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06/08/2013

Biografias aos quadradinhos











Recém-chegada às livrarias nacionais, “Anne Frank: Biografia Gráfica”, uma edição da Devir, é uma obra que exemplifica um género a que a banda desenhada regressa recorrentemente: a biografia.

Se a história de Anne Frank, a pequena judia que narrou num diário a sua experiência como refugiada judia na Holanda, durante a segunda Guerra Mundial, é razoavelmente conhecida, recontá-la aos quadradinhos pode ser uma forma de a fazer chegar a leitores menos familiarizados com as atrocidades sofridas pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Os seus autores, Sid Jacobson e Ernie Colón, para além do diário de Anne, basearam-se também em testemunhos de pessoas que a conheceram, para fazerem um enquadramento histórico e narrarem a história da sua família antes e depois do holocausto nazi.
Da mesma editora é também “O Zen de Steve Jobs”, que num registo mais ficcional, ilustra diversos episódios da vida do fundador da Apple entre 1970 e 2011, que mostram a sua relação com Kobun Chino Otogawa, um monge zen dissidente do budismo, e como se inspiraram mutuamente.
Acreditando nas potencialidades desta forma de expressão e na facilidade com que chega a leitores mais novos, a Fundação Nelson Mandela compilou diversos episódios da vida do antigo presidente sul-africano em “Nelson Mandela: The Authorized Comic Book”, um projecto que teve supervisão do próprio.
Temática usada em Portugal e noutros países ocidentais durante décadas para contornar as limitações que a censura impunha, a biografia aos quadradinhos continua a ter cultores como o veterano José Ruy, autor de “Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos” (Âncora), na qual provoca o encontro entre duas “versões” do biografado, o homem maduro e o jovem de 14 anos, que vão conversando e percorrendo os diversos locais onde viveu uma das figuras mais proeminentes do movimento da Renascença Portuguesa.
Já “Pessoa & Cia” (ASA), da catalã Laura Pérez Vernetti, apresenta o poeta português através de uma biografia desenhada e da reinterpretação de alguns dos seus poemas aos quadradinhos.
Menos conhecido é o fotógrafo brasileiro Maurício Hora, natural da favela do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, onde ainda hoje habita por opção, cujas dificuldades de vida inerentes ao meio são traçadas em “Morro da Favela” (Polvo) do também brasileiro André Diniz.
No campo do desporto, a vida de um dos maiores ciclistas de todos os tempos foi lembrada aos quadradinhos nos anos 1970 pelo jornal “A Capital”, numa BD recuperada pelo GICAV em “Um campeão chamado Joaquim Agostinho”, a propósito do centenário do seu criador, Fernando Bento (1910-2010).
Nos Estados Unidos, os quadradinhos biográficos dedicados a personalidades e celebridades das mais diversas áreas encontraram um nicho de mercado que a Bluewater Productions tem explorado a fundo. O actor Lou Ferrigno, o escritor George R.R. Martin, o basebolista Jackie Robinson ou os One Direction são alguns dos nomes que recentemente integraram um já vasto catálogo onde também se encontram biografias  de Barack Obama, dos príncipes William e Kate, de Michael Jackson ou de Angelina Jolie, esta última desenhada pelo português Nuno Nobre.
Entretanto, nalgumas bancas e quiosques portugueses está neste momento disponível o segundo tomo de “La Vie de Mahomet”, uma biografia do profeta do islão.
Editada pela revista satírica “Charlie Hebdo”, conhecida pelas muitas polémicas que tem provocado e cuja sede chegou a ser alvo de um atentado bombista, desencadeou uma tempestade mediática quando foi editado o primeiro volume, mas a obra revelou-se fiel à versão histórica, fruto de um profundo trabalho de pesquisa por parte de Zineb e Charb, que entre outras bases utilizaram os textos sagrados do Corão “para ilustrar o percurso de um homem, Maomé, tal e qual é descrito nas próprias fontes islâmicas”.
Apesar disso, não escapou a tornar-se alvo de alguns extremistas e recentemente, em França, donos de quiosques foram ameaçados e mesmo agredidos por a exporem e o Facebook chegou a suspender a página da “Charlie Hebdo” por “publicação de conteúdos que violavam” as suas regras…
A finalizar, a título de curiosidade fica uma referência a três biografias intimamente ligadas ao género narrativo que as suporta: “Maurício de Sousa: biografia em quadrinhos”, assinada pelo respectivo estúdio, mas que assume alguns contornos autobiográficos, “Osamu Tezuka – Biographie”, obra póstuma sobre o criador de Astroboy, e “A Saga do Tio Patinhas”, editada em Portugal pela Edimpresa, na qual Don Rosa recriou cronologicamente o percurso do pato mais rico do mundo a partir dos muitos episódios escritos e desenhados por Carl Barks, o seu criador. 

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 6 de Agosto de 2013)

05/01/2012

Cavaleiro Andante nasceu há 60 anos


A 5 de Janeiro de 1952, um sábado, surgia pelas primeiras vez nas bancas portuguesas o “Cavaleiro Andante”, um dos mais importantes títulos do jornalismo infanto-juvenil português.
A nova publicação vinha retomar o “combate” com o Mundo de Aventuras, ocupando o lugar deixado vago pelo Diabrete uma semana antes, por isso, ao contrário do habitual, havia quase uma sucessão pacífica, com títulos e colaboradores a passarem de uma para a outra.
Era o caso de Fernando Bento (1910-2010) que trazia para a nova revista o seu estilo elegante e personalizado, assinando logo no número inaugural as primeiras páginas de Beau Geste, baseado no clássico de Percival C. Wren, uma das suas mais conseguidas criações, e também a capa, com um cavaleiro de armadura montado num fogoso corcel.
Essa mesma capa, que anunciava 20 páginas e 12 aventuras ilustradas pelo preço de 1$80, referia já dois dos aspectos que seriam recorrentes ao longo dos seus 10 anos de existência: separatas para construir (no caso, um jogo de “Oquei em patins” – sic!) e concursos, sendo oferecido aos leitores um rádio Philips por semana!
A revista distinguiu-se também pelas construções de armar e pelos suplementos que acolheu: “Pajem”, para os mais novos, “Andorinha”, para as meninas, “Desportos e “Bip-Bip”. Em paralelo, até 1963, lançou a colecção “Álbum do Cavaleiro Andante”, que teve 107 números publicados com histórias completas, antecipando uma moda que se viria a impor, bem como alguns números especiais e de Natal.
No número inaugural do Cavaleiro Andante, para além de Bento, o destaque ia para dois autores que marcariam a publicação: o italiano Franco Caprioli, autor de algumas das mais belas adaptações de clássicos da literatura, e Hergé com “Tim-Tim no templo do Sol”.
Ao longo dos anos, surgiriam outros nomes grandes das histórias aos quadradinhos europeias e norte-americanas: Macherot (Chlorophille), Jijé (Jerry Spring), Cuvelier (Corentin), Goscinny e Uderzo (Astérix, recuperado do entretanto extinto Foguetão) ou Tufts (Lance, rebaptizado “Flecha”, actualmente reeditado em álbum em Portugal), as estreias de Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), Morris (Lucky Luke), François Craenhals, Bob de Moor, Jean Graton (com Michel Vaillant, aliás Miguel Gusmão!) ou Tibet, bem acompanhados pelos portugueses José Garcês, Artur Correia ou José Ruy.
Fruto da época que então se vivia e da pressão crescente da censura (e da auto-censura), a maior parte deste material vinha das melhore revistas católicas franco-belgas e italianas, obedecendo “a uma probidade e sensatez absolutas”, como escreve A. Dias de Deus em “Os Comics em Portugal”.
A sua selecção esteva a cargo de Adolfo Simões Müller (1909-1989), anteriormente responsável pelo Papagaio, Diabrete ou Foguetão que, ainda segundo Dias de Deus, soube conciliar “as preferências da juventude” com “os condicionamentos impostos pelas normas de educação dita formativa”.
O Cavaleiro Andante, que também se destacou pelo bom papel e impressão, terminaria no nº 556, a 25 de Agosto de 1962, registando uma mudança de formato no nº 327 e a crescente preferência por histórias completas na fase que corresponde ao seu declínio e fim.


Hoje em dia, uma colecção completa deste título, segundo alguns especialistas, poderá valer entre três e quatro mil euros, dependendo do seu estado e da pressa do comprador. Isto porque, quem tiver tempo e paciência poderá encontrar muitos dos números da revista em leilões online ou em feiras de usados. Como é habitual nestes casos, os números mais raros são os primeiros, mais antigos, os últimos, quando a tiragem era mais baixa, e os que correspondem à mudança de formato, pois nesses a tendência para se deteriorarem era maior. Por isso, não se surpreenda se lhe pedirem até 100 euros pelo Cavaleiro Andante nº 1 ou o dobro daquele valor pelo nº 556.

29/12/2011

Há 60 anos, o fim de O Diabrete

A 29 de Dezembro de 1951, um sábado, chegava ao fim mais uma das grandes aventuras do jornalismo infanto-juvenil em Portugal: tinha por título “Diabrete” e durante uma década tinha sido “o grande camaradão” da pequenada, como se lia no seu cabeçalho.
O seu primeiro número surgiu à venda por 50 centavos, a 4 de Janeiro de 1941, sendo propriedade da Empresa Nacional de Publicidade e tendo como director Artur Urbano de Castro. Na sua capa, pouco atractiva para os padrões actuais, apenas se destacava o cabeçalho desenhado por Fernando Bento (um dos muitos que fez para a revista).
O desenhador português, que foi um dos grandes pilares da publicação – o principal no que à BD diz respeito - assinava também as aventuras de “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”, história aos quadradinhos cómica que merecia honra de primeira página e seria publicada ininterruptamente até ao nº 255.
No “Diabrete”, Fernando Bento deixaria uma marca indelével, assinando inúmeras adaptações de clássicos de aventuras, com Júlio Verne à cabeça, sendo sem dúvida o grande nome da publicação onde também se distinguiu Vítor Péon e Fernandes Silva com o detective “O Ponto”.
A primeira grande revolução na revista, que marcaria todo o seu percurso posterior, e que contribuiu decisivamente para a saudável rivalidade que alimentou com “O Mosquito” ao longo da sua existência, aconteceu logo no vigésimo número, quando Adolfo Simões Müller assumiu efectivamente a sua direcção e também grande parte da sua produção literária, a par de Maria Amélia Barça. Como era então habitual, o “Diabrete” incluiu separatas e construções de armar, organizou concursos e espectáculos e editou romances destacáveis e alguns mini-álbuns, entre os quais “O Dragão Teimoso”, de Walt Disney.
Ainda no que diz respeito a autores estrangeiros, destaque para os irmãos Jesus, Adriano e Alejandro Blasco, e para as estreias em Portugal de “Tarzan”, de Burne Hogarth, “Rusty Riley”, de Frank Godwin, “Bob e Bobette” de Willy Vandersteen, e “Quick e Flupke” (rebaptizados Trovão e Relâmpago), de Hergé. O “Diabrete” também publicou o “Agente secreto X-9”, de Alex Raymond, e, já na sua fase final, na esteira do encerramento de “O Papagaio”, três aventuras de “Tintin”, a última das quais deixada incompleta com o fim da revista, no número 887, no final de 1951.
Uma semana depois, os leitores reencontravam o célebre repórter e outros dos heróis do “Diabrete” no número inaugural do “Cavaleiro Andante”. Mas isso, foi outra aventura. 

Nota: Àqueles que queiram aprofundar a história desta revista, aconselho a monografia “Diabrete – O grande camaradão de todos os sábados”, da autoria de José Azevedo e Menezes. 

(Versão expandida do texto publicado no Jornal de Notícias de 29 de Dezembro de 2011)

24/02/2011

Às Quintas falamos de BD (I)

E Tudo Fernando Bento sonhou
João Paulo de Paiva Boléo (texto)
CNBDI (Portugal, Fevereiro de 2011)


Hoje, às 21 horas, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), na Avenida do Brasil, 52A, na Amadora, será apresentado o livro “E Tudo Fernando Bento Sonhou“, da autoria de João Paulo de Paiva Boléo, no seguimento da (magnífica) exposição com o mesmo nome que comissariou e esteve patente no Amadora BD 2010.
Este evento inaugura o programa de encontros mensais “Às Quintas falamos de BD”, que terão lugar no CNBDI, na última quinta-feira de cada mês, de Fevereiro até Maio

19/11/2010

Fernando Bento em Beja

Centenário do nascimento de Fernando Bento
Bailados de Papel
Exposição de Banda Desenhada e Ilustração
Data: 19 de Novembro a 31 de Dezembro
Local: Galeria de Exposições Temporárias da Bedeteca de Beja (1º andar da Casa da Cultura)
Horário: De 2ª a 6ª feira das 9h00 às 23h00; Sábados das 14h00 às 20h00


Quando Fernando Bento desenhou o cabeçalho de um prospecto do Coliseu dos Recreios, em 1931, não adivinhava certamente que viria a ser um dos artistas mais significativos no contexto da banda desenhada portuguesa dos anos 40 e 50. Bento nasceu em Lisboa, em 1910. Desde muito pequeno que começou a contactar de perto com a magia contagiante do espectáculo, quer se tratasse do circo, da ópera, do musical ou do teatro. O pai trabalhava com o artista Ricardo Covões, o que permitiu ao jovem Fernando Bento o acesso aos bastidores do Coliseu e aos seus segredos. Aos poucos, naturalmente, Bento foi desenhando cenários, figurinos e cartazes, chegando a atingir grande sucesso em meados da década de 30. A crítica, através do Diário de Lisboa, do Diário de Notícias e d’O Século, entre outros periódicos, teceu enormes elogios ao seu trabalho de cenógrafo e figurinista. Parecia natural que Bento seguisse este percurso… Tinha então 25 anos e o mundo à espera. E na verdade foi o mundo que encontrou, mas o mundo das histórias aos quadradinhos, como então se chamava à banda desenhada…
Fernando Bento começou então a fazer banda desenhada para o jornal República, em 1938. A princípio as suas histórias não excediam algumas vinhetas, mas à medida que a linguagem dos quadradinhos se lhe tornava mais próxima foi enveredando por narrativas mais longas, dando-lhes maior consistência. Desenhou depois no Pim Pam Pum, no Diabrete, no Cavaleiro Andante e noutras publicações, deslumbrando centenas de jovens com as suas esguias figuras.
O traço de Bento é estilizado, a fazer lembrar, por vezes, o desenho de figurinista. Não é de estranhar por isso que os seus desenhos atinjam uma elegância que o torna, talvez, o desenhador mais original da sua geração… Algumas das sequências que desenhou lembram verdadeiros bailados de papel.
Bento, à semelhança da enorme maioria dos autores portugueses de banda desenhada, nunca criou uma personagem central para as suas histórias, como é costume entre muitos artistas do resto da Europa ou dos Estados Unidos. Preferiu perder-se pelos caminhos aventurosos do mundo seguindo a pena de Verne, Melville, Stevenson, Walter Scott ou, claro, Adolfo Simões Muller…
A exposição que agora se mostra, organizada pela Câmara Municipal de Moura, pelo Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, e pelo Grupo Bedéfilo Sobredense, assinala o centenário do nascimento de Fernando Bento, deixando descobrir o percurso ímpar de um artista incontornável para a história da banda desenhada portuguesa. Sem querer deixar de contribuir para a exposição, a Bedeteca de Beja juntou-lhe várias publicações (algumas de grande raridade) onde se pode apreciar o traço do Mestre…

(texto da responsabilidade da Bedeteca de Beja)

02/11/2010

Fernando Bento, as aventuras de uma vida

Chamava-se Fernando Bento e foi um dos mais notáveis autores portugueses de banda desenhada, no tempo em que esta ainda era (apenas) histórias aos quadradinhos. O centenário do seu nascimento comemorou-se no passado dia 26 de Outubro.
Em Fevereiro último fez 10 anos que nos foi servido um dos últimos tesouros coloridos por Fernando Bento. Foi nas páginas da revista “Selecções BD” (II série) e era uma vinheta do seu (inacabado) “Regresso à Ilha do Tesouro”, uma sequela do clássico de Stevenson, que o mestre português dos quadradinhos adaptou com argumento de Jorge Magalhães. Nele, o jovem Jim Hawkins, enquanto desce por uma amarra de um barco encalhado, afirma: “a aventura correu melhor do que eu esperava!”. O mesmo se pode dizer, sem dúvida, da vida e da obra de Fernando Carvalho Trindade Bento, nascido em Lisboa a 26 de Outubro de 1910.
Com os seus heróis fez “A Volta ao Mundo em 80 dias”, levando muitos leitores ao longo de várias gerações a dar consigo “A Volta a Portugal em Bicicleta”, conhecer “Histórias da nossa história”, partilhar uma “Viagem ao centro da Terra”, percorrer “Vinte mil léguas submarinas”, subir “A Montanha do Fim do Mundo” ou avançar pelo espaço “Da Terra à Lua”, em companhia de “Um herói de 15 anos”, “34 macacos e eu”, “Beau Geste”, “Matias Sandorf” ou “Quintino Durward, até à “Ilha do Tesoiro”, tudo em “Mil e uma noites” maravilhosas e mágicas. Vividas, sentidas, sofridas em constantes sobressaltos, sem sair de casa, descobertas nas fantásticas, vibrantes e envolventes páginas aos quadradinhos que delineou com um traço elegante, único e personalizado, vivo, ágil e dinâmico, se bem que fosse (ou porque era) autodidacta, apenas com um curso de desenho por correspondência, obtido na escola parisiense ABC.
Na sua formação “prática”, no entanto, encontram-se também longos períodos nos movimentados bastidores teatrais do Coliseu dos Recreios, local de trabalho do pai, onde, quem sabe, foi beber o sentido dos diálogos, a noção de movimento, a agilidade na composição das pranchas, a técnica de picado e contra-picado, o ritmo narrativo, a legibilidade e a eficácia da narrativa sequencial que o viriam a distinguir como um caso único na 9ª arte nacional. No entanto, nada parecia dirigi-lo para a BD, pois foi no mundo do teatro, na concepção de figurinos e cenários (muito elogiados) para “A última maravilha” e “O fim do mundo” que se fez notado, tinha apenas 25 anos. E só três anos depois, surgiriam os primeiros quadradinhos, na secção infantil do jornal “República”.
Estava longe de saber, certamente, mas muitos seriam as revistas que se lhe seguiriam – “Pim-Pam-Pum!”, “Diabrete”, “Cavaleiro Andante” foram as mais significativas – onde, a par da BD, espraiou também a sua arte por capas, ilustrações, caricaturas e desenhos humorísticos, como maquetista e director gráfico… Tudo feito em serões e tempos livres pois, “profissionalmente” foi sempre funcionário de escritório da BP.
A sua bibliografia – em que muitas vezes teve ao lado argumentistas como Helena Neves, Maria Amélia Bárcia ou Adolfo Simões Müller – é feita especialmente da adaptação de episódios da História pátria e de clássicos infantis, da literatura ou de aventuras (especialmente Jules Verne, mas também Robert Louis Stevenson, Herman Melville, Enid Blyton…), que soube recriar como poucos, em verdadeiras versões em quadradinhos, que patenteavam o espírito e todas as qualidades dos originais no novo suporte e que faziam igualmente sonhar. Foram cerca de três décadas de redobrado labor, até aos anos 1970, vividos mais longe das páginas desenhadas, às quais só regressaria de forma pontual.
Até ao tal “Regresso à Ilha do Tesoiro”, corria a década de 1990 e tinha Fernando Bento ultrapassado já a barreira dos 80 anos, em que (re)encontrou energia e mestria para, num traço com todas as qualidades que lhe eram (re)conhecidas mas renovado na forma, duma surpreendente modernidade, voltar a fazer vibrar todos os que leram as novas pranchas de reencontro com Jim Hawkins, Ben Gunn ou o pirata Long John Silver!
A morte – invejosa da sua arte? – levá-lo-ia a 14 de Fevereiro de 1996, pondo um ponto final na(s) sua(s) aventura(s), impedindo-o de terminar esta obra e de ver impressos os seus últimos desenhos.
Estivéssemos num país mais capaz de apreciar e acarinhar os seus criadores (também) de quadradinhos, e a obra de Bento estaria reunida numa bela e luxuosa edição. Como estamos em Portugal, para lá do (difícil) recurso às revistas onde as histórias foram publicadas originalmente, sobram meia dúzia de álbuns dispersos por várias editoras, alguns dos quais há muito esgotados.
Este ano a propósito de um centenário que o Amadora BD 2010 (que hoje se inicia) também assinala com uma exposição, mas que merecia maior projecção, duas câmaras, enquadrando uma mostra que também esteve na Sobreda, substituíram-se às editoras: a de Moura, que recuperou a versão que Fernando Bento fez de “Moby Dick, a baleia branca” (publicada originalmente no “Cavaleiro Andante”, em 1960), e a de Viseu, com “Um campeão chamado Joaquim Agostinho” (“A Capital, 1973), a biografia aos quadradinhos do ciclista luso.

(Versão integral do texto publicado no dia 30 de Outubro na revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

23/10/2010

Fernando Bento em Viseu

Depois de ter passado por Moura e pela Sobreda, abre hoje ao público, na Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, em Viseu, a exposição retrospectiva “Fernando Bento - Centenário do seu nascimento – Vida e Obra”. Iniciativa do GICAV com o apoio da câmara local, é composta por reproduções de algumas das suas obras mais significativas e ficará patente até dia 6 de Novembro, podendo ser visitada de segunda a sexta, entre as 8h30 e as 19h00, e aos sábados, entre as 13h00 e as 19h00.
No mesmo local, ainda hoje, às 15 horas será lançado o livro “Um campeão chamado Joaquim Agostinho”, que compila pela primeira vez a biografia aos quadradinhos do ciclista português, publicada originalmente em Agosto de 1973, no “Jornal da Volta”, suplemento do extinto jornal “A Capital”. A obra traça o perfil do campeão luso, desde a sua infância até à vitória na volta de 73, que posteriormente lhe seria retirada por doping.
Nome maior da banda desenhada portuguesa, Fernando Bento destacou-se na adaptação aos quadradinhos de episódios da História de Portugal e de clássicos da literatura, publicados maioritariamente nas revistas “Diabrete” e “Cavaleiro Andante”, entre 1940 e 1960. Curiosamente, os primeiros passos de Fernando Bento como desenhador foram dados nos anos 30 no jornal “Os Sports”, onde publicou caricaturas de ciclistas e ilustrações de temática desportiva.


(versão expandida do texto publicado no Jornal de Notícias de 23 de Outubro de 2010)

24/04/2010

BD para Ver - Fernando Bento em Moura



Hoje, sábado, às 18h, é inaugurada em Moura uma Exposição Comemorativa do Centenário de Fernando Bento, um dos maiores nomes dos quadradinhos portugueses.
A mostra, patente até 2 de Maio no Cine-Teatro Caridade, está integrada na XXX Feira do Livro da cidade e é organizada pela Câmara local, pelo GBS - Grupo Bedéfilo Sobredense e pelo GICAV - Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, devendo, por isso, ser apresentada depois no Solar dos Zagallos, na Sobreda, de 25 a 27 de Junho, e em Viseu, na Casa das Artes, na primeira quinzena de Outubro.
Na ocasião será apresentado um número especial dos Cadernos de Moura, com a reedição de “Moby Dick”, na versão aos quadradinhos que Fernando Bento fez do clássico de Herman Melville, originalmente publicada no Cavaleiro Andante, entre Fevereiro e Julho de 1960.
Fernando Bento, que nasceu a 26 de Outubro de 1910, começou a sua carreira aos quadradinhos em 1938, na secção infantil do jornal República, tendo depois passado por inúmeras outras publicações, com destaque para as revistas Diabrete e Cavaleiro Andante, de que foi um dos pilares. Com um traço personalizado, ágil e dinâmico, ficaram famosas as adaptações que fez, a solo ou a partir de argumentos de Adolfo Simões Müller, de episódios da História nacional ou de clássicos da literatura, destacando-se obras como “A Ilha do Tesouro” (1947), “As Mil e Uma Noites” (1948), “As Minas de Salomão”, “Serpa Pinto” (ambos de 1951), “Beau Geste” (152) ou “Quintino Durward” (1955).
Viria a falecer a 14 de Setembro de 1996, em Lisboa, cidade que deu o seu nome a uma das suas ruas, em 1999. Em Novembro desse ano, a revista “Selecções BD” (2ª série) iniciou a publicação da sua última banda desenhada, “Regresso à Ilha do Tesouro”, a partir de um argumento de Jorge Magalhães, de que não chegou a desenhar as últimas pranchas e que deixou apenas semi-colorida.

(Versão revista e alargada do texto publicado no Jornal de Notícias de 24 de Abril de 2010)
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