarde no Mundo de Aventuras e no Tintin, onde me lembro de acompanhar a saga do Tenente Blueberry, com muita satisfação e emoção. E essas revistas motivavam de tal forma a minha imaginação, que me tenho a ideia de, aos oito anos, fazer uma história baseada nesses heróis que lia.
Depois, veio o cinema e foi aí que colhi muitas influências, algumas das quais se encontram patentes (ainda que de forma muito indirecta) na própria “A Voz dos Deuses”. Lembro-me que, apesar de me querer manter fiel à obra de João Aguiar, queria, dentro da medida do possível, narrar algumas sequências, um pouco de uma forma semelhante à de um western. Sobre isso, lembro-me desse tipo de influência, numa cena em que Tôngio se encontra com um grupo de desertores romanos.
E, já posteriormente, elaborei para as Selecções BD, “O Fim da Linha” que se pode traduzir como um falso western. É verdade que a acção se passa numa aldeia portuguesa no último dia do ano 2000, mas em tudo é um western, apesar da época ser a actual. Afinal, não é mais do que um remake e uma homenagem a um dos meus filmes favoritos: O Comboio Apitou Três Vezes, de Fred Zinneman. E, apesar da acção diferir nalguns aspectos do original, tentei que as influências ficassem todas lá. E lembro-me de ter visto e revisto vários filmes para conseguir imagens fortes, por exemplo, para o duelo final que a história representa.
Mais recentemente e, depois de falar com o Jorge Magalhães, decidimos fazer “OK Corral”, para o Festival de Moura, uma história curta de quatro páginas que misturava dois géneros aparentemente distintos: o western (um claro pastiche do célebre filme de John Sturges, com Kirk Douglas e Burt Lancaster) e a ficção científica. Mais não fosse, só por isso, é um género para mim muito importante, porque, como poucos, consegue captar ambiências, que se podem estender a outras áreas.
2. Quais os autores e obras nacionais que considera mais significativos?
José Ruy - Em relação ao Western de autores portugueses, vou referir os autores, pois as histórias dos que menciono, considero-as todas boas. O Vítor Péon, que inicialmente sofria de grandes influências de autores estrangeiros e do português E.T. Coelho, veio a criar um estilo próprio, mas as histórias eram de qualidade. Curiosamente, foi o Cardoso Lopes, Tiotónio, quem lhe «ensinou» os pormenores deste tipo de personagens.
Gosto do Western de Eduardo Teixeira Coelho, e considero muito bem conseguido o que o Fernando Bento realizou. Presentemente aprecio as histórias deste género do José Pires, que neste momento está a elaborar uma belíssima história, na minha opinião, de grande envergadura, com muito rigor e acabamento impecáveis. Talvez a melhor das que ele já publicou.

“Wakatanka”, dos mesmos autores, é uma história que ainda hoje leio e releio com muito agrado, tendo pena de ainda não ter conseguido arranjar o primeiro volume, que julgo ter visto pela primeira vez num suplemento de A Capital. O outro autor português que acho especialmente dotado para o western (que é aliás o seu género favorito) e cuja obra me maravilha desde há muito, é o José Pires, com os seus “Os Homens do Oeste”, mas sobretudo “Will Shannon - O Poço da Morte” e “Irigo”.
Nota: Pranchas destas duas bandas desenhadas podem ser vistas no blog de João Amaral.
Sobre o mesmo tema ler também:
- O Western na BD portuguesa
- O Western na BD portuguesa: depoimentos de Jorge Magalhães e João Paulo Paiva Boléo