30/06/2017

Ronin

Abertura


Programar uma colecção como a Novela Gráfica 2017 que hoje se inicia com este Ronin, vai bem mais além da - atribulada! - escolha de títulos, o que por si só já não é tarefa fácil.
A simples - simples! - ordenação dos títulos - muitas vezes já condicionada pela rapidez de resposta dos editores originais, questões técnicas de preparação dos livros ou pelas simples - simples? - falhas humanas (tradução, legendagem, revisão…) é um desses aspectos.
Por várias razões, Ronin é uma boa escolha para a abrir.
A primeira é evidente. Frank Miller é um enorme nome dos comics e Ronin - com algumas questões intrínsecas a que já irei - é um dos seus títulos míticos. E para mais inédito em Portugal, onde apenas foi distribuído numa mini-série brasileira da editora Abril, há cerca de 30 anos.
Mas, ainda antes da obra, abrir com Frank Miller é importante porque atrai para uma colecção que está longe de lhes ser dirigida, os habituais leitores de super-heróis - mesmo que Ronin não se possa etiquetar neste género. (Por isso, depois de uma dupla piscadela aos leitores de franco-belga, com Traço de Giz, de Prado, e Os Ignorantes, de Davodeau, aqueles leitores sofrem nova “investida” com Batman uma história verdadeira, de Dini e Risso…)
(E isto hoje não desenvolve: independentemente das estratégias atrás apontadas, a importância - por razões diferentes - e a qualidade - por diferentes razões! - deste ‘fantástico quarteto’ de abertura é intocável, potencia as vendas mais altas que este tipo de colecções costuma ter no seu início e demonstra à saciedade o espírito que tem presidido às diferentes séries da Novela Gráfica e o que de melhor delas é legítimo esperar).

Vamos então a Ronin. Anterior aos aclamados Demolidor: Renascido e Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas é - desculpem alguns o que vou escrever - antes de mais uma obra experimental, onde Miller combina diferentes influências, técnicas e estilos e lança as bases das obras que o viriam a consagrar depois.
Tematicamente, associa o espírito nipónico - samurais e ronins, honra e consagração, queda em desgraça e necessidade de lavar a honra - com questões ciberpunks e futuristas - a crescente industrialização, a substituição de homens por máquinas, a cada vez maior autonomia destas no caminho de se tornarem (quase?) organismos vivos. E, no seu âmago, o essencial das suas obras: o ser humano enquanto boião de emoções muitas vezes contraditórias: honra, dever, amor, sentimento de culpa…
Mas é graficamente, que o carácter experimental - e nalguns aspectos premonitório do seu trajecto futuro - desta obra se revela mais. Nela, Miller cruza, à sua maneira, inserido num percurso de descoberta e desenvolvimento de um estilo personalizado, influências do manga que então despontava no ocidente, com outras provenientes da - distante, para os EUA - banda desenhada franco-belga, em especial as experiência de Moebius e de alguns dos seus parceiros da Métal Hurlant, o que resulta num modelo híbrido mas consistente e coerente. Depois, acrescenta-lhe uma imensa diversidade em termos de planificação, sucedendo-se páginas tradicionais com outras em que as vinhetas se multiplicam, páginas de vinheta única com outras com tiras sucessivas - ou o seu equivalente vertical - num conjunto que está essencialmente ao serviço do relato - mas que não esquece a importância de páginas apelativas e de grande impacto visual.
Conjunto a que há que adicionar igualmente o desenho, longe dos padrões tradicionais do comic americano de então – e de hoje também! - sem preocupações de beleza estética, por vezes mais próximo até do esboço apurado, apenas mais um elemento narrativo, que apresenta a obra aos olhos do leitor e lhe impõe o ritmo de leitura - e de fruição - que o autor pretende.
E se a utilização destes – e de outros - elementos, foi feita posteriormente por Miller de forma apurada, nas obras referidas e noutras mais, o que de alguma forma acaba por datar Ronin e não o inibe de algumas marcas que o tempo que passa lhe aportou, não deixa de ser uma obra importante - e não só no percurso deste autor - para mais numa boa edição a um preço imbatível - que daqui a alguns meses será inevitavelmente ajustado.

Nota final
Na lombada do livro está escrito 'Ronnie' em vez de 'Ronin'. Um erro lamentável e penalizador, que não devia ter acontecido mas aconteceu. Que só acontece a quem trabalha em edição. E que não foi detectado na montagem do livro, nem na revisão que é feita, nem pelos editores, nem pelo jornal, nem pela própria DC! Nem por nenhum dos bloggers - onde me incluo - que receberam antecipadamente a imagem. E que acontece pela primeira vez nas - várias dezenas de - edições da Levoir.
Suficiente para não comprar o livro, como alguns afirmavam no post de apresentação do livro, de hoje de manhã? A resposta cabe a cada leitor e todos têm direito à sua opinião, mas o erro - lamentável e penalizador, reitero - não afecta em nada a leitura. Que vale a pena.

Ronin
Novela Gráfica 2017 #1
Frank Miller (argumento e desenho)
Lynn Varley (cor)
Levoir/Público
Portugal, 30 de Junho de 2017
170 x 216 mm, 312 p., cor, capa dura
9,99 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

31 comentários:

  1. Olá Pedro,

    Não é um erro que ofusca a edição, que é bem boa, e se o problema é o erro, podem ver por outro prisma, não há mais nenhuma edição assim no mundo. É comprar todas as edições das bancas e vender daqui a uns bons anos no ebay ;)

    Abraço

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Para isso acontecer tinham que ser recolhidos e destruídos (que não aconteceu) em todas as copias tipo X-Men Gold 1.e que não vai acontecer aqui.Ou ainda mais recente a versão Epic Colection de Spider-Men Kraven Last Hunt tem algumas paginas com problemas.

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    3. Anónimo1/7/17 01:15

      Optimus Primal, está a falar do kravem last hunt publicado em português? Que páginas têm problemas?

      Obrigado,
      Ivo

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    4. Não estou a falar da encadernaçao de 2017 dessa saga pela Marvel:

      https://target.scene7.com/is/image/Target/51995584?wid=520&hei=520&fmt=pjpeg

      https://www.mycomicshop.com/search?TID=43469057

      a versao pt é baseado na premiere edition hc/sc anterior

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  2. Sinceramente já defendi o erro que aconteceu no Sandman, mas neste caso é um erro muito penalizador. Comprei o livro... Afinal tenho curiosidade na narrativa. Mas que como objecto de culto fica muito desvalorizado e percebo perfeitamente quem não o comprar. Arrisco mesmo que sendo um livro forte e apelativo para começar a colecção se arrisque a ficar com muito stock. De todo o grado acrescento que compraria uma 2º edição com a gralha corregida.

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    1. Percebo o que queres dizer, mas neste nicho de mercado, todos compraremos, logo onde existe exactamente a valorização de um objecto de culto?

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  3. O erro da lombada é grave? É, mas a gravidade é relativa. Afinal, estamos a falar de um livro, e não de um alimento adulterado ou de um medicamento não testado. O facto da lombada dizer "Ronnie" em vez de "Ronin" não impossibilita a leitura da história, ou obsta ao prazer da mesma. Na pior das hipóteses,acaba por ser uma curiosidade que, daqui a uns tempos, dará uma boa anedota para quem ainda tiver o livro.
    Eu queria ter e ler esta obra já há muitos anos, e estar em português, com capa dura e por este preço, é uma proposta irresistível, independentemente do que venha escrito na lombada. Como não faço ideia se haverá recolha e reedição com a lombada corrigida, ou não, e não quis arriscar deixar passar a oportunidade, comprei.

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    1. Também compravas se estivesse "Sporting Olé" na capa???

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    2. COMPRAVA 30 Exemplares!

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    3. Sim, compraria, até porque o Sporting é o meu clube com muito orgulho.

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  4. sugeria desde já outras lombadas, se ainda forem a tempo: Traço de Xis, e Os Livros da Maggie.
    Não é, nem de perto nem de longe, o primeiro erro Levoir. Tivemos os riscos do Sandman, tivemos textos de balões repetidos, tivemos (tantas vezes) identificação incorrecta de autores, histórias, capistas na introdução dos livros... a última, assim de cabeça: a capa do Hiketea, da Mulher-maravilha, não é, decididamente, o Christopher Moeller, como lá está escrito...

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    1. ahahah pois foi, já nem me lembrava dessa do Moeller... A culpa também deve ter sido do atelier do Jorge Silva coitado, anda a trocar tudo.

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  5. "Um erro lamentável e penalizador, que não devia ter acontecido mas aconteceu. Que só acontece a quem trabalha em edição. E que não foi detectado na montagem do livro, nem na revisão que é feita, nem pelos editores, nem pelo jornal, nem pela própria DC!", escreve o blogger.
    Mas que quase não se detectam nos livros da G-Floy e da Salvat!

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  6. Obviamente pco69 é tão anónimo quanto os anónimos que de repente se meteram a comentar, mas não deixa de ser interessante esse crescimento de "anonimismo" relativo ao uma mera lombada de um mero livro de BD. Que até já merece comentários invocando nomes de clubes de futebol.

    Deixar de adquirir um livro, por causa de uma lombada?
    Eu coloco essa decisão na frase "Dá Deus nozes a quem não tem dentes"...

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    1. Característica do ser humano. Escondidos, anonimos, mesmo com nome somos todos incógnitos e como tal, super herois no debitar de palavras a um ritmo vertiginoso nas redes sociais, blogs, especialmente no que toca a criticar. Criticar e criticar. Hobbie mundial numero 1.

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  7. O erro é grave? É. Penaliza a edição e envergonha (ou devia) os responsáveis da revisão? Sim. É suficiente para deixar de comprar? Talvez. Depende da exigência estética de cada um. É suficiente para 99% dos comentários em ambos os posts serem sobre uma gralha na lombada??? No further comments...

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  8. Eu também só dei pelo erro quando o pus na pilha de leitura.,mas lá esta é uma historia que quero mesmo ler.

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  9. Bem hoje comprei esta grande obra que já esperava à muito e também deparei com este erro na lombada... fiquei desapontado? Sim fiquei mas erros acontecem e não é nada que comprometa a minha leitura
    Muitas pessoas esquecem que são muitas obras a sair em simultâneo em Portugal e obras de qualidade
    É de louvar o trabalho que tem sido feito em edições de qualidade e bastante baratas!
    Espero claro que a Levoir tenha mais atenção nestes pormenores no entanto já aguardo por mais colecção da Vertigo até ao final do ano :)

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    1. Mias uma coleção da Vertigo. Isso é que é a falar! ;) e a minha carteira chora.

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  10. O erro é relevante mas não deve ser razão para não comprar o livro. Pelas razões supra expostas o livro deve ser adquirido.

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  11. Já agora acrescento.
    Estou verdadeiramente admirado de não ver pessoal a reclamar de um divro de apenas 312 páginas (capa dura ainda por cima) a custar a brutalidade de 9.99euros...
    Há editoras que não têm respeito nenhum para com os seus clientes.

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    1. Sinceramente eu é que não percebo essas desculpas dos prazos apertados e dos preços baratos... Quando o senhor vai ao McDonalds diz-lhes que os hamburgueres deles são demasiado baratos? Ou assume que se os estão a vender a esse preço e continuam a fazê-lo e a crescerem é porque têm lucro? Ah e com certeza que quando lhes pede o Big Mac e eles lhe trazem o McFish, você diz "coitadinhos têm um prazo tão apertado, vou comer e ainda agradecer-lhes por não me deixarem morrer à fome". Este cinismo bafiento que às vezes vem à tona...

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  12. Só não consigo perceber a ideia de cortar páginas da edição original para incluir um texto de um tuga qualquer com excertos da wikipédia... O dinheiro que foi para pagar "introduções" cobria as 20 páginas de material original que foram cortadas. Enfim, em vez de se pensar na qualidade artística, pensa-se nos amigos e agora é vê-los a rirem-se das suas próprias trapalhadas enquanto o fogo arde.

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    1. O que é que entende por edição original? Em primeiro lugar, a série saiu em comics prestige, em seis partes. Sem extras. A primeira edição americana também não incluía extras. A edição Absolute, se não me engano tem mais extras ainda, outras menos; o Ronin já passou literalmente por umas 6 ou 7 edições diferentes. O conceito de "original" neste tipo de edições é sempre incerto. Para não falar no facto de que se calhar, não parou para pensar que imprimir, p.ex. mais dois cadernos de livro é bem mais caro do que fazer um prefácio de duas páginas, e que para levar ao público 15 livros por 9,99€ por livro, a maioria dos quais com mais de 200 pgs (e por vezes 300pgs) são necessários alguns malabarismos. Como por exemplo, não ter mais 24 pgs num livro para poder ter outro livro na colecção.

      De qualquer maneira, os fãs queixam-se por tudo e por nada. se não há prefácios, é um desastre (ver a colecção da DC No Coração das Trevas, em que se contaram às dezenas as queixas de não haver prefácios), mas se têm prefácios, também se queixam.

      Vou queixar-me agora de que não respeitaram a versão original e não editaram o Ronin em seis comics prestige. Parece incrível! Pelo menos não incluíram os extras... pfff... Respeitaram o alinhamento original...

      Agora a sério: não existe edição original: existem edições múltiplas, e uma coisa é lamentar que não inclua extras, outra vir falar de "original".

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    2. Mas só houve uma edição a servir de base para esta, a servir como referência. E tendo em conta a capa e o alinhamento essa edição tinha mais 20 páginas de material. Essa é a edição original e esta a traduzida. Estou ciente que há pessoa que querem introduções e a Levoir tem de dar resposta a esse desejo. Mas, neste caso, esse não era um problema, tendo em conta que a edição original já continha uma introdução da ex-presidente da DC Jenette Kahn. Não percebo porque não se traduziu apenas esse texto, optando pela solução, definitivamente mais cara e mais morosa, de pagar um texto novo a alguém, que no fim de contas dedica metade do texto a fazer citações de uma entrevista do Frank Miller sendo a outra metade ocupada com perífrases e citacões diretas da introdução original.

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    3. O processo de produção dos livros é muito diferente, sobretudo nos casos como este que tem literalmente meia dúzia de versões. PRIMEIRO decide-se qual a história/livro a editar, e só depois, tendo em conta a colecção TODA e os seus custos globais é que se pode fazer uma orçamentação de cada livro (o que se gasta nuns terá de se cortar por vezes noutros, a colecção do ponto de vista da editora funciona como um todo).

      E só DEPOIS é que se vai olhar para cada livro e ver que edição usar, ou que extras incluir. A colecção tem um design em que as primeiras 6 páginas são sempre usadas para conteúdo editorial, quer este prefácio, quer outro (da Jennete Kahn ou de que seja), e obviamente o custo de um prefácio é menor do que o custo de incluir mais 16 pgs. O tamanho do livro estava definido de antemão, e se por vezes é possível negociar um ajuste entre dois livros, por exemplo, isso também depende de serem a preto e branco ou a cores, ou do números de cadernos vs. meio cadernos, etc...

      Resumo da história: a ênfase é sempre a história, e os extras são isso mesmo, extras, sempre dependentes da orçamentação final da colecção. Que afinal de contas não pode custar mais do que X, para os livros poderem chegar às bancas a 9,99€.

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  13. O erro de titulagem na lombada é de facto lamentável. Até agora as séries Novela Gráfica da Levoir têm primado pela qualidade de edição, com uns pequenos senãos. Lamento mais o facto de não se ter aproveitado o facto de incluir material extra forma e enriquecer a edição (entrevistas, esboços, capas, etc...).

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  14. Já agora e entrando na obra verdadeiramente dita, )creio que vou a cerca de metade da coisa), por mais obra fundamental que seja e que tenha aberto novos caminhos à BD (nomeadamente à que tem origem nas terras do tio sam), a mim não me tem encantando.

    Estou loge de gostar do desenho, prefiro muito mais um desenho limpo (excelente exemplo deste meu gosto é a série Velvet) e as tais pranchas verticais e horizontais e etc.. na verdade, em vez de me encantarem com esse design inovador, em algumas das vezes sinto-me perdido em termos de saber qual é a vinheta seguinte a ser lida tendo de andar aos saltos à procura do texto que faça sentido.

    Com tudo isto, sinto-me desiludido por ter dado 9.99 por um livro do qual não estou a gostar muito?
    Eu sou idiota, mas não completamente idiota :-)

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  15. Nota da Levoir na sua página de Facebook (peço desculpa ao Pedro Cleto se me estou a sobrepor a algum post mais 'oficial' que queira fazer)

    "No primeiro volume da colecção Novela Gráfica, Ronin, editado no dia 30 de Junho, por lapso o nome na lombada aparece errado como Ronnie e não Ronin. Lamentamos o sucedido e pedimos desculpa pelo erro.
    Encontrou-se uma primeira solução rápida que foi enviar um autocolante para colar por cima e assim foi comunicado aos leitores que entraram em contacto connosco.
    Após análise das diferentes opções para minorar o erro, que necessariamente levou alguns dias para consulta e acordo de todos os envolvidos, foi decidido também produzir uma sobrecapa para o referido livro.
    Assim sendo, os leitores têm agora duas opções:
    1.- Etiqueta autocolante a ser enviada a uma morada em Portugal pelos CTT. Agradecemos enviem nome e morada para o mail: info@levoir.es
    2.-Sobrecapa a ser levantada nos pontos de venda onde adquiriu o livro, mediante a apresentação do mesmo. Nesta opção o timing previsto de entrega é de 3 semanas, efectuaremos a notificação da data de disponibilidade nos pontos de venda com um novo post.
    Obrigado pela compreensão."

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  16. Recebi hoje dois autocolantes RONIN!
    E uma carta da levoir. Estou feliz!

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