24/02/2026

Duas raparigas nuas

Obra de arte com visão própria





Costuma dizer-se que as obras de arte reflectem a visão que os artistas têm do mundo. No caso de Duas raparigas nuas, é a visão que a obra de arte tem do mundo que ela reflecte. Mas já lá vamos.

[...com o inevitável aviso que este texto diz mais do que muitos leitores desejam saber. Continuar a leitura, é por vossa conta e risco.]


Zwei wibliche Halbakte (Duas raparigas nuas) é o título de um quadro pintado pelo alemão Otto Mueller em 1919. Nascido em 1874 e falecido em 1930, considerava-se um ‘pintor livre’ embora os críticos o aproximassem do expressionismo.

Duas raparigas nuas é também o título do livro de Luz, distinguido como Melhor Álbum no Festival de BD de Angoulême de 2024, que a ASA acaba de editar em português.

Nele, o autor, um dos sobreviventes do atentado de 2015 contra o jornal satírico Charlie Hebdo, narra, numa sucessão de episódios curtos, a génese e o percurso do quadro desde a sua criação, passando pela compra por um coleccionador, a apreensão pelos nazis chegados ao poder na Alemanha e posterior inclusão na exposição Arte degenerada, e a posse por sucessivos donos até quase aos nossos dias, quando foi devolvido aos proprietários originais.

Desta forma, Luz traça o retrato de uma época atribulada, triste e moralmente decadente, que mudou a história do mundo e mostrou o pior do ser humano. Mas, em paralelo Duas raparigas nuas é também um manifesto em defesa da arte, da cultura, do direito à diferença e à opinião própria e contra qualquer tipo de censura, expresso através da criação artística.

Mas, para além da força intrínseca da sua mensagem, extremamente actual nos nossos dias, em que polulam tantos tipos de censura, mais ou menos encobertas ou descaradas, este álbum distingue-se pelo facto de todo o relato ser feito do ponto de vista do quadro que lhe dá título, quase como se o leitor fosse colocado na posição de uma das raparigas que ele mostra. Este artifício gráfico, aparentemente simples, transforma completamente o processo narrativo, desde as pranchas iniciais, quase brancas, em que só começamos a ver algo quando Mueller dá as primeiras pinceladas na tela, ‘abrindo’ pela primeira vez os olhos das raparigas para um mundo em transformação acelerada a caminho de enormes convulsões.

Esta opção, tem também o condão de despertar a curiosidade do leitor acerca do conteúdo de um a pintura que nunca se vê, mas é capaz de despertar os maiores ódios e paixões.


Duas raparigas nuas
Luz
ASA
Portugal, Janeiro de 2025
211 x 282 mm, 200 p., cor, capa dura
32,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 14 de Fevereiro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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