Quando a História ultrapassa a ficção
Mais de 50 anos após o 25 de Abril de 1974, a banda desenhada nacional continua a desaproveitar o que se viveu em Portugal durante a ditadura - e mesmo durante os primeiros e conturbados anos após a Revolução dos Cravos. Há alguns exemplos é verdade mas poucos tendo em conta o enorme potencial da temática, quer ficcionalmente, quer do ponto de vista histórico.
Cito alguns exemplos, sem querer ser exaustivo porque acredito que vale a pena explorar a temática: é o caso de obras tão díspares como E depois do Abril, Edgar, Ao som do fado ou a série Co.Br.A. , ou de diversas abordagens à guerra colonial, que no entanto sabem a pouco.
A Fuga, com assinatura de Paulo Caetano e Jorge Mateus, é um exemplo recente, editado este mês pela Iguana e segue aquela última abordagem, ao recontar a célebre evasão da cadeia de Caxias de diversos quadros do Partido Comunista Português.A narrativa decorre nos anos 1950, num período de grande agitação laboral, devido à perda de poder de compra, ao aumento do desemprego e às precárias condições de trabalho em profissões de risco, como os pescadores ou os mineiros. O seu protagonista é António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP. Preso pela PIDE durante uma operação de sabotagem das linhas dos eléctricos lisboetas, foi torturado e acabou por falar quando, na sua opinião, deveria ter estado calado. Preso em Caxias, a partir daí tem como único objectivo recuperar a sua honra, perante a família, os companheiros e o partido, sim, mas antes de tudo, aos seus próprios olhos.
Indiscutivelmente um daqueles casos em que a realidade histórica é mais forte do que a ficção, esta obra tem uma série de elementos que parecem saídos da imaginação de um qualquer argumentista de Hollywood, como o facto da fuga ter acontecido a bordo de um automóvel blindado oferecido a Salazar por Adolf Hitler, mas na verdade limita-se a passar para o papel o que então aconteceu.Servida por um traço estilizado mas de grande legibilidade, completamente despojado de todos os elementos acessórios que poderiam desviar a atenção do leitor e com um colorido agradável apesar da predominância de tons sombrios, A Fuga consegue por um lado proporcionar uma perspetiva histórica da realidade nacional e do acontecimento, ao mesmo tempo que transforma este último numa autêntica aventura, capaz de prender os leitores que, na sua maioria, possivelmente ignoram o episódio histórico.
A
Fuga
Paulo
Caetano e Jorge Mateus
Iguana
Portugal,
Abril de 2025
170
x 240 mm, 112
p., cor,
capa dura
18,45
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 24 de Abril de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Iguana; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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